Por Thais Eloy, voluntária de comunicação da Casa 1

Natural de Sete Lagoas (MG) vivendo em Niterói (RJ), Caren Lopes, médica veterinária residente na Universidade Federal Fluminense, compartilha nas redes sociais seu cotidiano no meio acadêmico e no mercado de trabalho e as dificuldades no enfrentamento ao racismo e à lesbofobia nesses espaços.

Como o racismo se manifesta na comunidade LGBT, especialmente entre mulheres lésbicas?

[O racismo se manifesta] em várias esferas. Como me descobri lésbica na universidade, eu já participava dos movimentos sociais, do movimento feminista e do movimento negro, já tinha uma visão um pouco mais crítica disso. Eram questões que eu já entendia e ao mesmo tempo não entendia completamente. Eu sentia que queria fazer parte de um grupo e, principalmente, parte de um grupo sendo mulher lésbica, me entender naquele ambiente, com mulheres parecidas comigo. E por um tempo eu achei que não existiam mulheres negras e lésbicas. É muito esquisito.

Penso nisso até hoje quando falo sobre ser veterinária negra e lésbica. Tenho grupos profissionais e faço parte de um grupo de veterinários LGBTs e de um grupo só de veterinários negros. Eu sou no grupo de veterinários negros, a lésbica e, no grupo de veterinários LGBT, a negra. Desde a universidade eu já tinha essa percepção crítica e percebia que quando a gente fala “vou estar em uma festa LGBT” ou “em um evento LGBT”, o que vem à mente são homens brancos e, quando é um evento de mulheres, é só mulheres lésbicas brancas. Tem sempre essa sensação de não pertencimento. Não me sinto cabendo nesses espaços, mesmo quando se fala que é um espaço de representatividade. Quase sempre colocam uma mulher negra lésbica e só. Isso quando tem, raramente tem. E dentro da comunidade LGBT+ eu nem me vejo mais dentro dessa discussão. É muito frequente não me enxergar nessas discussões.

No dia 20 de novembro, ocorreu aquele caso no Carrefour [João Alberto, um homem negro foi assassinado por dois seguranças terceirizados da rede de supermercado] e essas questões me abalam muito. E vejo que é pouco discutido por pessoas brancas no meio LGBT+. A comunidade LGBT+ branca literalmente ignora as questões de pessoas negras. Ignora que a nossa vivência é válida e que existem questões que são únicas da nossa experiência, que precisam ser tratadas de forma séria. As pessoas são descaradamente racistas e, muitas das vezes, elas têm orgulho disso. Essas pessoas acham que o que elas vivem, ou as experiências que elas vivem, são o máximo da opressão. Para elas não existe uma opressão maior que a homofobia ou que a lesbofobia. Já ouvi várias mulheres lésbicas inclusive afirmando isso, como se o racismo não fosse nada, ignorando a existência do racismo. Gostaria que a gente pudesse ter um diálogo tranquilo, que as pessoas minimamente se preocupassem, mas, o que eu vejo, é um descaso e que é deixado de lado, exceto quando isso é bonito nas redes socias, onde você vai pagar de desconstruído e vão curtir seu post. Dura dois dias e daí para frente ninguém se importa mais.

Ser uma mulher negra e lésbica afeta seu trabalho como uma produtora de conteúdo?

Afeta muito, principalmente na parte emocional. Quando eu comecei a ganhar mais seguidores não era uma coisa que eu queria. Ter muito seguidor, ser uma grande produtora de conteúdo (ri). Foi realmente uma necessidade de falar sobre isso porque sempre participei de movimentos sociais, sempre me engajei muito nessas questões e via muito pouco sendo falado. Gosto muito da internet, gosto de me comunicar, gosto de ver outras pessoas falando sobre as coisas e queria muito falar sobre ser lésbica e negra no mercado de trabalho.

Eu não via se alguém falava sobre isso ou pouquíssimo se falava sobre, só que é muito difícil de crescer, para além dos números. Uso muito o Instagram e lá você tem que produzir o tempo inteiro, se você não tiver produzindo o tempo inteiro não te dão visibilidade, não chega [a publicação nos seguidores] e se não tiver alguém te ajudando é muito difícil.

E é um trabalho. As pessoas não têm noção do quanto é trabalhoso e você não é remunerado. Quem recebe “publi”, auxílio para fazer alguma publicação paga, na maioria das vezes são pessoas brancas. E dentro da comunidade lésbica são mulheres lésbicas brancas e é chocante. Quando comecei a querer publicar coisas eu via perfil de pessoas que, literalmente, postavam só o rosto. É absurdo. E tinham muitos seguidores, muita “publi” e com certeza devem ganhar dinheiro só fazendo isso, só mostrando a cara, não falam de assunto nenhum. Não discutem nem sobre ser lésbica como se fosse algo relevante, às vezes nem isso, só postando foto do rosto. Isso desanima muito porque não acho que vou ser chamada para uma “publi” tão cedo, acho que vou sempre ficar me desgastando.

E eu gosto de publicar, realmente gosto, mas tem momentos que chegam a ser um desgaste emocional também. Gente questionando o que você faz acontece com frequência. Quando comecei a postar sobre ser lésbica dentro da medicina veterinária, que é minha área, muita gente apareceu me perseguindo. No começo, foi muito complicado e depois, de novo, falando sobre negritude dentro da minha área. Muita gente falando que era um absurdo, que achava violento falar sobre ser negro, que era bobagem e que ninguém precisava saber disso. Vários desestímulos, coisas que gosto de fazer que ficam desestimulantes, que me deixam para baixo porque além de ser uma energia muito grande que eu gasto, não tenho tanta visibilidade e ainda não tenho ajuda. Ainda por cima existe essa questão de pessoas que são violentas. Internet é esse mundo. Às vezes eu tento me afastar um pouco. Nem sempre eu consigo ficar [conectada].

Apesar de não serem dados oficiais, o dossiê do lesbocídio indica que mulheres lésbicas e negras estão mais propensas a cometer suicídio. Você avalia isso como uma marginalização de mulheres lésbicas na sigla, somada com a falta de cuidado médico e social com a saúde mental de mulheres negras na sociedade?

Sim, com certeza, totalmente interligado. Primeiro que existe só um dossiê no Brasil sobre lesbocídio, é o único que a gente tem. Tentei ler e tirar alguma informação dele, mas ainda assim é um dossiê muito falho. Só é contabilizado [o crime de violência] que foi publicado em jornais e redes sociais. Uma questão é a invisibilidade total de mulheres lésbicas, e essa invisibilidade está refletida também no lesbocídio, na morte de mulheres lésbicas. Então, muitas vezes não se sabe que uma mulher foi morta por lesbocídio, não se sabe que esse é o motivo e várias outras questões. Essas mulheres são mortas e não se sabe nada sobre a existência delas. Bate no racismo e bate na lesbofobia.

Vejo muitas questões quando a gente fala sobre ser lésbica e negra performando ou não performando feminilidade. Tem se discutido muito sobre isso. E lembro que quando comecei a pesquisar sobre ser lésbica, – é doido quando a gente vai se descobrindo, eu colocava no Google, precisava saber mais sobre isso e primeiro não achava pessoas parecidas comigo e quando eu achava, eram extremamente padronizadas.

Eu comecei a tentar entender o que era ser lésbica muito dentro do que é o estereótipo do que é ser lésbica, do estereótipo que fazem das vivências de mulheres lésbicas que não performam feminilidade. Tinha muita curiosidade para saber sobre isso e achei algumas youtubers que falavam sobre, mas nunca achei mulheres que falavam sobre vivências de mulheres lésbicas que performam feminilidade e questionando isso e tentando entender a vivência de uma mulher lésbica feminina e como isso leva à questões psicossociais e, quando comecei a ler o dossiê, me veio essa informação. Já sabia que tinha essa questão de mulheres lésbicas negras [que não performam feminilidade] e o assassinato pelas questões de estereótipo e pelo racismo. Mas [sobre o que] mulheres feminilizadas sofriam pela questão psicossocial e sofriam sendo “suicidadas”, que é o que diz o dossiê: mulheres suicidadas. Mexeu muito comigo.

A sociedade é extremamente lesbofóbica, e é extremamente racista mas, em relação à lesbofobia, é tão extremamente lesbofóbica, e é tão inaceitável a nossa existência na sociedade, que quando você não performa feminilidade, você é chamada de homem, você quer parecer um homem, você não é mulher o bastante, e quando você é feminilizada, uma mulher que de alguma forma encaixa nesse padrão do que é a feminilidade na sociedade, você também não é lésbica. Ou você é homem ou você não é lésbica. Não existe lésbica nesse mundo. Não existem mulheres que se relacionam com mulheres. Mulheres não foram feitas para isso, foram feitas para homens.

É muito pouco discutido o quanto essa pressão psicológica afeta as nossas vidas e o quanto isso pode nos levar a serem suicidadas, o quanto isso acaba com a nossa autoestima. Muitas mulheres são empurradas para a heterossexualidade compulsória porque não parecem lésbicas. Para você ser lésbica tem que ser assim ou tem que ser assado e se você não é assim deveria se relacionar com homem. E isso a gente sabe que faz mal, é extremamente danoso para o nosso psicológico e leva sim para o suicídio. A gente não faz nem ideia do quanto isso atinge a comunidade lésbica.

Venho conversado muito com amigas, durante agosto, mês da visibilidade lésbica, fizemos um grupo com mulheres lésbicas e negras e foi uma experiência maravilhosa. A gente tem conversado muito sobre essa questão de feminilidade e não feminilidade e o quanto esses padrões, esses estereótipos de gênero, são extremamente eurocentrados e como eles não cabem em mulheres negras.

Tem se discutido muito sobre o termo “caminhão”, sobre como ele foi pejorativo no começo e como ele tem sido abraçado pela comunidade lésbica. Agora várias mulheres brancas estão querendo quebrar com esse padrão do que é ser feminina e do que não é, e como isso é tão mais fácil para elas. Elas raspam a cabeça e pronto, agora não são mais femininas, agora são “caminhão”. E esse histórico do que significa ser “caminhão”, historicamente vem com o peso da violência lesbofóbica e racista. A feminilidade não foi feita para mulheres lésbicas, mas, principalmente, não foi feita para mulheres negras. É como se fosse inaceitável para a sociedade que mulheres negras sejam femininas, por que o que é ser feminina, né? O nosso cabelo não está dentro desse padrão, a nossa pele não está dentro desse padrão de feminilidade, a que existe na nossa sociedade. Isso não foi feito para caber na gente.

O que pode ser feito em espaços voltados para comunidade LGBT não reproduzirem racismo?

É uma questão profunda. O primeiro passo é ter o mínimo de empatia. Existem pessoas que parecem não ter empatia, não demonstram o mínimo interesse pelo assunto. Ter interesse é ler mesmo, ouvir o que as pessoas, principalmente o que mulheres lésbicas e negras, estão falando nas redes sociais. Já tem tempo [que mulheres negras e lésbicas estão falando sobre racismo e lesbofobia], não é de agora.

Leci Brandão já falava sobre isso, Audre Lorde falava sobre isso. Vai atrás não só das mulheres negras de agora, mas do histórico. Será que você sabe a história, o caminho que a gente teve que fazer para chegar aqui? Mas ouça também as mulheres lésbicas que estão falando sobre isso agora e busque se silenciar um pouco. As pessoas não conseguem ficar quietas, ficar em silêncio e pensar “não é minha hora de falar, é minha hora de ouvir”. Ouça e tente no mínimo, no seu meio, – que na maioria das vezes é formado só por pessoas brancas-, discutir isso e não se silenciar nesses momentos. Existem várias pessoas brancas que na hora que está acontecendo um episódio de racismo na frente dela, a pessoa se silencia, no momento que é para fazer alguma coisa, fica quieto. É importante agir de forma verdadeiramente antirracista. Fora isso, eu recomento muito a Audre Lorde. Ler Audre Lorde é revolucionário, eu sou muito fã.

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