“Lana, como eu odeio esses caras!” acompanha o encontro entre duas adolescentes e discute
armário, medo da rejeição, aceitação e liberdade para compreender o próprio desejo.
“Arthur Simon constrói uma narrativa cinematográfica onde o humor faz respirar entre os momentos de tensão crescente e o amor aparece quando ninguém o estava buscando. O romance se ilumina com personagens que ficam na memória, articulando temas como identidade, desejo e a coragem de enfrentar o ódio quando ele tem nome, endereço e se organiza.”
Uma mudança inesperada para uma pequena cidade do interior coloca uma adolescente diante
de sentimentos que ainda não sabe nomear, de uma amizade que se transforma em amor e de
uma ameaça que atravessa gerações. Em Lana, como eu odeio esses caras! (Casa de Astérion,
326 páginas), romance de estreia de Arthur Simon, Jéssica é arrancada da vida que conhecia
em Florianópolis e levada para Hortênsias, cidade fictícia de colonização alemã em Santa
Catarina. Ali, em meio à hostilidade de uma comunidade fechada, ela conhece Lana, uma
vizinha de cabelo platinado, tatuagem de arco-íris e uma habilidade surpreendente: mover
objetos com a mente.
Ambientado em 2008, o romance combina coming-of-age, suspense sobrenatural e thriller
político para contar uma história sobre identidade, desejo, pertencimento e enfrentamento do
conservadorismo. Ao mesmo tempo em que acompanha a descoberta da bissexualidade de
Jéssica e sua aproximação com Lana, o livro mergulha em um passado marcado pela repressão
e revela que determinadas ideias não ficaram restritas aos livros de História.
A ambientação também recupera um período de transição tecnológica e cultural que marcou
uma geração. Orkut, MSN e comunidades virtuais aparecem ao lado de referências pop como
Britney Spears e Friends. Jéssica é fã de Britney e escuta o recém-lançado Blackout, enquanto
mantém conversas pelo MSN com a amiga que ficou na cidade anterior. Esses elementos
ajudam a reconstruir o cotidiano de 2008 e aproximam o leitor da experiência da protagonista.
Um amor em meio ao conservadorismo
A relação entre Jéssica e Lana é um dos centros da narrativa. Em uma cidade onde aquilo que
foge do padrão é recebido com desconfiança ou violência, a aproximação entre as duas se
transforma em espaço de descoberta, acolhimento e enfrentamento.
É Lana quem ajuda Jéssica a compreender e nomear sua própria sexualidade. “A gente nasce do
jeito que tem que nascer”, diz a personagem em um dos momentos mais marcantes da história.
A partir daí, o romance aborda o peso do armário, o medo da rejeição familiar e a importância
da aceitação, especialmente durante a adolescência.
Para Simon, Lana, como eu odeio esses caras! é também o livro que gostaria de ter encontrado
quando era mais jovem. “O livro que eu gostaria de ter lido (e, melhor ainda, escrito) quando
mais jovem”, afirma o autor.
A dimensão LGBTQIAPN+ da narrativa não aparece, porém, isolada da história de suspense. O
amor entre as protagonistas está diretamente ligado ao conflito maior que atravessa
Hortênsias, fazendo com que a descoberta individual de Jéssica se encontre com uma disputa
mais ampla sobre memória, identidade e poder.
Um passado que insiste em permanecer
Enquanto Jéssica e Lana se aproximam, a descoberta de diários de 1942 amplia a dimensão da
trama. Os registros revelam que o avô de Lana viveu um amor proibido durante o Estado Novo,
período marcado pela repressão a imigrantes alemães e pela perseguição a homossexuais.
O passado, entretanto, não está encerrado. O nazismo e o integralismo aparecem na trama
associados a uma organização secreta que continua atuando na cidade. A investigação leva os
personagens a perceberem que as ideias que sustentaram diferentes formas de violência no
passado ainda podem encontrar espaço no presente.
“Hortênsias é a prova de que os ideais nazistas ainda estão entre nós”, escreve a mãe de
Jéssica, jornalista, em um artigo que explicita uma das principais tensões políticas do romance.
A construção desse conflito também dialoga com pesquisas realizadas pelo próprio autor sobre
o conservadorismo em Santa Catarina. Segundo Simon, esses temas são “temas que me
compõem” e, por isso, não poderiam ficar de fora da obra.
A história transforma, assim, o resgate histórico em parte essencial do suspense. Ao investigar
o passado da cidade, as personagens também precisam lidar com aquilo que permanece vivo
no presente.
Uma narrativa construída como “história dentro da história”
A escrita de Simon é “cinematográfica e hiperestésica”, termos utilizados pelo mestre Luiz
Antonio de Assis Brasil, com quem concluiu uma oficina literária em julho de 2026.
O romance alterna momentos de tensão e cenas de intimidade, construindo uma narrativa que
se desloca entre diferentes tempos, registros e perspectivas. Além da narração tradicional, a
obra incorpora bilhetes, posts em fóruns da internet, artigos de jornal e um diário íntegro
transcrito.
Essa estrutura cria o efeito de uma “história dentro da história” e rompe com uma narrativa
inteiramente linear. O leitor acompanha a investigação do presente ao mesmo tempo em que
acessa documentos e registros que ajudam a reconstruir o passado de Hortênsias.
“O lugar é aqui”, frase que ecoa no diário do avô de Lana, torna-se um dos lemas de uma
história sobre pertencimento e sobre a decisão de permanecer e lutar mesmo quando as
circunstâncias parecem estar contra os personagens.
O humor também participa dessa construção. Em meio ao suspense e aos conflitos políticos, a
narrativa abre espaço para referências da cultura pop e para diálogos que aproximam as
personagens do leitor, criando um contraste entre a leveza da adolescência e a violência que
atravessa a história.
Para Simon, a literatura de entretenimento também pode exercer uma função formativa. É
nesse espaço, entre diversão, identificação e reflexão, que o autor afirma”orgulhosamente
produzir”.