A Casa Um é uma associação sem fins lucrativos que tem por finalidade social promover a assistência social, a inclusão cidadã e produtiva e os direitos humanos, por meio da orientação, do acolhimento, da capacitação profissional e do empoderamento da comunidade local, incluindo crianças e adolescentes, e, especialmente, da população da comunidade LGBTQIAPN+, bem como suas interseccionalidades, como questões de raça/etnia, classe, gênero, origem geográfica, considerando ainda os aspectos sócio-familiares, econômicos e de saúde, a fim de promover a dignidade humana, a diversidade de identidade de gênero e de culturas baseadas em orientação afetiva e sexual.
Enquanto uma organização gerida e financiada pela sociedade civil, optamos para que o nosso trabalho esteja diretamente relacionado a uma atuação de base, desenvolvendo estratégias em campos em que o Estado, por meio do governo, não tem, historicamente, atuações eficientes – porém, isso não significa que não compreendemos e valorizamos sua existência. Entendemos o governo como estrutura necessária na sociedade em diversos pontos, principalmente como um importante regulador de mercado, essa entidade subjetiva que baseia o sistema capitalista no qual estamos inseridos, que faz, inclusive, que seja necessário nosso relacionamento com marcas e empresas.
Esse relacionamento geralmente se estabelece por meio de parcerias comerciais, que envolvem ações nas empresas (que buscam promover mudanças estruturais e de cultura em prol do entendimento de seu papel e impacto social para com a diversidade) ou financiamentos que permitem a realização da nossa atuação direta que visa o desenvolvimento e as mudanças sociais, individuais e coletivas. No entanto, estabelecemos alguns critérios para essas relações mercadológicas: um sistema de avaliação interna da empresa, garantindo que não sejam seladas parcerias com organizações que ferem direitos humanos ou tenham condutas ilegais e não recebemos recursos ou promovemos ações de marketing com instituições bancárias, incorporadoras, construtoras, casas de apostas, farmacêuticas, químicas, petroquímicas, agronegócio e aplicativos que atuam a partir da precarização das pessoas trabalhadoras, por compreendermos que a lógica de atuação predatória dessas grandes corporações são os principais agentes da desigualdade social na nossa sociedade e de todos os problemas estruturais que surgem delas.
É importante destacar que ao estabelecermos relações comerciais com grandes corporações, nos reconhecemos dentro de uma estrutura capitalista vigente, porém não somos, de forma alguma, a favor de políticas econômicas neoliberais e da privatização de serviços públicos e de setores-chave da economia nacional.
Acreditamos no Estado como estrutura permanente composta pelo território, povo e soberania, e gerido, transitoriamente, por governos, que são responsáveis pela sua administração pública. Entendemos que essa crença e a defesa desse modelo, entre tantos outros fatores, já nos aproxima por si só de governos mais progressistas e à esquerda. Isso não quer dizer que participamos ou apoiamos algum partido político, mas que nossas lutas estão diretamente ligadas a atuações de ideologia política de esquerda, que buscam, em sua maioria, a igualdade e a equidade social, o fortalecimento dos direitos sociais, o progresso e a intervenção estatal na economia, e que atuam levando em consideração a participação popular e a construção de políticas públicas de acesso e de inclusão. E, mesmo em períodos de governos mais progressistas, nos mantemos atentos e somos, quando necessário, críticos às suas atuações, que podem muitas vezes ser contraditórias e pouco efetivas.
Também não nos deixamos fazer reféns da dicotomia, do proselitismo e do fisiologismo da política institucional de qualquer esfera governamental, optando por estabelecer relações concretas com agentes do governo que tenham em sua atuação objetivos comuns ao da Casa Um. Essas relações se dão desde diálogo franco e aberto com parlamentares em todas as esferas, até a participação em frentes parlamentares, parcerias e trocas com secretarias e ministérios e, principalmente, com serviços de atuação de base.
E são nessas trocas com serviços públicos de atuação de base que definimos a nossa linha de conexão. Diante das décadas de desmonte da estrutura estatal, muitos governos optam pelo estabelecimento de convênios (que ao longo das gestões vão ganhando diversos nomes como contrato, fomento, etc.), por meio dos quais é feito um repasse de verbas públicas para organizações do terceiro setor para execução do trabalho de base, atrelado aos moldes estabelecidos pelo próprio governo. Somos fundamentalmente um projeto experimental e orgânico, e entendemos que atualmente muitas políticas públicas, como as de assistência social, saúde, cultura e educação, são desnecessariamente engessadas e muitas vezes defasadas, não conseguindo compreender e atender especificidades e possibilidades de territórios e populações, algo compreensivo em governos responsáveis pela gestão de uma estrutura continental como é o Brasil, mas que para nós leva à uma razão para não estabelecer uma relação de convênio com o governo.
Isso não quer dizer que estamos isolados em nossa atuação ou que não reconheçamos a importância de determinadas políticas e serviços. Ainda que estabelecendo outros formatos de gestão e de atendimento nas diversas frentes de trabalho, a Casa Um atua de forma constante em parceria com serviços públicos, como CRAS, CREAS, Centro POP e SASF, no campo da Assistência Social; UBS, UPA, CAPS, CRT e CTA, no campo da saúde; Museu da Cidade de São Paulo, Museu Afro Brasil Emanoel Araújo e Museu da Língua Portuguesa, no campo da cultura; EMEI, EMEFM e EJA, no campo da educação, entre outros, em um processo não apenas de endereçamento, mas também de construção conjunta de dispositivos de atuação ligados a nossa missão, visão e valores.
A mesma prática se dá na atuação conjunta com outros projetos do terceiro setor que consideramos uma aproximação estratégica para o fortalecimento das pautas e políticas públicas em diferentes frentes.
Interseccionalidade é a palavra que define a nossa atuação, isso significa que vamos muito além das questões LGBTQIAPN+. Entendemos que ao fazer um trabalho que envolve pessoas, devemos levar em conta uma quantidade extensa de fatores e construções sobre os sujeitos: gênero, raça, classe, corpo, saúde mental, origem, idade, educação e expressão são algumas delas. Também compreendemos a necessidade de visibilidade e de protagonismo em determinadas lutas, por isso buscamos constantemente projetos parceiros para somar a embates que nos atravessam, que não são, porém, o nosso ponto central de atuação.
É, portanto, parte basal do nosso trabalho e ações o apoio e a participação de lutas, como direito à habitação e terras, educação pública gratuita e de qualidade, combate ao desmanche do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), manutenção de programas de distribuição e transferência de renda, demarcação de terras indígenas, abolição penal, soberania alimentar, apoio a pessoas migrantes refugiadas e apátridas, entre outras pautas.
Contamos ainda com uma política de portas abertas, que permite a qualquer pessoa usufruir dos nossos espaços de forma livre, sobretudo entendendo que a mudança de uma sociedade cheia de hierarquias e desigualdades demanda um exercício cotidiano, porém entendemos que algumas ações desenvolvidas devem ter como prioridade a participação da população LGBTQIAPN+, no intuito de minimizar e reparar vulnerabilidades e desigualdades sociais históricas.
Contamos também com uma consolidada política de transparência, com prestações de contas recorrentes e auditadas e documentações de acesso público que podem ser acessados no nosso site ou então presencialmente em nossa sede.
Por fim, entendemos que as vivências, discussões, entendimentos, pautas e lutas da população LGBTQIAPN+ estão em crescente desenvolvimento e ampliação e nos colocamos não apenas como veiculadores das discussões, mas também como um espaço para acolher novos entendimentos e vivências. Acreditamos que o aprendizado é constante e não somos detentores do saber definitivo e que nossa atuação é sobretudo uma busca por caminhos que possibilitem a visibilidade, o acesso e a dignidade do que existe, resiste e persiste.