Pesquisa referencia Casa Um e amplia o debate sobre justiça climática e desigualdades sociais
A educomunicadora Julia Neres lançou a pesquisa “Racismo Ambiental – Sobrevivendo no Inferno: Leituras Socioambientais a partir dos Racionais MC’s”. O estudo referencia a Casa Um e outras organizações do terceiro setor comprometidas com a justiça socioambiental e o acolhimento de corpos dissidentes.
A produção toma como base músicas do grupo Racionais MC’s, a partir do conceito de racismo ambiental, relacionando temas como rap, território, memória, desigualdade e justiça socioambiental e as análises técnicas do CEMADEN (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). O trabalho também demonstra como a cultura hip-hop opera como tecnologia social para o enfrentamento da desigualdade ambiental.
A pesquisa resultou em uma publicação com ISBN, disponível gratuitamente em PDF e audiolivro. O livro também foi publicado em versão impressa no contexto do Programa VAI, 22ª edição, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, pelo Mirante | Coletivo de Design Periférico, com parcerias do CEMADEN Educação (MCTI), IBEAC e CPCD, e apoio do Labidecom ECA/USP e da Revista Letramento Socioambiental. Parte dos exemplares foi distribuída gratuitamente.
Considerado um dos discos mais importantes do cenário musical brasileiro, “Sobrevivendo ao Inferno” , do Racionais MC’s está prestes a completar 30 anos em 2027. O álbum aborda uma narrativa atemporal e sensível, ainda presente no país: o genocídio de corpos pretos e perfiéricos e a violência do Estado.
A criação do álbum teve como pano de fundo as vivências do grupo de rap no Capão Redondo, periferia da Zona Sul paulista; o Massacre do Carandiru, considerada a mais brutal ação do sistema prisional brasileiro e que deixou 111 mortos; a demolição da Casa de Detenção de São Paulo e a Chacina da Candelária, em julho de 1993.
Racismo ambiental
O termo racismo ambiental surgiu na década de 80 com Benjamin Chavis, um dos aliados de Martin Luther King Jr, no contexto de manifestações do movimento negro norte americano.
A expressão explica como corpos periféricos são os mais afetados com os desastres climáticos e como isso se somatiza às vulnerabilidades raciais, sociais e econômicas e a falta de políticas públicas para mitigar esses problemas. Nos últimos anos, o termo ganhou notoriedade no Brasil com as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, que deixou 185 pessoas mortas.
Dados do Instituto Pólis deste ano mostraram que 61% da população negra brasileira mora em áreas de risco afetadas por chuvas e deslizamentos, principalmente nas capitais Belém, Recife, São Paulo e Porto Alegre. Além disso, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) revelou que eventos climáticos extremos afetam 1,8 milhão da Amazônia brasileira anualmente, onde 75% das populações tradicionais e indígenas são impactadas.
Falar sobre meio ambiente é entender que desigualdade também faz parte do debate e que corpos pretos, indígenas, LGBTQIAPN+ ainda não são contemplados. Afinal de contas, não existe justiça sem ambiente e precisamos de mais políticas públicas que ampliem essa discussão.