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[Artigo] Notícias relacionadas parte 1: sobre a destruição de monumentos

[Artigo] Notícias relacionadas parte 1: sobre a destruição de monumentos

Texto e ilustração de capa, Bruno Oliveira, coordenador de programação da Casa 1

Impelidos por uma reconhecida violência estrutural contra pessoas negras e pelo recente assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis (Estados Unidos) no dia 25 de maio de 2020, diversos protestos foram mobilizados mundialmente na última semana a partir da insígnia “Black Lives Matter” (ou “Vidas Negras Importam”). Em diversos dos protestos ecoavam gritos de solidariedade às comunidades negras, latinas e indígenas de seus territórios e ao próprio Floyd, como “Não consigo respirar” (frase repetida por Floyd antes de sua morte), “Sem paz, sem justiça” e “Racistas são terroristas”.

Neste domingo, dia 07/06, a passeata ocorrida em Bristol (Reino Unido) produziu imagens que estamparam notícias e relatos sobre as manifestações: a estátua de bronze, de autoria do escultor irlandês John Cassidy,  foi inaugurada em 1895 em homenagem à um rico traficante de escravos e antigo membro do Parlamento Britânico, Edward Colston, foi amarrada e arrancada de seu pedestal. Em seguida, o monumento foi empurrado pelo asfalto na Avenida Colston1  até seu leito final no fundo do Rio Avon, a alguns metros de seu pedestal.

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Fonte: https://www.bbc.com/news/uk-england-bristol-52955868. Acesso em: 8 de jun. 2020.

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“É uma investida contra a civilização”, afirmou Victor Brecheret Filho em entrevista concedida à Veja São Paulo no dia 30 de setembro de 2016, a propósito da intervenção ocorrida na madrugada anterior sobre o “Monumento às Bandeiras”, escultura desenhada por seu pai, Victor Brecheret, em 1920, e erguida para as celebrações do IV Centenário da Fundação da Cidade de São Paulo em 1953. De autoria não identificada, a ação envolveu cobrir o monumento de granito com tinta látex rosa, amarela e turquesa e foi vinculada nos meios de comunicação ao debate entre os candidatos à prefeitura da cidade de São Paulo televisionado na noite anterior e à iminência da realização das eleições municipais. Na ocasião também foram alvo de ações o “Borba Gato”, de Júlio Guerra, erguido em 1963, e o edifício da Secretaria Estadual da Educação, inaugurado em 1894 como sede da Escola Normal Caetano de Campos.

De lambança à barbarismo, a intervenção (uma entre tantas2) foi recebida com ultraje pela população e pelos órgãos responsáveis pela manutenção do patrimônio. Em declaração ao jornal O Estado de S. Paulo, a então diretora do Departamento do Patrimônio Histórico, órgão da Secretaria Municipal de Cultura, Nadia Somekh, ressaltou o dano que tais ações geram à escultura, tendo em vista que o processo de limpeza envolve, também, risco à obra, que vai perdendo camadas à cada limpeza: “Estou indignada e chateada. É uma tristeza ver o nosso patrimônio danificado. Nós vamos limpando e o monumento vai danificando. Daqui a pouco não vai ter mais pedra”.

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Fonte: https://noticias.uol.com.br/album/2013/10/03/monumento-das-bandeiras-e-pichado-e-sujo-por-tintas.htm. Acesso em: 8 de jun. 2020.

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Monumentos são vinculados à um registro fundamental, para o processo moderno/colonial, do ideal de progresso. Sua construção e consolidação estão vinculadas à sedimentação de marcos de subjetividade e memória coletiva, orientanda à uma percepção de um mundo total, linear e hegemônico. Podemos recorrer aqui à noção de colonialidade do poder (QUIJANO; WALLERSTEIN, 1992), compreendendo processos de reprodução de lógicas de opressão, domínio e exploração que extrapolam a esfera do poder político-econômico, versando também sobre a colonização do imaginário. Este seria o mecanismo essencial dos monumentos de dominação racista, patriarcal e capitalista (FEDERICI, 2017), em especial no contexto latino-americano, instaurando um processo de violências epistemológicas continuadas e permanentes.

Neste sentido, devemos assimilá-los como imagens que performam aspectos memoriais e educativos na cidade para fazê-los descer ao patamar da mesa e possam ser remontados e recodificados. É possível ainda, a partir da concepção dialética da história de Walter Benjamin (LÖWY, 2011:21), entender que todo documento-monumento (LE GOFF, 1996) possui intrinsecamente (e mutuamente) elementos da cultura e civilização e da barbárie. São, por isso, elementos de transmissão, alegorias, de uma noção triunfante de continuidade e evolução histórica, “despojos que tem por função confirmar, ilustrar e validar a superioridade dos poderosos” (LÖWY, 2011:22). Ao compreender os documentos-monumentos como imagens deste díptico cultura-barbárie moderno/colonial, podemos passar a questão dos propósitos de sua constituição, “(…) quais são os aspectos que aí se tornam visíveis, as evidências que apareceram, as representações que primeiro se impõem” (DIDI-HUBERMAN, 2015:205).

De forma geral, monumentos, museus, galerias e espaços culturais, seus acervos, suas exposições e seus documentos constituintes e associados, assim como universidades e seus edifícios e a disciplina própria da história das imagens (da arte, por extensão), podem ser compreendidos como parte fundamental de um conjunto de instituições disciplinares (FOUCAULT, 1987:198) que se ocupam da estruturação e manutenção de memórias e representações sociais estáveis e homogêneas. A garantia do domínio das narrativas e imagens de um dado território, a cultura e sociedade, em especial no contexto latino-americano, foi (e ainda é) fundamental para a organização dos estados modernos (ANDERSON, 2008:30). Tais instituições e disciplinas ocupam posições contraditórias e complexas, e, neste sentido, torna-se fundamental compreender a maneira como se articulam e operam, tendo em vista que “são importantes porque ainda mantêm uma posição simbólica aparentemente sustentada pela cultura democrática, cujo cerne é, de fato, a própria noção de cidadania” (MELENDI, 2017:20).

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Desenvolvido inicialmente como fruto da tese de mestrado em Artes Visuais em 2001 da artista visual Néle Azevedo no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, a série de intervenções “Monumento Mínimo” se caracteriza por uma ação efêmera que subverte as noções fundacionais dos monumentos: é um registro de memória, um documento pequeno, temporário, itinerante e de corpos anônimos – em oposição à solidez grandiosa da pedra e dos heróis da história, encontrados nos grandes monumentos públicos. De acordo com o site da própria artista, até 2004 as intervenções se constituíam de uma ou duas esculturas em gelo eram colocadas em diferentes locais, que derreteriam e desapareceriam com o tempo. A partir de 2005, Azevedo passa a concentrar diversos dos pequenos corpos anônimos em gelo em um mesmo local, que também desaparecem com o tempo e que contam com a colaboração de voluntários para a confecção das esculturas em gelo a partir de moldes já produzidos.

O documento da cultura gerado pelo dispositivo proposto por Néle Azevedo se detém, assim, à experiência dos participantes e expectadores e, por conseguinte, a reproduções audiovisuais oficiais ou particulares da ação. Pode-se afirmar ainda que o registro que propõe não é exclusivo aos grandes heróis da história moderno/colonial ocidental, como aponta a convocatória de voluntários publicada no site do Paço das Artes, para a realização de uma intervenção no encerramento das atividades de sua sede na Cidade Universitária (março de 2016):

Em uma ação de poucos minutos, os cânones oficiais do monumento são invertidos: no lugar do herói, o anônimo; no lugar da solidez da pedra, o processo efêmero do gelo; no lugar da escala grandiosa do monumento, a escala mínima dos corpos perecíveis. (…) Ele perde a sua condição estática para ganhar fluidez no deslocamento urbano e na mudança de estado da água. Concentram-se em pequenas esculturas de homens pequenos, os homens comuns.

Estes documentos-monumentos mínimos, realizados em uma inversão de perspectiva, não apenas compreendem a mutualidade da cultura-barbárie, como apreendem este lugar e fazem dele uma entrelinha permanente. No limite de tornar-se uma sentença de damnatio memoriae 3 , a intervenção de Azevedo restitui os restos à esfera pública, realizando um gesto análogo ao percebido por Didi-Huberman nas montagens do cineasta alemão Harun Farocki: “toma nas instituições o que elas não querem mostrar – o rebotalho, o refugo, as imagens esquecidas ou censuradas – para retorná-las a quem de direito, quer dizer, ao ‘público’, à comunidade, aos cidadãos” (DIDI-HUBERMAN, 2015:206).

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A limpeza do “Monumento às Bandeiras”, após a intervenção ocorrida às vésperas das eleições em 2016, demorou cerca de 10 dias e foi realizada com um produto químico específico para granito e, em seguida, com jatos de água. O temor de Somekh, então diretora do Departamento do Patrimônio Histórico, de que a escultura seja limada ao chão em seus recorrentes restauros, até que não haja mais pedra, remonta o dispositivo de Néle Azevedo nos “Monumentos Mínimos”, que, de acordo com Guilherme Wisnik, tem como eixo central “a morte como ritual, e o luto como transcendência, isto é, possibilidade continuada de vida. Daí a recuperação da noção de ‘monumento’, cuja origem histórica está ligada aos ritos funerários e sagrados – túmulos e templos” (2005:s/p).

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For the master’s tools will never dismantle the master’s house. They may allow us temporarily to beat him at his own game, but thet will never enable us to bring about genuine change. (LORDE, 2017:19)

O expurgo do monumento de Colston em Bristol na última semana responde, obviamente, à uma necessidade urgente de extermínio dos dispositivos históricos de submissão e conformidade da memória, pauta fundamental das manifestações. Este e outros tantos monumentos são, afinal, documentos em metal e pedra de uma necropolítica (MBEMBE, 2018) estruturante destas sociedades, bem como de suas construções ideológicas sobre corpos sujeitados, seus processos de subalternização, exploração e precarização.

Nestas iconoclastias constituem-se exercícios de desestabilização das narrativas do poder, seja pelo extermínio dos monumentos ou pelo escracho continuado e permanente (como o caso Monumento às Bandeiras). Há sobretudo um desejo de encontro com possibilidades criação de outras gramáticas, narrativas e políticas, que possam restituir sentidos sociais e agências: não a partir de uma ideia de completude ou de retornar “alguma coisa a alguém para que ele anexe e se privilegie [e sobre ele prevaleça] um direito privado. A restituição não implica nem a anexação nem a aquisição de propriedade” (DIDI-HUBERMAN, 2015:210), mas um questionamento necessário dos documentos da memória.

Entendendo o racismo, patriarcado e capitalismo como estruturas fundantes de sociedades e subjetividades, o que apontamos aqui é que, mais do que o extermínio imediato da memória destas violências, é necessária uma arruína continuada dos monumentos. Nos referimos precisamente a estratégias de profanação do poder, e à devolução da possibilidade de uso e agência a quem lhe é de direito. Promovendo escrachos permanentes, e, nestas limpezas sucessivas do dispositivo de manutenção poder, performar rituais funerários continuados, a longo prazo, de restituição da memória dos vencidos. Performar, nestas disputas da história e das políticas, reduções infinitesimais permanentes e graduais da monolítica história moderno/colonial dos grandes heróis na recorrente enunciação da história dos vencedores.

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1 O escravagista também dá nome à outra rua na região, além de escolas, edifícios e um pão doce relativamente popular, comido na data em novembro na data em que se celebra sua memória.

Entre elas, destacam os aqui o julgamento do Borba Gato em 2008 (Ver: http://crimideia.com.br/blog/?p=172) e a intervenção no Monumento às Bandeiras durante a passeata contra a PEC 215/2013 (Ver: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/10/manifestantes-jogam-tinta-vermelha-no-monumento-bandeiras.html)

Damnatio memoriae é a sentença de “condenação da memória” aplicada pelo senado da República romana, que castigava com o apagamento de todas aparições e registros públicos de existência de determinada pessoa para que fosse esquecida pelas futuras gerações.

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Referências

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a expansão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

BENJAMIN, Walter. Passagens. São Paulo/Belo Horizonte: Imprensa. Oficial/Ed.UFMG, 2006.  

DIDI-HUBERMAN, Georges. Devolver uma imagem. In: ALLOA, Emmanuel (org.). Pensar a Imagem. São Paulo: Autentica, 2015.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4.ed. Campinas: Unicamp, 1996.

LORDE, Audre. The Master’s Tools Will Never Dismantle the Master’s House. London: Penguin Classics, 2017.

LÖWY, Michael. “A contrapelo” – A concepção dialética da cultura nas teses de Walter Benjamin (1940). In: Lutas Sociais, São Paulo, n.25/26, p.20-28, 2º sem. de 2010 e 1º sem. de 2011.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

MELENDI, Maria Angélica. Estratégias da arte em uma era de catástrofes. Belo Horizonte: Cobogó, 2017.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgardo (Comp.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO – Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2000.

___. Colonialidade el poder y classificación social. In: CASTRO-GÓMEZ, Santiago; GROSFOGUEL, Ramón (Orgs.). El giro decolonial: reflexiones para uma diversidad epistemica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre/ Universidad Central/ Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos/ Pontificia Universidad Javeriana/ Instituto Pensar, 2007.

WISNIK, Guilherme. Secreto Convívio – Reflexões sobre o Monumento Mínimo. Disponível em: https://www.neleazevedo.com.br/texto-secreto-convivio. Acesso em: 07 Jul. 2019.

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