BLOG

Sapatonices e a passagem do tempo

Mesa da V Semana de Visibilidade Lésbica aborda os desafios de envelhecer dentro da comunidade LGBTQIAPN+

O envelhecimento ainda é um tabu dentro da comunidade LGBTQIAPN+. Em uma sociedade patriarcal, pessoas sáficas mais velhas enfrentam um duplo preconceito: o do etarismo e o da orientação afetivo-sexual. Esses foram alguns dos temas abordados na mesa “Sapatonines e a passagem do tempo”, na V Semana de Visibilidade Lésbica, promovida pela Casa Um, que aconteceu no dia 31 de agosto. 

O encontro abordou questões que atravessam o envelhecimento lésbico, como os afetos e as relações amorosas, a construção de vínculos e redes de apoio, às relações familiares, a autonomia, o desejo ao prazer e a sexualidade e as transformações na relação com o próprio corpo e a autoimagem.

A Vice-presidente da Associação Eternamente Sou, Célia Moura, trouxe importantes contribuições para o debate. Na sua trajetória, um dos principais desafios foi o reconhecimento como uma mulher lésbica. “Eu não me sentia capaz ou suficientemente forte para ter essa discussão com a minha mãe. Eu só fui me assumir como uma mulher lésbica aos 46 anos  O quanto eu deixei de viver, o quanto poderia ter lutado. Você abre mão de coisas que são importantes para nós” 

Célia também trouxe o preterimento da sociedade pela população mais jovem, o que acarreta no esquecimento das pessoas mais velhas. “As pessoas que estão no bar vão te chamar de tia  Existe uma coisa na nossa comunidade, que a gente valoriza muito o jovem. Ele tem um valor muito maior que a criança. Tudo é para ele. Você vai no bar, por exemplo, nós queremos sentar, escutar uma música. Os lugares não estão preparados para as pessoas 50+. Eles não se adequaram. Como se a pessoa não fizesse sexo, não fizesse mais nada”. 

Outro ponto abordado durante a conversa foram as conquistas do movimento lésbico, como o acesso à informação e o direito ao prazer.  Para a Psicóloga especializada em Psicanálise e Laço Social pela Universidade Federal Fluminense e membro da equipe da Casa Um, Fernanda Matos, muitos desses avanços vêm do feminismo, mas ainda há desafios. 

“Mobilização, politização e se antenar nas coisas que estão acontecendo. Nós não estamos seguras no ambiente. Uma coisa é você andar de mão dada na Paulista. Outra, é andar de mão dada no Jardim Peri Às vezes, nos expomos a risco por conquista, mas não podemos voltar atrás”, ressalta. 

Por fim, a mesa encerrou abordando os desafios e a solidão da mulher negra e lésbica desse tempo. Essa vivência do isolamento afetivo, social e estrutural é potencializado pelas intersecções entre racismo, machismo e lesbofobia. Para Moura, há um acumulo de opressões: A mulher negra e lésbica transita por marcadores sociais que a colocam fora do padrão de normatividade imposto pela sociedade heteronormativa. 

“A cisheteronormatividade é violenta  e ela vem de um lugar onde você não tem direitos. No caso de héteros a mulher negra já é sozinha. Quando você é lésbica, ou trans, as pessoaas também não olham. Se as pessoas não vêem beleza em mim é uma questão do racismo estrutural, que nos torna invisíveis. Eu gosto de tudo o que é do negro, mas não da pessoa negra”, destaca.  

Fernanda finalizou em tom otimista que a luta não para por aqui e que todas as conquistas são válidas. “É um chamado para que possamos nos fortalecer para que possamos sair desse lugar de invisibilidade. Todas as nossas conquistas tem que sair do armário, para que possamos amar outra mulher”.

Notícias Relacionadas

Christian Araújo leva personagens trans a uma Belém distópica em &#...

Romance de Arthur Simon aborda bissexualidade na adolescência

III Mostra Transmissão Contágio encerra circulação na Casa Farofa

Aretha Sadick protagoniza “Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Po...

Sapataria: Festival promove debates, arte e celebração da cultura d...

Documentário registra memória e resistência trans em Centro Históri...

CHAMELEO inicia nova fase com o EP “Versão dos Fatos”

Sob uma iluminação azul vibrante, uma pessoa dança deitada de costas no chão, arqueando o corpo com o pescoço estendido e um braço aberto. Em primeiro plano, outra pessoa também aparece deitada na pista vestindo um conjunto claro.

“Vogue Funk” estreia no Sesc Pompeia e reúne referência...

Zona Sul de São Paulo recebe III Mostra Transmissão Contágio, com o...

Primeiro livro infantil sobre arte drag é lançado no Mês do Orgulho...

Imagem em tons de amarelo e roxo com cinco livros sáficos LGBTQIAPN+

5 livros para ler no Mês do Orgulho LGBT+ escritos por autoras sáfi...

Webdoc baiano joga luz sobre memória e pertencimento LGBTQIAPN+ atr...