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A origem de “The Boys in the Band” , novo longa de Ryan Murphy pra Netflix

A origem de “The Boys in the Band” , novo longa de Ryan Murphy pra Netflix

Por Renato Barreto, editor e mestrando em teoria literária.

Os rapazes da banda estão de volta

Estreou ontem na Netflix a nova versão de “The Boys in the Band”, com produção assinada por Ryan Murphy, conhecido pela realização de séries de sucesso como Glee, American Horror Story, Pose e Ratched.

Originalmente trata-se de uma peça de teatro estadunidense escrita em 1967 pelo dramaturgo Mart Crowley, falecido em março deste ano.

A peça estreou em Nova York no simbólico ano de 1968, causando alvoroço entre público e crítica por ter sido encarada como a primeira peça de temática 100% homossexual a retratar um grupo de amigos gays vivendo uma vida comum.

A história se passa no mesmo cenário e retrata os acontecimentos de uma única noite: o apartamento de Michael, que oferece uma festa de aniversário para seu amigo Harold, na companhia de Donald, Emory, Larry, Hank e Bernard, além de Cowboy – um garoto de programa – e Alan, o “estranho no ninho” supostamente heterossexual.

Os diálogos são carregados de humor, ironia e shades para todos os lados, e o que se inicia como uma festa entre amigos, com o passar das horas, torna-se uma tensa, violenta e dramática lavação de roupa suja.

Michael: “Uma coisa a gente pode dizer sobre masturbação: você com certeza não precisa estar muito bonito.”

Em 1970 o texto foi adaptado para o cinema, com o mesmo elenco da encenação teatral original e direção de William Friedkin, mais conhecido por filmes como “O Exorcista” (1973).

No mesmo ano, apesar da censura do governo militar, a peça foi encenada no Brasil, sob o título de “Os Rapazes da Banda”, com tradução de Millôr Fernandes e nomes como Raul Cortez, Walmor Chagas e John Herbert no elenco, além da atriz Eva Wilma na produção.

Cartazes da versão brasileira do espetáculo

Entre todos esses acontecimentos, em junho de 1969, aconteceu um evento marcante para a história das mobilizações da comunidade LGBTQIA+ em todo o mundo: a Revolta de Stonewall, em Nova York.

Michael: “Que diabos há de tão engraçado?”

Harold: “A vida. A vida é uma maldita confusão de risadas.”

Embora já existisse uma espécie de ativismo em construção nas décadas anteriores, a Revolta de Stonewall foi um acontecimento tão disruptivo que acabou sendo tomada como marco zero do movimento gay organizado, uma distorção que tem sido cada vez mais questionada dentro e fora dos Estados Unidos.

Com isso, a nova noção de orgulho provocou uma revisão da obra de Crowley, agora encarada como deslocada do momento e um retrato de uma “velha” homossexualidade. Pouco mais de um ano após seu lançamento nos palcos, “The Boys in the Band” já era encarada como uma “peça de época”.

Outro fator histórico que marcou o mundo dali em diante foi a epidemia do HIV/AIDS, sobretudo a partir dos anos de 1980, o que colocou “de volta no armário” o orgulho construído desde o período pós-Segunda Guerra Mundial entre as pessoas homossexuais.

Michael: “Quem era que sempre costumava dizer: ‘me mostre um homossexual feliz e eu lhe mostrarei o cadáver de um gay?’”.

Uma fala como essa, que costuma ser uma das mais destacadas do texto de Crowley, até hoje soa bastante inquietante, especialmente quando se considera que boa parte do elenco original faleceu de complicações da AIDS a partir da década de 1980.

Assim, as visões negativas que se avolumaram fizeram com que “The Boys in the Band” permanecesse num limbo por anos a fio, até que novas ondas de interesse provocassem uma revisão das avaliações críticas da peça e do filme. Uma resenha publicada pelo jornal The New York Times em 1996 chegou a afirmar que “aparentemente é ok gostar de The Boys in the Band de novo”.

Crowley escreveu uma continuação, “The Men from the Boys”, encenada no circuito off-Broadway* em 2002, mas sem grande repercussão. A história mantém o foco no grupo de amigos, agora reunidos por ocasião do funeral de um deles, Larry.

Mais adiante, após uma bem-sucedida nova montagem na Broadway em 2018, incluindo um prêmio Tony no ano seguinte na categoria de melhor revival de peça de teatro, surge agora a versão em filme da Netflix, com direção de Joe Mantello.

Cena do filme da Netflix

O elenco é formado somente por atores homossexuais cisgêneros assumidos, entre eles Jim Parsons, Zachary Quinto e Matt Bomer, ao contrário do elenco da versão original, que contava com alguns atores heterossexuais cis interpretando homens gays e atores gays não assumidos.

Em 2020, “The Boys in the Band” pode, de fato, ser encarada como uma relíquia. Afinal, uma turma de amigos reunidos num espaço fechado, em tempos de Covid, soa por si só algo bastante nostálgico e deslocado no tempo. Por outro lado, uma obra que explora as relações humanas construídas a partir de uma existência homossexual não deixa de ser afirmativa e controversa – especialmente em tempos obscuros como estes.

Michael: “I don’t understand any of it. I never did.”

*Off-Broadway: em referência a teatros de Nova York com capacidade entre 100 e 499 lugares

Renato Barreto é editor, mestrando em teoria literária pela EFLCH da Unifesp e autor da pesquisa em andamento “A surdez histórica: um estudo de The Boys in the Band e a obliteração da memória LGBTQIA+”.

@renato.barrreto | barreto.renato2@gmail.com

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