Por Átila Morand, coordenador geral da Biblioteca
Eu gosto de números. Tá, não de modo geral. Eu gosto mesmo é de Letras. hehe Mas, sobre números, acredito que, quando observados com alguma atenção, eles contam histórias, e eu gosto de histórias, de boas histórias (também gosto muito de vírgulas). E os números da nossa Biblioteca vêm contando uma história muito massa em 2026.
Fundada em 2017, a Caio nasceu como a Biblioteca Comunitária da Casa 1. Nosso acervo é formado majoritariamente por doações e temos uma política de desenvolvimento de coleção que busca dar espaço a literaturas representativas, com destaque para produções LGBTQIAPN+. E esse é um dos motivos pelos quais os números deste ano são especialmente interessantes.
Em 2025, a Biblioteca teve uma média de 72 empréstimos por mês (até aí, tudo bem). Em 2026, até julho, essa média havia subido para 82 empréstimos mensais (se tu é xóven, já tá acrílica). Em agosto, porém, foram 131 empréstimos (Eita, Giovana!!!). Tudo isso só de literatura queer!
Mas vamos voltar um tantinho no tempo pra entender esse babado.
Nos últimos meses, nossa equipe de comunicação passou a produzir mais conteúdos sobre o acervo. Tivemos a divulgação da Biblioteca até com carro de som pelo bairro da Liberdade (“venha provar literatura queer, minha senhora, é uma delícia!”). O Pomar, nosso clube de leitura, consolidou um público fiel nos encontros. O Cinema na Caio vem atraindo cada vez mais pessoas, inclusive gente que nunca tinha entrado na Casa 1. Os Kits de Literatura que distribuímos continuam aproximando crianças e adolescentes dos livros, enquanto o Balaio Literário amplia a circulação das doações que recebemos.
Em 2026, também conseguimos garantir um investimento para o acervo. Fizemos questão de priorizar a compra de títulos juvenis. Eu já tinha sacado que o público da Caio é majoritariamente juvenil e a preferência por mangás e hqs aparece toda vez que a gente publica um “Confira os títulos mais emprestados”: tem sempre um na lista. O mais absurdo é que essas são as nossas menores seções. Sério, a seção “Romance | Novela” tem o quádruplo do tamanho de “Juvenis”. Acontece que quando fazemos campanha “doe um livro pra Casa 1”, só chega ficção adulta e teóricos.
Pensa comigo, o xóven mal tem dinheiros para comprar um livro pra si, quem dirá pra doar pra gente. E muitas vezes, mesmo com dinheiros, ile não pode comprar, porque em casa proíbem a leitura de literatura LGBT+. Afff…. Vai daí que saímos comprando tudo que é literatura juvenil queer e ampliamos o acervo com mais 252 títulos. Além disso, recebemos doações de 122 títulos juvenis de editoras. E esses dados também ajudam a explicar os números recentes. Em agosto, as seções juvenis passaram a liderar os empréstimos do mês! Mas o crescimento não aparece apenas nos empréstimos. Nossa média mensal de atendimentos costumava ficar entre 800 e 1.000 pessoas. Em agosto, foram 1.555 atendimentos! O babado é certo…
Em um texto publicado anteriormente sobre os Kits de Literatura, contei que, ao longo dos anos, passei a perceber os livros circulando pelo bairro: nas mochilas, nas casas, nas calçadas, no transporte público. Uma das coisas mais batutas desse rolê é perceber essas leituras se espalhando por aí. É por isso que acho que o crescimento da Caio em 2026 é deveras revolucionário. Porque estamos aumentando o número de pessoas que encontram um espaço público de leitura e ampliando o acesso a livros que muitas vezes custam caro para fazer parte de uma biblioteca particular. E estamos fazendo tudo isso sem abrir mão daquilo que faz a Caio ser a Caio: uma biblioteca com uma coleção majoritariamente queer, que procura representar pessoas e produções que historicamente tiveram espaço negado em instituições culturais, acadêmicas, de ensino.
Aí tu vê nossa Biblioteca com mais de dois mil títulos queer disponíveis para empréstimo… devo dizer que, nesse momento, e por fazer parte disso, eu tô me sentindo uma besha muito revolucionária mesmo… E revolução a gente não faz sozinhe. Pra tudo isso rolar, tem que receber o público, organizar o acervo, fazer triagem, curadoria, catalogação… é preciso divulgar, planejar atividades, articular com outras bibliotecas comunitárias, montar kits, tocar projetos… É esse trabalho rotineiro que transforma uma coleção de livros em uma biblioteca.
Deixo aqui um salve para a equipe de mais de sessenta pessoas que integram a equipe da Caio hoje e pra todo mundo que já fez parte dessa história! Vocês são incríveis! <3
Eu gosto de números. Eu gosto de letras, de vírgulas e de histórias. Eu não gosto de admitir, mas eu gosto de pessoas. E, por aqui, estamos vendo pessoas.
Pessoas entrando.
Pessoas permanecendo.
Pessoas escolhendo.
Pessoas lendo.
Pessoas voltando.
A Caio cresceu em 2026. E ainda estamos descobrindo até onde ela pode crescer. Para uma biblioteca comunitária, talvez não exista indicador mais importante do que esse: a porta continua aberta e cada vez mais pessoas estão entrando por ela. Venha você também fazer parte da nossa pequena grande revolução. 😉
A Biblioteca Comunitária Caio Fernando Abreu funciona de segunda a sábado, das 10h às 19h, na Rua Condessa de São Joaquim, 277. Bela Vista. São Paulo.