Uma chama ininterrupta será acesa nesta terça (25) e formará, por um ano, um monumento ao luto durante a pandemia. A obra de Nuno Ramos, um isqueiro Zippo conectado a um combustível instalado no Sesc Avenida Paulista, marca o começo e o fim de um projeto mais ambicioso, intitulado “A Extinção É Para Sempre”.

É no luto, que atravessa todos nós, que a série começa e termina, mas as sete ações previstas ao longo do ano são respostas a crises de várias ordens.

“O projeto é uma tentativa de responder a uma agressão múltipla, que vem um pouco de todos os lados, com armas múltiplas também, disparando coisas em várias direções”, diz o artista plástico. “Pensei isso, antes de mais nada, como uma tentativa de manter tudo vivo.”

Ramos responde a essas várias agressões com linguagens distintas –as apresentações envolvem a participação de figuras como a escritora Noemi Jaffe, o cineasta Jorge Bodanzky, a atriz Edna de Cássia, o coreógrafo Eduardo Fukushima e o encenador Antonio Araújo.

No caso de “Chama”, o fogo ininterrupto tem também participação do público, e pretende ser um grande chamado internacional. O site do Sesc fica aberto para inscrições, e qualquer um pode transmitir sua própria chama, desde que seja ao vivo, nos mesmos moldes que a imagem do Zippo instalado no espaço cultural será transmitida online.

A interação torna mais latente o que Ramos persegue com esse trabalho e que parece tão distante durante o confinamento –viver o agora e estar presente, simultaneamente.

Além de assistir ao fogo, o público também pode ver as transmissões de “Chão-Pão” entre os dias 28 e 30 de maio.

Na performance, um grupo monta um chão de lajotas quebradas e pães impróprios para consumo. Eles dançam, quebram e mudam esses elementos.

Junta-se à estridência dos materiais se rachando a repetição da frase “a culpa não é do povo”, comum a dois filmes do diretor Glauber Rocha exibidos em monitores distintos –“Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe”.

A cada uma das apresentações, a equipe de artistas muda e a proposta flerta com outra linguagem. Em “A Extinção É Para Sempre”, por exemplo, um texto de Ramos será dirigido por Antonio Araújo, numa montagem tragicômica inspirada numa tartaruga em vias de ser extinta.

Mas outras ações do projeto, que ainda não têm data para acontecer, trabalham na escala da cidade e no espaço público, assim como o seu “Marcha a Ré”. Em agosto de 2020, o artista criou esse cortejo fúnebre também na avenida Paulista, com o Teatro da Vertigem, e amplificou os sons de respiradores mecânicos e monitores cardíacos de UTI em caixas de som de cem carros com as janelas abertas.

“O que costura esses trabalhos é uma ideia de luto, de um Estado agressor, de uma perda de contato com qualquer vocalização popular. Parece que perdemos, que há uma degradação absoluta da ideia de política”, diz Ramos.

Dentro desse novo projeto com o Sesc, uma obra pública de grandes dimensões em São Paulo será coberta com um pano e reinaugurada por uma nova figura de poder, que, na verdade, será um cidadão comum.

A disputa clássica entre Antígona e Creonte também será refeita em Heliópolis, e em grandes proporções –Creonte será um helicóptero que, do céu, batalha com essa Antígona de caixas de som ensurdecedoras, uma funkeira que o desafia pelos microfones.

“A política não consegue fazer uma frente ampla, mas a gente tem que fazer”, afirma o artista. “É engraçado que existe algum fiasco do lado de lá, mas tenho a impressão de que nós ainda não conseguimos criar formas de atrair e analisar o outro, o que torna ainda mais relevante o papel dos artistas.”

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A EXTINÇÃO É PARA SEMPRE

Quando: Estreia em 25/5

Onde: Pelo site www.sescsp.org.br/aextincaoeparasempre

Direção: Nuno Ramos

Foto de capa: Pérola Mathias/ Reprodução

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Por Folha Press

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