Por Florence Belladonna Travesti, historiadora e pesquisadora em gênero.

Antes mesmo de começar este texto, recupero aqui o conceito de heterotopia de Michel Foucault, que pode ser compreendido quando falamos de territórios com tempos e espaços outros, com deslocamentos ímpares para a demarcação territorial em que acontecem, e que não encontram pares semelhantes, mesmo que às vezes imaginar a coisa coloque-nos de frente a uma ideia metafísica. A Ditadura Militar do Brasil, entre os anos 1964-1985 foi isso.

Acontecida em um tempo e espaço outro, contar as histórias da ditadura é um desafio até para os historiadores mais experientes, e ainda mais para quem viveu aquele período. Para quem nasceu e cresceu em um período ditatorial, a perspectiva histórica toma outros rumos, não mais localizada no grande período de tempo de sua duração de 21 anos, mas sim na história de vida das pessoas que tiveram essa única referência de sociedade, ao passo em que cresciam e desenvolviam-se entre fases de criança, adolescente e adulto.

Nessa perspectiva, para muita gente, a Ditadura Militar iniciada em 1964 toma outros sentidos, dialogando com memórias muito mais intensas acerca dos cotidianos locais em que essas pessoas viviam, do que uma visão ampla nacional e internacional sobre aquele período histórico vivenciado.

Mesmo assim, se para uma parte dos brasileiros que nasceram e cresceram entre 1964 e 1985, só foi possível ter uma visão ampla dos males da Ditadura nos livros de história na nova democracia, teve outra parte populacional que compreendeu muito bem as articulações e implicâncias da política nacional em suas vidas, sofrendo violências e sendo reprimidos de algumas forma, quando ousaram contestar.

Nesse sentido, trago a este escrito, dois episódios do podcast “Passagem só de ida”, organizado pela instituição civil Casa 1, o qual conta histórias de pessoas LGBTI+ que migraram para a cidade de São Paulo em algum momento de suas vidas. Os episódios aos quais me refiro, são dois, publicados aos dias 29 de março e 05 de abril deste ano de 2021, referentes às entrevistas dadas por Leo Moreira Sá e Gretta Salgado Silveira, respectivamente. Ambos pessoas trans, que rememoraram o período ditatorial com diferentes momentos de intersecção desse período histórico, perpassando suas histórias de vida e cenas das histórias LGBTI+ do país.

Pela ordem de publicação dos episódios do podcast, das entrevistas aqui referidas, a primeira a ir ao público foi a do Leo Moreira Sá, ao dia 29 de março de 2021, numa segunda-feira pela manhã. Naquela manhã, viajar pelas palavras do Leo foi uma experiência ímpar, que a partir de suas memórias de vida, nos deu um panorama histórico importante, das histórias dos movimentos LGBTs do Brasil, mas também do fervo político que permeou a Ditadura Militar.

Seguindo a linha de vida e exposição discursiva do Leo, nossas primeiras impressões vão de encontro com o início da sua experimentação de gênero em São Bernardo do Campo, região do ABC paulista onde nasceu. É lá que, ainda criança, nos conta como os borramentos das fronteiras de gênero têm um significado importante e como isso o fará perceber processos da vida.

Já na adolescência, as fronteiras de gênero tomaram rumos psiquiátricos, quando Leo começou a tomar remédios prescritos por psiquiatra. Ao dizer na entrevista que lembra-se ainda hoje do nome do primeiro remédio prescrito, Valium, Leo nos coloca de frente a uma realidade de muita gente trans, que encara, muitas vezes na infância e adolescência, um processo de patologização de suas identidades.

Não à toa, por muitos anos as ciências médicas e psiquiatria, psicologia e alguns psicanalistas, nos viam como doentes mentais ou pervertidos, relocalizando nossas identidades transgêneras no CID (Catálogo Internacional de Doenças) só em junho de 2018, quando saímos da sessão de transtornos mentais e fomos colocadas nas prescrições de cuidados sexuais.

Isso significa dizer que os processos de marginalização das identidades acontecem de maneira organizada. Em relação à homossexualidade, por exemplo, as trangeneridades deixam de ser consideradas doença só 28 anos depois, e esse atraso de quase 30 anos coencide com aspectos outros, como a expectativas de morte de pessosas trans, sobretudo mulheres travestis, aqui no Brasil.

Leo ainda nos diz que durante muitos anos da sua vida, não sabia exatamente definir sobre sua transgeneridade, estando em algum lugar que não sabia ao certo o que era. Esse não-lugar, perpassa o modo como Leo viu processos políticos, mas também como ele absorveu as contraculturas fervilhantes do período ditatorial.

A Ditadura militar do Brasil teve início em 1964, mas foi gestada meses antes. Olhando por viés comparativos, até o seu fim em 1985, o Brasil vivia um período histórico peculiar, sobretudo porque o conservadorismo ditatorial não condizia com as novas vertentes de pensamentos políticos emergentes em outras localidades do globo.

Exatamente 4 anos depois do início da ditadura militar aqui no Brasil, o Estados Unidos da América experimentava pela primeira vez uma onda massiva de protestos anti-racistas, impulsionados pelos Panteras Negras, e grandes intelectuais como Angela Davis. Ainda nesse período de 1968 para o início da década de 1970, tornaram-se cada vez mais abrangentes os processos de abertura cultural, o que mais tarde chamou-se de Revolução Sexual, tomando abrangências tanto na grande potência norte-americana, quanto em países da Europa como a França.

Foi por volta dessa época que, com cerca de 11 anos, Leo deixava São Bernardo do Campo e saia rumo à São Paulo, com toda a família. Em São Paulo, Leo conta-nos das suas lembranças de escola e ensino médio, concluído em 1978. Depois do ensino básico, o Leo conta-nos que fez cursinho por alguns meses, até sua entrada na USP, quando passou a se colocar politicamente de maneira assumida.

Ao passo que Leo começava os primeiros contatos com os intelectuais da filosofia francesa, nos anos iniciais da década de 1980, ainda nos EUA ganhava-se cada vez mais força uma onda anti-gay, intensificada pela epidemia do HIV, e espalhando-se pelo ocidente.

Leo nos conta da tenebrosidade dessa época, onde grupos radicais agrediram pessoas LGBTs até a morte, na Avenida Paulista, realidade que se converteu em drama da comunidade LGBT local, frente às dificuldades de repercutir as violências contra grupos minorizados em momentos de conservadorismos, como aquele da década de 1980.

Leo também nos conta que, na mesma época que condensava o período ditatorial no Brasil, estavam em latência a Guerra Fria, caracterizada sobretudo por corte de relações diplomáticas e comerciais entre EUA e URSS, com implicações políticas nos países aliados. É na mesma época em que o povo de várias nacionalidades ocidentais deparam-se com estruturas internacionais fragilizadas, e um crescente medo de novos ataques nucleares, ao estilo das cidades de Hiroshima e Nagasaki da Segunda Guerra Mundial.

É neste momento em que Leo conhece o SOMOS, grupo pioneiro no movimento LGBT do Brasil, que contou com nomes como João Silvério Trevisan. À época, o SOMOS marcava-se enquanto um ponto nodal de resistência LGBT em meio a ditadura.

Já Gretta, ou Gretta Sttar, como popularmente é conhecida, vivia um outro momento, um momento de ascensão social na Ásia.

A história da Gretta, publicada pelo podcast “Passagem só de ida” ao dia 05 de abril, parte do seu local de nascimento, Santos, litoral de São Paulo. Em sua narrativa, Gretta traz aspectos das vivências travestis e transformistas que, mesmo com a Ditadura Militar, conseguiram destaque.

Se para Michel Foucault os dispositivos de poder estão em qualquer lugar, Gretta relembra-nos uma fala de Rogéria, ao concordar que foi o período ditatorial em que ganhou mais dinheiro. Se os dispositivos políticos incidiam sobre o povo de maneira repressora, era nas boates em que a diversão burlava todas as proibições.

Mas é preciso dar um passo atrás, na infância e adolescência de Gretta. Sua narrativa perfaz uma ambientação com alguns pontos muito comuns para muita gente trans feminina e travesti. Conta-nos que desde criança, até por volta dos 16 anos de idade, era vista como esquisita, talvez introspectiva. Conta-nos que viveu uma infância boa, cercada pelo auxílio do pai farmacêutico e da mãe dona-de-casa, e que foi uma criança bem assistida, com boa educação, lazer e esporte.

Por outro lado, na adolescência, na transição das décadas de 1970 para 1980, foi que começou a perceber o corpo de uma maneira diferente, a compreender por comparação, que não tinha seios desenvolvidos como os de outras meninas. Gretta cita-nos uma situação em que, ao observar algumas meninas passeando na areia da praia, teve a ação impensada de cobrir o seis com as mãos, por timidez emergente.

É nessa ambientação que Gretta descobre sua transgeneridade de maneira sozinha. Diz-nos que tinha um padrinho gay, mas que este só assumiu sua homossexualidade já na velhice, há pouco tempo. E isso nos diz muito, de um tempo em que os processos de conservação das normatividades, delegando pessoas LGBTs ao silêncio, que para garantir uma existência social tinham que reprimir suas identidades a vida inteira.

Nesse período da década de 1970, ao passo que Leo Moreira Sá já saía do ensino médio e iniciava sua ambientação pela USP, Gretta articula sua saída de Santos para a cidade de São Paulo, por compreender que descobrir aqueles sentimentos que surgiam nela, seria mais difícil próximo aos olhos dos familiares.

Na transgeneridade, compreender os processos que nos subjetiva para uma  transição de gênero nem sempre são claros. Ao passo que uma travesti compreende sua identidade feminina, quase sempre, a família composta por um pai e uma mãe cisgêneros, que também tiveram pais e mães cisgêneros, e assim decrescivamente, continuam assimilando nossos corpos a figura de uma menino que viram nascer.

Já na faculdade, Gretta diz-nos que começou a compreender algumas de suas indagações de gênero, a partir de amizades com outras pessoas LGBTs e mulheres que conheceu. É nesse período da década de 1970, que Gretta começa a tomar hormônios e, percebendo o quão marginalizadas eram as mulheres travestis (quase um paradigma transgênero perpetrado ao longo dos séculos), ela se apavorou ao perceber que com a transição de gênero, ela poderia não encontrar acolhimento familiar, frente ao seu uso de hormônios e mudanças corporais. Foi pensando nisso que nos diz que não esperou ser expulsa de casa, que voltou à casa do padrinho com quem morava, arrumou as malas e partiu em direção a Brasília.

Sem dar notícias para a família por 2 anos, em Brasília reencontrou um amigo antigo que a levou de volta a Santos. De volta a sua cidade de origem, foi aceita de volta a casa dos pais, mas com a condição de ser o que ela quisesse à rua. Foi então que Gretta arranjou emprego em uma boate de Santos e conheceu um agente de shows que a levou para o Japão.

Depois de viajar por mais de 20 países da Ásia, fazendo shows, ela retornou para Santos ao receber a notícia que o pai estava doente e bastante debilitado. Em Santos, voltou a trabalhar por algumas semanas nas boates locais, e depois de um tempo, por convite, retornou para São Paulo, para trabalhar em boates como a Nostro Mondo.

Neste meio tempo de retorno, Gretta adoeceu, ficando bastante debilitada em UTI por alguns dias e, ao fazer exames, descobriu que havia contraído HIV. É nesse tempo, finais da década de 1980 para 1990, que Gretta se viu assustada com os processos de afastamento de alguns amigos e conhecidos, pelo preconceito que existe em nossa sociedade, ainda hoje, sobre o vírus da imunodeficiência humana.

Foi então que em determinado dia, Gretta para um show ao meio, abre o microfone e assume a sorologia positiva, dizendo-nos que mais uma vez jogou todos os fantasmas que assustavam-na para longe.

Ao passo que Gretta narra sua história, ela nos delimita um período histórico ímpar, em meio a ditadura militar e em relação a sua própria história de vida, assim como de tantas outras travestis ainda hoje, em um Brasil que atualmente flerta com a Ditadura de outrora. Gretta nos dá algumas pistas interessantes de um momento histórico de valorização das travestis.

Na história do Brasil, as décadas de 1950, 1960 e anos iniciais de 1970 marcam uma supervalorização nacional e internacional das travestis. Sobretudo na década de 1950, é que as travestis eram as grandes rainhas dos carnavais. É no mesmo período que ascende as “europeias”, as travestis que imigravam para a Itália, e voltavam de lá belíssimas, feitas e endinheiradas. Muitas, sustentavam suas famílias a distância, mesmo que as famílias jamais as aceitassem enquanto mulheres.

Gretta conta que pouco percebeu da repressora Ditadura Militar no Brasil, e que começou a descobrir o que foi em completude esse período histórico depois, com os livros de história. Mesmo assim, mais do que qualquer outra história, a história de Gretta da história LGBT nacional de maneira não óbvia, deixando-nos entrever a história do Brasil pela desterritorialidade imposta às travestis deste país.

Se a Ditadura cometeu crimes horrendos entre 1964 e 1985, com repressões e torturas, era nas boates que encontravam-se heterotopias prazerosas, que permitiam pessoas LGBTs sobreviverem a tudo aquilo.

Novamente, para quem nasce e cresce em períodos repressivos, o campo político está diretamente atrelado à sobrevivência. Nos processos de desterritorialidade de Gretta, ela sobreviveu bem, em meio a mesma ditadura que caçava travestis às ruas, viajou o mundo, aprendeu culturas, línguas, e depois voltou. Gretta nos ensina que, apesar das dores do não-lugar, também se pode ter prazer e conquistas. A vida de Gretta, mais que qualquer exemplo, dizem-nos dos sentidos das viagens de viver, com paisagens, com alguns caminhos estreitos e outros largos, mas sempre uma viagem cheia de paisagens.

Se Leo Moreira Sá nos conta de não-lugares dentro de si que o fez administrar a vida politicamente, Gretta Salgado Silveira nos conta de um não-lugar imposto socialmente às travestis, com consequências dolorosas mas que às vezes, pode dar outros sentidos a vida, e nos salvar alegremente das mediocridades de uma ditadura.

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Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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