O professor de Geografia, natural de Santos Dumont, Minas Gerais, João Luiz Pedrosa viu sua vida mudar depois da sua participação na última edição do Big Brother Brasil. Agora ele, o namorado Igor, uma calopsita e duas chinchilas dividem um apartamento em São Paulo. “Eu estou me adaptando bem. Já vinha bastante a São Paulo antes, já conhecia e vivia muita coisa da cidade, antes mesmo de tudo isso acontecer na minha vida. Acho que agora eu consigo viver São Paulo de uma nova forma. Consigo reconhecer isso”. 

Junto com a mudança de cidade, veio também a mudança na profissão. Atualmente, apenas no Instagram, João conta com mais de três milhões de seguidores. “Eu me via nessa posição que estou hoje. O que é muito louco porque foi uma viradona na minha vida de uma hora para outra e foi tomando proporções que eu não imaginava que tomaria”, diz surpreso e feliz. 

Por vídeo chamada, ele conta que se inscreveu para outras edições e que, até o momento, não teve experiências ruins com telespectadores do programa que o reconheceram na rua.  

Depois de algumas inscrições, quando finalmente conseguiu entrar para a “casa mais vigiada do Brasil”, ele queria que sua participação no reality fosse bem orgânica e tranquila, da mesma forma que ele leva suas relações fora da televisão. “Se a gente for entrar com um personagem, é possível sustentar por algum tempo. Até um mês você consegue, mas três meses você não consegue não. Eu fui levando as minhas relações lá dentro muito tranquilo. Sei que teve muita gente que fez uma preparação absurda de redes, de estratégia. As minhas redes por exemplo, foram administradas pelos meus amigos, a sua maioria professores também. A gente teve essa dificuldade de entender como funciona. Eles, né. Eu não tive porque estava lá dentro”, ri. 

Apesar do último episódio do programa ter ido ao ar em maio, alguns telespectadores continuam a mandar mensagens ofensivas para os participantes, João ignora.  

“É horrível, não é bom [receber esse tipo de mensagem]. Mas é isso que as pessoas querem, que você veja o comentário e fique mal e eu não fico por que a minha cabeça está bem. Se eu não estivesse com a cabeça no lugar poderia me acessar outros pontos que talvez gerasse algo negativo. Tenho que pontuar uma coisa que acho importante, uma coisa é chegar em mim e dizer que não gosta de mim e  que me acha chato. Me achar chato tá suave, mas o problema é que as pessoas se utilizam disso para serem racistas e homofóbicas. Uma coisa é falar que eu sou chato, outra coisa é injúria racial “, pontua.

Sua presença no programa aconteceu na edição que teve, até o momento, o maior número de pessoas LGBTs e negras. Ele entrou no programa muito tranquilo em relação a sua sexualidade, sabendo que algumas pessoas se identificariam e outras não, e que a edição poderia gerar discussões a respeito da participação de pessoas LGBTs na televisão aberta. Contudo, ele diz que conhecer pessoas com outras realidades e vivências parecidas com a dele, como Pocah, Gil e Lumena, valeram muito.

Em um tom descontraído ele não descarta a participação em outro reality. Grande fã de drag queens, João participou da gravação do podcast Santíssima Trindade das Perucas e também do Della MakeUp, quadro de maquiagem no canal da drag Bianca DellaFancy. “O universo drag é um lugar que sempre estive, não me montando, mas eu sempre consumi muito produto feito por drags nacionais e internacionais. Tinha uns amigos que se montavam e a gente ficava pirando em casa. Hoje eles se montam muito melhor do que na época em que estava brincando com eles. Então quando a Bianca me convidou para fazer um Della Make eu falei ‘vambora’, tirei a barba e tudo. Eu não sou muito apegado. Tem muita gente que é apegada a barba e eu não sou muito não. Meti um prestobarba e me montei. Se tivesse um reality e a Bianca fosse minha drag mother, eu iria. Iria porque seria muito divertido. A gente tá construindo uma amizade muito legal”.

 Novos projetos, mesmos propósitos 

Participar de um programa global, gerou muita visibilidade para o professor mineiro. Muitas propostas surgiram desde que saiu da casa, uma delas foi o convite para participar do programa Trace Trends. Em um programa feito e pensado majoritariamente por pessoas negras, João ganhou um quadro sobre educação.  

“O que eu consigo perceber é uma diversidade muito grande, tanto nos apresentadores como na forma que o programa é pensado. Por muito tempo a gente  ficou sem assistir pessoas semelhantes a nós na TV. Agora pessoas estão ali preocupadas em discutir uma série de questões que antes não eram discutidas. É realmente uma forma da gente pensar um audiovisual que seja diverso e pensado para as pessoas, e não em vender um padrão de vida que a parte massiva da população não tem como bancar e nem como reproduzir. Vejo uma coisa mais orgânica funcionando”. 

Por ser um programa bem natural, ele e os outros apresentadores participam em conjunto da elaboração do que vai ser abordado no quadro que exibem. O convite para integrar o time dessa atração aconteceu assim que ele saiu da casa. O programa agora faz parte da rede de produtos Globo. Além dos episódios mais recentes, a Globo Play também disponibiliza todo o acervo dos episódios desde 2019.  

Outra oportunidade foi o convite para escrever um livro, feito pela Editora Harper Collins. “Sou eu mesmo que estou escrevendo, mando o texto para eles e pergunto o que estão achando e eles voltam com os comentários. Acho que vou conseguir fazer com que as pessoas vejam a geografia de outra forma. Às vezes ficamos muito presos ao que aprendemos na escola, mas ela está presente na nossa vida em diversos momentos. Estou fazendo esse exercício de fazer com que as coisas fiquem mais fáceis para a gente poder entender melhor. Estou ansioso para todo mundo ler, acredito que vai ser um grande momento para mim”, reflete. 

Quando perguntado sobre o desmonte da educação pública no Brasil, João adquire um semblante mais sério, contrastando com a figura relaxada e divertida do restante da entrevista. “A pandemia não é culpada pelo fato de a gente ter um vazio educacional enorme, ela agravou um vazio que já existe há muito tempo. O que penso constantemente é sobre desafio e acredito que daqui para a frente o desafio vai ser enorme. Quando vejo alternativas minimamente surgindo no horizonte, em volta dessas alternativas tem muita coisa que precisa ser resolvida antes. Tanto no âmbito político como no social mesmo. Do interesse das pessoas pela educação e do próprio Estado pela educação. O que tenho enxergado é um descaso com a saúde, com a educação, com a segurança pública e com as pessoas. Os anos vão passando e parece que direitos que a gente historicamente conquistou, como acesso a universidade pública e valorização da ciência vão se perdendo”.

“A gente cresce achando que isso é comum, que foi dado. Nada foi dado, tudo foi conquistado. A educação, a saúde e a segurança tem ficado cada vez mais precárias. E vamos combinar que não é precário porque não tem dinheiro, é precário por que tem um descaso e também porque tem toda uma estrutura política que faz com que isso aconteça, que prioriza uma série de outras coisas e não a garantia de educação de qualidade para milhões de estudantes que estão em casa hoje sem conseguir assistir a uma aula. Cada dia é uma notícia, ‘olha, tão querendo acabar com a lei de cotas, o lattes caiu’. O lattes é uma plataforma que armazena dados acadêmicos de milhares de pessoas. Tem pessoas que o currículo é o lattes e aí o armazenamento acaba porque não tinha manutenção. Essas coisas acontecem porque tem um descaso e acredito que se a gente não se atentar para isso, vai continuar se alastrando e queimar ainda mais”, alerta.  

Hoje, além do Trace Trends, João apresenta o Popeando, seu programa semanal no Instagram sobre cultura pop. E, além do livro, o professor ainda vai participar de outro projeto inédito, apresentando um programa no canal Futura que estreia em setembro. A atração vai abordar a trajetória de vida e a obra do patrono da educação brasileira, Paulo Freire. “Conversei com pesquisadores, artistas e pessoas que de certa forma foram afetadas pela figura do Paulo Freire”. João está contente com as mudanças que o programa possibilitou a sua vida e certifica que elas só estão começando. “ Estou trabalhando muito, gostando muito dessa nova vida, dessa nova experiência. Daqui para a frente só vão aparecer ainda mais conquistas”.

Foto de capa: Thiago Bruno

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Por Thais Eloy

Taubateana e Jornalista.

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