Artista e educadora fala sobre seu novo livro “Formas de Narrar Um Corpo”
No último sábado (26), a Casa Um deu início ao “Casa Um Recebe”, uma novidade que faz parte do nosso conjunto de estratégias de arrecadação e sustentabilidade de manutenção do Centro Cultural. A primeira convidada foi a artista, crítica social e educadora, Rita Von Hunty que propôs um debate através de seu novo livro “Formas de Narrar Um Corpo”. Lançado neste ano, o projeto inaugura a coleção Reticências, da editora Planeta, proposta editorial que parte de questões difíceis da sociedade e transforma essas reflexões em livros curtos, ensaísticos e acessíveis.
Em 144 páginas, bebendo de autores da filosofia, sociologia e política, Rita levanta as seguintes questões bastante atuais no nosso tempo: quem tem o poder de narrar os corpos — e quem tem o poder de definir quais narrativas sobre esses corpos serão consideradas verdadeiras? Como a gente produz uma sociedade, onde todas as vidas sejam válidas sejam viáveis e possíveis?
Durante o debate, Rita destacou que um corpo nunca é apenas um corpo. Antes mesmo de falar, ele já é interpretado pela sociedade. Além disso, explicou o conceito basilar do porquê narrar um corpo. “Formas, porque são muitas. Narrar, tem começo, meio, clímax. A narrativa tem tempo e ação, não é uma descrição. Ela é dinâmica e está em um processo histórico”, disse.
Rita questiona justamente essa ideia de normalidade. Ela mostra como determinadas perspectivas históricas conseguiram se apresentar como universais e neutras, quando, na realidade, foram produzidas a partir de posições sociais específicas.
Além disso, a autora conta que marcadores sociais como gênero, sexualidade, raça e classe, dão à alguns grupos a condição de “normais”, enquanto outros são tratados como desvios. A cultura determina conceitos como beleza, higiene e ordem, estando cristalizada em todas as esferas da vida, em questões sobre a forma como o binarismo de gênero organiza a sociedade e como instituições reproduzem essas hierarquias?
“Por exemplo: O que é vagabundo?Alguém que eu não posso explorar a mão de obra. Os primeiros chamados de vagabundo no Brasil foram os indígenas. Então eles eram vadios, vagabundos, eu não posso explorá-lo. Agora, o que é uma vagabunda? Um corpo de quem eu não posso controlar o útero. O significado masculino e feminino não significam masculino e feminino. Masculino e feminino nos dão notícia de um processo histórico”, ressaltou ao explicar a construção do gênero como fator determinante nas relações de poder em algumas sociedades.
Outro ponto importante foi a concepção do processo de cultura. Ancorada na teoria de pensamento dos Estudos Culturais, Von Hunty traz como reflexão pesquisadores importantes como Louis Althusser, Antonio Gramsci e Judith Butler, entre outras referências.
Ela afirma que as antigas civilizações entendiam que a cultura determinava – e ainda determina – conceitos como beleza, higiene e ordem – cristalizada em todas as esferas da vida. A autora quebra com esse conceito e afirma que distintivos e normas sociais podem sofrer alterações radicais dependendo do grupo em que o indivíduo está inserido, como os debates sobre a construção da identidade.
“O que é uma mulher? Resposta: uma realidade social designada para uma parcela em um determinado momento histórico, a partir daquele momento histórico. Por exemplo, mulher tem buceta ou pessoas têm buceta, quando se trata de homens trans? Agora, em iorubá, nunca existiu o conceito de mulher, mas sim de pessoas. Daqui a 60 ou 120 anos as identidades não estarão iguais, ressaltou”
Cultura e ideologia
Outro conceito trabalhado por Rita foi a ideologia como algo patológico. O conceito de ideologia esteve muito presente nas últimas eleições, ancorado no processo de polarização do país. O grupo dominante (“o vencedor”) impõe seus próprios valores e significados como verdades universais. Isso, na visão da autora, dá origem a “vocabulários absolutamente problemáticos” — que carregam, de forma velada ou explícita, marcas de violência histórica e estrutural que construíram o nosso país.
“Nenhum valor, nenhum significado cai do céu. Eles aparecem mediante sangue, suor e lágrima, escravização, genocídio, dominação .Antes do poder, tem coisas que não sou capaz de dizer. É possível dizer negro para os povos africanos antes da colonização? Existia um negro? Existiam as línguas banto, iorubá, nagô. Nenhum desses pontos usavam o termo negro para falar de si e do outro. Isso foi
A artista também deixou clara a relação entre cultura e ideologia. A educadora entende que as expressões são formas distintas de olhar para um processo social. Enquanto a cultura nasce das construções sociais que organizam a sociedade e evocam liberdade, a ideologia pode surgir desse processo como uma estratégia de dominação.
“Aqui no livro, a minha teoria da ideologia é a partir do Louis Althusser, ele vai dizer que a ideologia é aquilo que produz sujeito, onde antes havia um corpo concreto. Corpo concreto, cabeça, braço, joelho, corpo concreto. Aqui eu não tenho um sujeito. Que é meu sujeito aparecer? Camponês, proletário, professor, homem, branco, cristão. Tá vendo o sujeito aparecendo? A ideologia faz aparecer sujeito onde tinha um corpo concreto. Essa é uma acepção de ideologia”, afirma.