Nascidas de um encontro durante o carnaval de 2016, as Themônias deram visibilidade às diversas manifestações culturais e sociais das drag queens na capital paraense

Por Roberta Brandão

No carnaval de 2016, faltavam perucas, maquiagens e cílios postiços em Belém. Mas havia uma vontade enorme de movimentar a cena LGBTQIA+, e em particular das drag queens, na capital paraense. De um convite inusitado e despretensioso para celebrar corpos livres nasceu na cena artística de Belém o movimento político-cultural Themônia, com “TH”. Hoje, mais que famosas e respeitadas, elas já são motivo de mais de 20 pesquisas acadêmicas.

“Marcamos uma festa de carnaval no Facebook”, relembra o DJ Maruzo Costa, que “montado” é Tristan Soledad. “Pensei: se não der ninguém tem eu e o meu amigo montado e é carnaval. Quando chegamos lá, a praça estava cheia.” Maruzo e seu colega Mateus Aguiar, a S1mone, criaram a festa Noite Suja. Naquela noite de carnaval, a Noite Suja virou o ponto de encontro de pessoas que podiam se “montar” (a arte da transformação em drag queens) e, enfim, ser livres no espaço público.

Belém é uma cidade de muita arte de rua, o que favoreceu esse encontro do desejo e do improviso. Isso porque, em 2016, montar-se como uma drag não era tão simples quanto em outras capitais brasileiras. Os produtos de qualidade não chegavam ou faltava dinheiro para consumir determinados itens, como os cosméticos. O jeito era improvisar, o que para as Themônias não foi um problema. “Quando a gente começou esse rolê de ocupar as ruas, tivemos que pensar em alternativas para a montação durar mais tempo. Aí a gente descobriu uma cola que a gente chamava de ‘demônia’ e começamos a elogiar uma a outra usando a palavra demônia”, afirma. O nome, literalmente, colou.

A artista, comunicadora e produtora Flores Astrais comenta que as Themônias passaram a construir um estilo com os itens possíveis.“O que antes era uma inacessibilidade se tornou uma estética. A gente só é Themônia porque faz isso aqui da Amazônia”, defende. “A galera queria ser observada nas suas monstruosidades. Uma questão comportamental onde o grotesco fazia parte. E a gente não conseguia se chamar de linda, mas de ‘olha, como tu estás uma Themônia!’”

A estética da “montação” das Themônias tem a característica de ser exagerada. Trabalha-se com todo o tipo de objeto que pode ser pendurado, amarrado, colado e que adquire novas formas de uso. Os cílios de papel servem de exemplo. As maquiagens das drags de Belém são marcadas e os acessórios, escandalosos.

A drag Akadela, que também integra o movimento das Themônias, explica que a moda drag tradicional é marcada pela chamada “fashion queen”, composta de figurinos, perucas, acessórios e maquiagens exuberantes. Mas, por falta de dinheiro, o seu guarda-roupa é uma aula de como transformar peças cotidianas em peças espetaculares a partir da “slow moda”, que é o reaproveitamento e garimpo de roupas em brechós.

“Eu vou muito em brechós em Mosqueiro, a maior parte são de pessoas evangélicas. E eles nem têm rede social e nem dá pra fazer parceria”, brinca. Fabrício Jaime, que montado se torna AKadela, diz ser muito diferente da drag, preferindo vestir roupas simples e discretas. “Eu posso me permitir a ter um surto de usar um casaco de pele em Belém porque é espetaculoso”, conta. No perfil do Instagram @eumedei é possível acompanhar conteúdos produzidos pela Akedela sobre os figurinos utilizados pelas Themônias.

A Semana de Arte Themônia

Semana de Arte do Movimento político-cultural Themônia, em Belém
(Foto: Roberta Brandão/Amazônia Real)

Meses antes da pandemia do novo coronavírus, no carnaval de 2020, o movimento já era grande o suficiente em Belém. Tanto que naquele ano ocorreu a 2ª Convenção das Themônias, que terminou com um cortejo cultural repleto de drags pelo centro de Belém. Foi nessa convenção que elas decidiram construir, coletivamente, um manifesto, fruto de cinco dias de diálogo.

“A Themônia com “TH” é a ressignificação da demonização. Themonização não é apenas sobre a ironia com demônio cristão, mas as formas com que as coisas que são vistas como ‘coisas do demônio’ são, na verdade, nossas essências e trajetórias, pois nossas vivências são demonizadas”, diz um dos trechos do manifesto. Desde então, o que era uma nomenclatura que significava exclusão e reprovação foi ressignificada para se tornar sinônimo de elogio e representatividade e do que é se montar na Amazônia. Atualmente, ser uma Themônia virou uma expressão artística que apresenta diversas linguagens como audiovisual, música e moda a partir de elementos de territorialização que demarcam esses corpos.

A melhor prova da consolidação desse movimento político-cultural foi a realização, no fim de março, da Semana de Arte Themônia, numa descontraída apropriação antropofágica da Semana de Arte Moderna, que celebrou os 100 anos em 2022. Foi nesse evento que o artista plástico Venicius, que não se monta como uma drag queen, expôs suas aquarelas. “Eu me senti muito honrado em estar participando desta exposição. E parando para refletir se eu sou ou não uma Themônia, penso que a arte delas me influencia profundamente”, afirma o artista plástico. Na exposição que aconteceu durante os dias 25, 26 e 27 de março, também se pôde ver as obras dos artistas Alystter Fagundes, Matheus Aguiar, Wan Aleixo, La Falleg Condessa e Htdahirua.

Mostra audiovisual

Jomaique Melo à mesa na Mostra audiovisual do movimento Themônia
(Foto: Roberta Brandão/Amazônia Real)

Na Semana de Arte Themonia também ocorreu uma mostra audiovisual com a exibição dos curta metragens Corpo Transversa, da diretora Flores Astrais, Meninx, de Tarcísio Gabriel, e Iauraete, da diretora Xan Marçal. Esta última é resultado do primeiro curso de cinema para pessoas trans/travestys do Brasil. Xan foi responsável pela direção, roteiro, montagem, além de atuar no curta-metragem. O filme experimental foi gravado em dois dias em Salvador, na Bahia. Com coprodução do Coletivo Das Liliths, Iauraete já foi exibido em festivais nacionais e internacionais.

Em entrevista à Amazônia Real, Xan, que atualmente mora na Alemanha, afirmou que não se considera uma Themônia, mas reconhece que seu trabalho e o das Themônias são influenciados pela cosmologia da amazônia paraense, por um diálogo com a monstruosidade e pela compreensão da potência de um corpo demônio. “O meu trabalho é fundamentado nas práticas poéticas e políticas em grupo junto ao Coletivo Das Liliths, que inclusive miticamente Lilith é considerada como a primeira demônia na narrativa ocidental”, explica a atriz e diretora.

O filme lauraete narra um mito indígena a partir de uma ótica travesti. Segundo a diretora, a obra aborda um amplo arco, que inclui religiosidade, espiritualidade, misticismo, ativismo e arte e ancestralidade afroindígena, e transancestralidade como vivências indissociáveis de uma experiência trans/travesti nos territórios do Norte e Nordeste brasileiro. A satisfação de exibir sua produção em Belém, durante a Semana de Arte Themônia, foi grande. “Fiquei muito honrada. Porque o movimento das Themônias, é um movimento de arte LGBTQIA+ que continua o legado de uma poética dissidente sexual e de gênero na Amazônia, e em Belém especialmente. A gente está falando também de um movimento geracional com recortes bem específicos, pensando em territorialidade, geopolítica, perspectiva decolonial, sem separar a experiência de corpos LGBTQIA+ de suas noções de pertencimento, cosmopolitas, ribeirinhas, kaabokas, indígenas, negras e periféricas”, afirma Xan.

A drag cantora Xirley Tão apresentou o show do CD “A Farofa da Xirley” na última noite da na Semana de Arte Themônia. O nome do álbum é uma homenagem para uma mania de Xirley de levar um pote de farofa para as festas e dividir com o público. O CD tem nove canções com letras de Adriano Furtado e interpretação de Xirley Tão – Adriano é Xirley Tão, apesar de não serem a mesma pessoa. De acordo com o artista, que também é professor de Biologia na Universidade Federal do Pará (UFPA), Xirley Tão é uma drag muito inspirada na palhaçaria e ligada ao deboche, com gírias regionais. Por isso as músicas do CD são definidas como “salientes” e repletas de regionalidade na musicalidade e linguagem.

Assim como o evento modernista de 1922, a Semana de Arte Themônia celebrou formas de rupturas e possibilidades de produzir arte genuinamente brasileira só que dessa vez, partindo do olhar amazônico. “Estamos movimentando a cidade há quase dez anos. Nada mais justo que essas pessoas sejam visibilizadas e suas produções viabilizadas”, reflete Maruzo Costa, que também foi um dos organizadores da Semana de Arte Themônia.

Themônias na academia

Movimento político-cultural Themônia das drags queens de Belém
(Foto: Roberta Brandão/Amazônia Real)

Em 2022, existem mais de 20 pesquisas acadêmicas sobre o movimento político cultural das Themônias. A jornalista Emanuelle Corrêa se tornou uma Themônia durante o desenvolvimento da pesquisa acadêmica sobre o tema, que resultou na dissertação do mestrado de Comunicação e Cultura da UFPA como Hellem Emmondark, uma drag da categoria bruxa. A pesquisa categorizou alguns tipos de Themônias como as drags bruxas, sereia drag, drag palhaça e a eco drag. “Eu falo da drag não como essa categoria que conhecemos, a queen. Eu estudo a sociabilidade drag”, explica.

Saritha Themônia é uma eco drag e sua estética é toda vinda do lixo que se torna luxo. A pesquisadora Gabriela Luz, que é Saritha quando montada, desenvolve uma pesquisa no mestrado no Programa de Pós Graduação em Artes na UFPA na qual investiga procedimentos de modificação e quais relações as montações produzem. “Quando alteramos o corpo, mudamos as relações das pessoas e com a gente. O espaço reage à presença de uma Themônia. Estar na presença de uma Themônia é uma experiência de reflexão”, explica.

Flores e Shirley na Semana de Arte Themônia, em Belém (Foto: Roberta Brandão/Amazônia Real)

Foto de capa: Roberta Brandão/Amazônia Real

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Por Amazonia Real

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