A bifobia se tornou pauta nacional com a participação de Lucas Penteado no BBB 21; três jovens bi nos contam como é ser bissexual nas periferias do Brasil.

Reportagem:  Thaynara Santos   

Arte: Nícolas Noel         

Edição: Fred DiGiacomo

“Eu acho que tem problemas em todos os lugares, né? Com informação ou sem informação eu vou me deparar sempre com casos de bifobia. “Pessoas negras vão ser bifóbicas. Pessoas faveladas vão ser bifóbicas, pessoas ricas, pessoas brancas, pessoas acadêmicas também vão ser. Mas eu não posso jamais afirmar que a favela tem menos compreensão sobre o que é ser ou não LGBTQIA +, porque é dentro da favela que eu criei a minha rede de apoio e fui abraçada”, conta Luci Gonçalves, 23, criadora de conteúdo, escritora e favelada. Luci é cria do Colégio. Também morou na Fazenda Botafogo e em algumas favelas como Faz Quem Quer e Covanca. Sempre foi uma garota que fez da zona norte do Rio seu refúgio.

Na sigla LGBTQI+, a letra B é responsável por representar as pessoas bissexuais (pessoas que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas de gênero masculino ou feminino), que frequentemente são apontadas violentamente como promíscuas, confusas e indecisas. Mas além dos temas relacionados à bisexualidade, os bissexuais moradores da favela e da periferia precisam lidar com outros conflitos gerados pela transfobia, o racismo e pelo preconceito contra os territórios de onde são crias.

Ter uma rede de apoio é indispensável para quem precisa ter seu lugar no mundo validado. Matheus Santiago, estudante de psicologia, 21 , sabia que o caminho não seria fácil desde o oitavo ano do ensino fundamental, mas fez nos amigos um porto seguro. “Meu núcleo familiar em si é completamente contrário [à bissexualidade], com falas como “até aceito gays e lésbicas, mas o resto é tudo putaria e safadeza. Fora da família sempre fui assumido e muito bem recebido”, diz. Ser um jovem negro e morador da zona oeste, periferia do Rio de Janeiro, também representa um risco de vida pelo único fato de ser ele mesmo.

Em 2020, o Brasil assumiu o 1° lugar em assassinatos de pessoas trans no mundo,  segundo o “Dossiê: assassinatos e violência contra travestis e transexuais brasileiras em 2020”, realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) e o Instituto Brasileiro Trans de educação (IBTE). A produção de dados sobre a população LGBTQI+ é escassa. Ravi Barbosa, 26, vendedor e empreendedor, mora em Bento Ribeiro, subúrbio da zona norte do Rio de Janeiro, e diz que mesmo enfrentando a bifobia, seu maior medo é ter seu gênero invalidado por comentários transfóbicos por ser um homem trans. “Já fui invalidado algumas vezes com frases infelizmente corriqueiras do tipo ‘isso é ser confuso’, ‘isso é putaria’ e algumas mulheres deixam de dar uma abertura pra se relacionarem comigo por acreditarem que em algum momento posso trocá-las pelo sexo oposto e/ou vir a sentir falta”, explica Ravi.

Luci, Ravi e Matheus: nós trocamos uma ideia com três pessoas bissexuais, crias de periferia, para entender onde o bicho pega quando se faz parte da letra B, na sigla LGBTQIA+

“As coisas não são preto no branco” Luci Gonçalves, influenciadora



Você acha que a compreensão sobre o que é ser bissexual acontece de formas diferentes na periferia e em outras partes da cidade?

Ravi: Acredito que sim, principalmente pela dificuldade de acesso à informação, por todo o preconceito cultural já enraizado, todos os outros recortes sociais, fora os conflitos e dificuldades no dia a dia.

Matheus: Com certeza. Desde uma questão de se achar ou ser considerado apenas indeciso ou invalidado até a questão socioeconômica que acompanha a política e a educação.

Luci: Se eu afirmo isso, sinto que afirmo o que o Estado quer dizer sobre os favelados e periféricos, que somos animais, que não temos educação, que não aceitamos um ao outro, que a gente mesmo se odeia. Então eu não concordo com essa afirmativa, de jeito nenhum. Acredito que a informação chega de forma diferente, muitas vezes não se tem compreensão sobre toda sigla, sobre orientações sexuais que não são tão vistas ou tão conhecidas, acho que rola também a falta de informação sobre pronomes de tratamento, mas são informações mais recentes e às vezes muito acadêmicas que vão demorar para chegar de forma completa na favela e na periferia onde o Estado interfere tanto e se aproveita do fato de que essa informação e tantas outras sobre política não chegam para a gente. Mas eu não posso dizer que a compreensão ou a forma que me tratam é melhor aqui fora porque é mentira. Pelo meu trabalho, eu circulo em muitas áreas sociais, tenho contato com pessoas que moram em lugares completamente diferentes, já viajei bastante também, já tive experiências muito ricas e muitos pobres e sei andar pelos mundos. Eu acho que têm problemas em todos os lugares, né. Com informação ou sem informação eu vou me deparar sempre com casos de bifobia. Pessoas negras vão ser bifóbicas. Negras e faveladas vão ser bifóbicas, pessoas ricas, pessoas brancas, pessoas acadêmicas, etc. também vão ser, porque eu acho que é mais uma questão de ignorância, de não aceitar a existência do outro e isso vai estar presente em todos os lugares. Mas eu não posso jamais afirmar que a favela tem menos compreensão sobre o que é ser ou não LGBTQIA + porque é dentro da favela que eu criei a minha rede de apoio e fui abraçada. Então acho que defende bastante, as coisas não são preto no branco assim.

Quando você começou a falar sobre temas relacionados a sua sexualidade com seus amigos e família? 

Ravi: Desde os 13 anos sempre fui bem esclarecido sobre minha sexualidade, todos os meus amigos sabem que sou bissexual, já pra minha família é confuso então eles não conversam muito sobre isso e nem me dão abertura.

Luci: Eu não tinha uma relação boa com meus pais, vim de uma família bem desestruturada, então eles não tinham muita noção. Eu nunca precisei esconder, nunca foi uma saída do armário definitiva, mas também não havia um entendimento muito grande sobre a minha orientação sexual e não havia um interesse muito grande da parte dos meus pais e familiares.

Matheus: [Eu comecei a falar sobre isso] a partir do oitavo ano do fundamental muitas amigas minhas estavam experimentando e assumindo sexualidades não heterossexuais e nesse processo comecei a pensar melhor a forma como me colocaria no mundo. A princípio não me assumia em nenhum lugar do espectro LGBTQIA+, pois sentia que a cada momento minhas atrações mudavam. Por muito tempo, e às vezes ainda hoje, questiono se há mesmo algo como uma sexualidade definitiva. Porém, entretanto, todavia, desde os 16 me assumo nos espaços como uma pessoa bissexual, apesar dos questionamentos, tanto por facilidade na comunicação quanto por não achar interessante politicamente dizer que não acredito em certos pontos sobre sexualidade e tal.

Como foi a reação das pessoas próximas a você? 

Luci: Como não foi uma “saída do armário”, sempre foi muito natural pra mim, então eu nunca precisei contar para as pessoas, mas eu acho que meu ex-marido (me  casei aos 16 anos) foi a pessoa que sempre soube e a família dele também sabia. Sempre foi bem óbvio meu desejo por homens e mulheres, então sempre que eu falava de alguma coisa que eu tinha admiração, como livros, músicas e séries, rolava aquele crush em homens e mulheres, então nunca foi surpresa para os meus amigos.

Matheus: Atualmente, somente duas pessoas na minha família, uma tia e uma prima, sabem sobre minha bissexualidade. Apesar de um pequeno espanto, foi uma reação tranquila. Meu núcleo familiar, em si, é completamente contrário, com falas como “até aceito gays e lésbicas mas o resto é tudo putaria e safadeza”. Fora da família sempre fui assumido e muito bem recebido.

Experimentou algum episódio relacionado à sua bissexualidade que te marcou de maneira positiva ou negativa?

Ravi: Já fui invalidado algumas vezes com frases infelizmente corriqueiras do tipo “isso é ser confuso”, “isso é putaria” e algumas mulheres deixam de dar uma abertura pra se relacionarem comigo pois acreditarem que em algum momento posso troca-las pelo sexo oposto e/ou vir a sentir falta.

Luci: Numa época em que eu precisei voltar a morar com minha mãe, que não fazia ideia, ela teve uma reação bem negativa. Eu nunca vou esquecer que ela disse que preferia que eu estivesse grávida de um bandido do que ser bissexual. Então no começo foi bem difícil porque eu precisava morar com ela, porque não tinha pra onde ir e já tinha me separado, e foi bem difícil lidar com o nojo e a não aceitação vindos da parte dela. Mas como eu sempre trabalhei e tive minha grana, nunca precisei levar ninguém pra lá. Foi mais fácil ter minha vida e seguir minha orientação sexual longe dali. Depois de um tempo ela foi conhecendo algumas namoradas que eu tive e chegou uma hora que ela sentiu ‘é isso né, vou ter que aceitar’, mas sempre com um pouco de resistência, nunca foi fácil.

Com meu pai sempre foi natural e até rolava umas piadas saudáveis dele tipo ‘Vou perder mulher pra você, você é mais nova que eu. Tá bonitona, toda inteirona, agora as mulheres só querem saber de mulher. Não vai sobrar mulher pro teu pai’. Sempre foi assim, nunca fui fetichizada, nunca tive uma trajetória pesada com minha sexualidade em relação ao meu pai, ele sempre foi muito tranquilo. Converso abertamente com ele sobre a minha atual, minhas exs e os meus exs tambémMatheus: Em um relacionamento que tive com uma mulher, minha parceira sentia muito ciúme das minhas amigas, mas não se incomodava nem um pouco quanto aos homens. Isso me deixava um pouco desconfortável pois além do ciúme em si já ser chatão me sentia invalidado em alguma instância.

Você sente medo de expressar sua bissexualidade no local de onde é cria ou no qual vive atualmente?

Matheus: Sim, minha comunidade é milícia e os caras são bem presentes. Fora isso, as pessoas daqui são bem conservadoras e por isso não consigo criar muitos laços

Ravi: Medo de expressar minha bissexualidade, não, mas por ser um homem trans, tenho receio de ouvir alguns comentários que possam vir a invalidar meu gênero.

Luci: Eu já ouvi de ex-namoradas que eu iria traí-las. Já li muitos ataques online me chamando de vetor de DSTs porque era impossível eu nunca ter transado sem camisinha porque como bissexual eu era puta. É muito difícil.

Pessoalmente, já rolou num bar, na zona oeste do Rio de Janeiro, que eu estava comemorando aniversário de namoro com a minha namorada e escutei muitas piadas de homens e resolvi revidar as piadas e me impor, e deram um tapa na minha ex e o dono do bar nos expulsou. Foi bem complicado. Da onde eu sou cria, não tenho nenhum medo nem receio. A minha atual companheira vive na Nova Holanda, no Complexo da Maré, e lá também não tive problema algum. Não apareço com outros parceiros e parceiras, mas acho que isso não seria um problema, a galera de lá é bem tranquila com isso. Mas no lugar onde eu vivo atualmente, fora da favela, eu sinto alguns olhares ainda. 

Qual a importância de ter espaços de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ na periferia?

Luci: Eu acho que é de extrema importância porque a gente sabe que tem uma dificuldade dessa informação chegar, o que não impede em nada o respeito e o acolhimento. É um trabalho muito necessário e eu acompanho muitos desses espaços na periferia do Rio de Janeiro e sei a diferença que faz principalmente para pessoas transexuais, que muitas vezes sofrem outros tipos de preconceitos e precisam de outros tipos de acolhimento também.

Ravi: É mais do que fundamental, necessitamos desses espaços de acolhimento em todo o canto do país, principalmente e fundamentalmente, dentro da periferia onde o índice de preconceito estrutural e cultural é alto e muito enraizado.

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Por Data Labe

O data_labe é um laboratório de dados e narrativas na favela da Maré – Rio de Janeiro. No centro dos projetos desenvolvidos está a questão do imaginário construído sobre a cidade e seus habitantes. O laboratório nasceu em 2015 nas dependências do Observatório de Favelas, em parceria com a Escola de Dados, e hoje se estabelece como organização autônoma e autogerida. As ações estão organizadas em três eixos: jornalismo; formação; e monitoramento e geração cidadã de dados.

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