No primeiro trimestre de 2026, ao menos 50 pessoas foram assassinadas no Brasil por LGBTfobia, segundo levantamento do Observatório Brasileiro LGBTI+ Janaína Dutra.
O relatório, divulgado no Dia Internacional Contra a LGBTIfobia (17 de maio), mostra que 60% desses casos (30 mortes) foram motivados por violência contra pessoas LGBTQIAPN+, enquanto outros 40% (20 casos) apresentam indícios de contexto LGBTIfóbico.
Subnotificação dos casos
O Observatório mostra que esses números, ainda que alarmantes, não mostram toda a realidade, já que nem toda morte motivada por LGBTIfobia torna-se conteúdo jornalístico ou chega ao conhecimento por meio da metodologia de levantamento de casos.
Apesar da subnotificação, o rigor metodológico do Observatório mostra-se muito relevante: em comparação com dados da Polícia Civil e Secretarias de Segurança Pública, a sistematização do
Observatório frequentemente contém mais detalhes sobre vítimas e circunstâncias dos crimes do que o
poder público brasileiro
Por trás dos números
Os números retratam um Brasil que ainda enfrenta sérios desafios em proteger pessoas LGBTQIAPN+. Cada uma delas foi uma abrupta perda para famílias, amigos, maridos/esposas, colegas de trabalho e tantas outras relações. O Observatório documenta não apenas dados estatísticos, mas histórias reais que expõem o lado humano obscuro de uma sociedade que ainda tolera a desumanização de corpos dissidentes.
No início desse ano, após a virada, um casal de mulheres foi vítima de misoginia, bifobia e lesbofobia. Horas depois, de volta ao quarto onde estavam hospedadas, foram surpreendidas. Um ex-companheiro invadiu o local e ateou fogo Populares ainda tentaram conter as chamas e entraram no imóvel, mas chegaram tarde. Como se a existência de um relacionamento entre mulheres representasse uma “ruptura” intolerável nas estruturas de controle patriarcal.
Em Ponta Porã (MS), em março de 2026, uma mulher trans de 29 anos foi enganada por uma emboscada. Seu namorado e patrões a cercaram. Enquanto riam, a golpeavam com tacos de sinuca e cabos de vassoura. A crueldade foi tamanha, que gravaram uma suástica nazista em seu braço com uma faca quente — um símbolo de extermínio que carrega séculos de ódio.
Ela descreveu a experiência como um “encontro com a morte”. Hoje enfrenta trauma, pesadelos e precisa de três cirurgias reconstrutivas, incluindo enxertos de pele. Sua frase ecoará para além deste relatório:
“Vou ter que fazer duas cirurgias na minha cabeça e trocar a minha pele, arrancar essa e colocar outra, relata a vítima.
Estes não são casos isolados, mas um sintoma contundente de uma estrutura de ódio que afeta corpos LGBTI+ no Brasil.
Negligência do Estado
O relatório também mostra falha na segurança pública no Brasil, não foi pensada para proteger a população LGBTI+. A ausência de formação adequada de agentes de segurança, falta de protocolos específicos, subnotificação de crimes e revitimização institucional compõem um cenário de abandono.
Além disso, houve uma redução de 87,5% na representação de sociedade civil no Conselho Nacional de
Segurança Pública (CONASP), comparado ao período anterior ao governo Bolsonaro. Apenas duas cadeiras de 40 são destinadas à sociedade civil — e nenhuma é ocupada por organizações LGBTI+ ou de direitos humanos.
Orçamento desproporcionalmente voltado para repressão
A Lei Orçamentária Anual de 2026 revela que o Ministério da Justiça e Segurança Pública terá orçamento aproximadamente 46 vezes maior que o Ministério dos Direitos Humanos, uma estrutura estatal permanece fundamentalmente punitiva. A disparidade orçamentária não é apenas uma questão técnica, mas também política e mostra que as prioridades e escolhas do Estado não estão em consonância que impactam diretamente a vida e a morte de pessoas e quem o Estado decide proteger ou não.
Há baixos investimentos em políticas de prevenção, proteção e promoção de direitos para pessoas LGBTI+, reforçando a lógica de negligência estatal. Isso evidencia que a segurança pública, tal como estruturada, não tem sido pensada para garantir a proteção dessa população. Ao contrário, muitas vezes atua como mecanismo de exclusão e violência. Isso exige não apenas reformas pontuais, mas uma reconfiguração profunda do paradigma de segurança pública no Brasil.