Gilberto Braga, que faleceu nesta terça-feira (26) aos 75 anos, foi autor de sucessos como “Dancin’ Days” e “Vale Tudo” e “Paraíso Tropical”. Carioca, veio de um núcleo familiar diferente dos quais retratava em suas novelas cheias de socialites.

De classe média, com uma boa educação formal, era leitor assíduo e um declarado cinéfilo. Foi professor de Francês e tentou a carreira diplomática antes de virar crítico de cinema e teatro.

Ainda nos anos 1970, foi morar com o decorador Edgar Moura Brasil, este, sim, vindo de um clã aristocrático. Os dois formaram um casal gay bastante visível numa época em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo sequer estava em discussão. Chegaram a aparecer no “Sociedade Brasileira”, um livrinho publicado anualmente que trazia nomes e endereços de figurões da sociedade carioca.

Excelente observador, Gilberto Braga se inspirou nesses tipos para criar alguns de seus personagens. Beki Klabin, a primeira socialite a desfilar como destaque numa escola de samba, serviu de base para Stella Fraga Simpson, a excêntrica milionária vivida por Tonia Carrero em “Água Viva”, de 1980.

Houve tantos rumores de que o inescrupuloso Felipe Barreto de “O Dono do Mundo”, de 1991, era espelhado no cirurgião plástico Ivo Pitanguy que Braga precisou incluir no texto um diálogo em que dois médicos comentavam o desprezo que Pitanguy “sentia” por seu colega ficcional.
Gilberto Braga também tentou retratar a si mesmo por meio de personagens homossexuais totalmente resolvidos. Foi dele o primeiro gay mais ou menos assumido de uma novela brasileira, o Inácio Newman de “Brilhante”, de 1981, encarnado por Dennis Carvalho. Mais ou menos porque a censura da época não deixava o personagem dizer com todas as letras o que de fato vivia. Depois de uma trajetória sofrida, ele embarcava para Nova York com um namorado no último capítulo.

O personagem inclusive ganhou destaque no recém lançado documentário “Orgulho além da Tela”, do Globoplay que traz a trajetória dos personagens LGBTQIAP+ nas telenovelas da Rede Globo.

No mesmo documentário, Braga diz que se arrepende um pouco de Everaldo, o afetadíssimo mordomo vivido por Renato Pedrosa em “Dancin’ Days”, de 1978. “Ele não ajudou ninguém”, lamenta o autor. Mesmo assim, um outro mordomo afetado ainda surgiu em sua obra, se bem que com mais camadas –Eugênio, papel de Sérgio Mamberti em “Vale Tudo”, de 1988.

Mas, de modo geral, os gays e lésbicas das tramas de Gilberto Braga eram distantes dos clichês e da caricaturas, não sendo retratados como pessoa à parte da sociedade. Era nítida a vontade do escritor em normalizar a situação que ele mesmo vivia em sua intimidade.

Nem sempre dava certo. Em “Insensato Coração”, de 2011, o par formado por Marcos Damigo e Rodrigo Andrade se casa no papel, mas sem direito a beijo em frente às câmeras, a trama inclusive foi na época recordista de personagens gays e lésbicas, sete no total.

Quatro anos depois, em “Babilônia”, o mundo veio abaixo quando Natália Thimberg e Fernanda Montenegro se beijaram logo no primeiro capítulo. Em um grupo de pesquisa, o beijo foi considerado o principal motivo pela queda de audiência, no entanto, a trama extremamente violenta e com uma crítica escancarada ao neopentecostalismo não ajudou.

Gilberto Braga se foi sem ter tido a chance de apagar o gosto amargo dessa sua última novela, retalhada pela Globo e rejeitada pelo público mais careta.

Ele deixou, 80 capítulos de uma trama das 18h, recém cancelada pela Rede Globo, que se baseia no livro “Vanity Fair”. Com sua morte, o público tem pedido que a emissora volte atrás e produza a trama como forma de homenagem. Vamos acompanhar.

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Por Casa 1

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