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Confinada — e o sequestro da população preta, pobre e periférica durante a pandemia

Por Daniele Gross, voluntária da Biblioteca Caio Fernando Abreu

Mãos ao alto! Isso é um assalto! Um assalto à sua privacidade, à sua intimidade, às suas particularidades. Um assalto à sua liberdade de escolha.

Essa foi uma ocorrência bastante comum durante a pandemia do Covid-19, quando parte das domésticas (e muitos outras classes de trabalhadores) se viu forçada a permanecer em seus trabalhos; receber metade do salário — caso decidisse fazer a quarentena em suas casas; ou ainda pior, perder seus empregos.

Confinada, HQ de Leandro Assis (@leandro_assis_ilustra) e Triscila Oliveira (@soulanja), apresentada, durante a pandemia do Covid-19, em formato folhetinesco, na conta do Instagram de Leandro, e com divulgações pontuais, na conta de Triscila (na verdade, a autora tinha um outro perfil que foi desativado pela rede social).

Até a chegada da pandemia, Leandro e Triscila traziam ao público a série Os Santos — uma tira de amor ódio (que falarei a respeito mais adiante). Considerando que a série não tratava o tema da pandemia, decidiram dar uma pausa nesse trabalho, mas nem por isso deixariam seu público a ver navios! Surge então a microssérie Confinada, uma história em quadrinhos que trata — tal como Os Santos — da intensa desigualdade social existente no Brasil. O primeiro episódio é apresentado no Instagram em 11 de abril de 2020, algumas semanas após o lockdown ter sido determinado no Brasil.

Fran Clemente é digital influencer, casada com Feioso (apelido pelo qual trata o marido) que, estando na Itália no início da pandemia, não pode regressar ao Brasil. A influencer tem três domésticas, que trabalham diariamente em seu duplex de 1.000 m². Diante do advento da Covid-19, as funcionárias manifestam o desejo de irem para a casa para cuidarem das suas famílias. É quando a influenciadora então negocia para que Ju fique com ela durante a quarentena, enquanto Dinah e Marli são dispensadas com um corte de 50% em seus salários. Diante da situação, Ju aceita ficar, desde que ela receba o que ela deixou de pagar para as outras, garantindo assim a integridade dos salários de suas amigas.

A partir desse momento, os autores trabalham com grande crítica, por meio de um discurso ácido e ferino, as desigualdades existentes em nosso país, aqui representadas por dois grupos que se encontram em pontos extremos: a elite brasileira, que não faz o trabalho pesado e, por consequência, não abre mão do conforto em ter quem execute essas tarefas; e o extremo a ela, representado por pessoas geralmente pobres, pretas e que não tiveram oportunidades para se dedicarem a outros trabalhos que não os braçais.

As diferenças de valores entre a classe trabalhadora e a elite, rica, que não faz, não sabe fazer e muito menos faz questão de aprender, nenhum serviço doméstico, são bastante pontuadas nos quadrinhos apresentados ao longo das semanas. Ali o discurso dos dois grupos é pautado entre a meritocracia versus o esforço não recompensado, somado à falta de boas oportunidades, bastante comum às classes menos favorecidas.

O racismo tão presente em nossa sociedade, seja explicitado (quando a elite branca está reunida entre si) seja velado — uma forma bastante comum e de difícil combate — é debatido explicitamente nos quadrinhos com traços não refinados, mas nem por isso menos interessantes. Ainda que não tenha nenhuma capacitação técnica para avaliar os traços de Leandro Assis, como apreciadora desse gênero, posso dizer que o estilo do ilustrador é pertinente aos temas que a dupla trabalha. A temática de Leandro e Triscila sempre está envolta nas questões sociais, econômicas e políticas que circundam nossa sociedade.

É a partir dessa definição editorial que nas duas obras os autores trazem as eleições, seus resultados e as políticas estabelecidas no país a partir de 2018, quando a presidência e os cargos ao seu entorno são ocupados por negacionistas, pessoas interessadas em uma política que mira na destruição das minorias sociais, além de árduas críticas em relação ao posicionamento estatal em relação à pandemia do coronavírus.

Para além das críticas sociais, ambas obras também se dedicam em dar destaque a outras representações negras, como Ismália, letra de Emicida e outras personalidades por meio de seus arrobas, como o atual ministro dos Direitos Humanos e Cidadania Silvio Luiz de Almeida.

A obra de Leandro Assis e Triscila Oliveira tem uma grande peculiaridade, que é o debate às desavenças sociais presentes em nosso país — parceria de sucesso que se iniciou com Os Santos, essa lançada em 05 de dezembro de 2019, quando ainda era intitulada Os Bolsominions — uma tira de humor (ódio) e que passa a se chamar Os Santos já no quarto episódio da história, menos de duas semanas depois, em 17 de dezembro. E é no episódio 10, lançado em 13 de janeiro de 2020, que Triscila inicia sua parceria com Leandro, passando também a escrever as histórias.

Com quase um ano dedicado ao seu discurso impactante, provocativo, extremamente realista, Confinada teve seu último episódio, Identidade, apresentado nas redes sociais em 01 de abril de 2021. Dias depois, a série Os Santos tem todos os seus episódios reprisados na conta de Leandro Assis, e com inéditos voltando à periodicidade semanal a partir de 30 de agosto daquele ano, quando é lançado o 26º episódio: Pelo Meu Filho.

Se Os Santos só é possível ser lido por meio das redes sociais de seu ilustrador, Confinada teve seu grande sucesso transformado em livro, chegando às livrarias em novembro de 2021.

Curtiu? Ficou interessado na leitura do embate social entre Ju e a milionária Fran? Eu fiquei tão admirada com a obra que, assim que foi anunciada a pré-venda, garanti o meu exemplar! E se há algo que está para além das críticas que a obra traz é o quanto o acesso à tecnologia e às redes sociais permitiram que muitos, ainda que de forma não tão poderosa quanto desejamos, tanto saíssem da invisibilidade, quanto tivessem suas falas e presenças fortalecidas na sociedade. Leandro e Triscila são prova real disso. Assim como a Ju! Mas, sobre isso, você terá que ler a HQ — ou devorar a leitura, como eu fiz quando eu recebi o meu exemplar!

Então é só comparecer na nossa biblioteca para degustar dessa e de outras leituras. E bora fazer a carteirinha da nossa biblioteca! E, para isso, basta comparecer com um documento com foto, esperar o preenchimento do cadastro, receber sua carteirinha e pronto! Não é demais? Eu acho! Acesso fácil e desburocratizado para aqueles que desejam ter mais acesso a livros e filmes!!

Aguardamos sua visita!

Nosso endereço: Rua Condessa de São Joaquim, 277 — Bela Vista
Horário de Funcionamento: Segunda a Sábado, das 10h às19h

Foto de capa: divulgação

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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