Confesso que demorei bastante para aderir à onda dos podcasts e, avaliando bem, acho que teve um pouco a ver dos conteúdos que tive acesso inicialmente: em geral pessoas conversando de forma meio aleatória e desconexas, edições frenéticas, muitas indicações e achismos, como uma rádio turbinada com a linguagem dos jovens youtubers.

Nada disso é um problema, não acho ruim, só não é o tipo de conteúdo que eu dou conta de assimilar e quando penso em uma palavra para descrever o que sentia ouvindo os episódios só me vem à cabeça o termo DESORIENTADO. Quando descobri então que as pessoas ouviam adiantando a velocidade aí meu sentimento virou DESORIENTADO + DESESPERADO.

Mas como tudo nesse mundão, os podcasts passaram a ter uma variação de formatos e aos poucos fui encontrando os que mais me interessavam e resolvi compartilhar por aqui, quem sabe você leitor que não é muito afeito, acabe encontrando algo do seu agrado.

1. Vinte Mil Léguas

O “Vinte Mil Léguas” é uma produção da revista “Quatro Cinco Um” em parceria com a Livraria Megafauna e apoio do Instituto Serrapilheira, criado pela jornalista e curadora Fernanda Diamant que também edita os roteiros dos episódios.

Conduzido pelas escritoras e roteiristas Leda Cartum e Sofia Nestrovski, que são responsáveis também pela pesquisa e roteiros dos episódios, o “Vinte Mil Léguas” é um podcast que apresenta a “ciência através dos livros” e “lê os cientistas como escritores” e na sua primeira temporada traz a trajetória de Charles Darwin.

O mais legal do “Vinte Mil Léguas” é o tempo, como já aponta o primeiro episódio “Um navio com nome de cachorro, pt. I”, o podcast segue como uma jornada de barco, calma, morosa, longa e em meio às muitas informações, curiosidades, reflexões e análises é possível relaxar e curtir.

São 10 deliciosos episódios com duração entre 20 e 46 minutos, três pequenos episódios bônus de até 12 minutos e duas entrevistas, uma com a bióloga Nurit Bensusan que fala sobre a ciência nos dias atuais e o sociólogo Matheus Gato de Jesus que aborda racismo, darwinismo social e a situação dos negros no Brasil nos séculos 19 e 20.

Os episódios estão disponíveis em uma dezena de tocadores de áudio e também no Youtube. O mais legal é que a cada episódio, a revista traz em suas páginas online informações complementares como mini biografias, imagens e referencias bibliográficas. Tudo isso você encontra aqui.

E toda essa lindeza é mérito do trabalho das profissionais já citadas e também do Nicholas Rabinovitch, responsável pela edição e finalização de som, do Fred Ferreira da Trilha Sonora e execução de trilha, da Deborah Salles que fez o projeto gráficos e as ilustrações (como a daqui de cima), da produtora executiva Mariana Shiraiwa, do Gabriel Joppert que edita as newsletters e do Reinaldo José Lopes, responsável pela revisão técnica.

Que venha a próxima temporada!

2. Respondendo em Voz Alta

Aqui confesso que fui ousado, o humor de “Respondendo em Voz Alta”, não é para todo mundo, mas se você gostar, vai gostar MUITO. Completamente nonsense, com reflexões existencialistas sem profundidade nenhuma (ou não) e informações bem apuradas e corretas (ou não) o “programa de rádio” da persona Laurinha Lero é daquelas coisas que você acompanha com o sorriso largo no rosto. Tampouco é possível descrever qual o formato, ou o tempo dos episódios, levando em conta que variam significativamente de acordo com o humor da apresentadora.

Destaque para o descritivo do podcast no Spotify: “Laurinha Lero responde em voz alta, toda quinzena, as melhores perguntas dos ouvintes. Se você nunca ouviu o Respondendo, comece pelo 12 da primeira temporada ou por qualquer outro que não seja o piloto, pelo amor de deus. Arte por @mttscz, música por @bacaliau. Se você quiser aparecer no Respondendo, manda a sua pergunta lá no t.me/laurinhalero mas se for muito longa eu não vou ouvir”.

Ouça todos os episódios aqui.

3. Escafandro

Tinha preparado todo um texto para falar porque ouvir a Radio Escafandro, mas como bom jornalista, o Tomás Chiaverini, responsável pelo podcast já traz no site qual sua proposta:

A Rádio Escafandro é um podcast para mergulhos profundos. Os temas vão de política a ciência, de cultura a saúde, de urbanismo a comportamento. A abordagem é sempre jornalística, mas tem um pé na literatura e outro na filosofia. Os princípios que norteiam a produção são:

– Busca pela verdade dos fatos

– Busca por clareza na comunicação

– Busca por originalidade e pluralidade

– Busca por uma estética atraente

Com uma hora de duração e frequência quinzenal, os episódios contam com diversos entrevistados cada um e são editados num formato narrativo, que também varia de acordo com o tema retratado. No ar desde fevereiro de 2019, a Rádio Escafandro é mantida exclusivamente pelos ouvintes por meio de uma campanha de financiamento coletivo. Faz parte da rede de podcasts jornalísticos Rádio Guarda-Chuva, e do B9.

O podcast foi criado e é produzido, editado, sonorizado e apresentado pelo jornalista e escritor Tomás Chiaverini e conta com Trilha Sonora Original de Paulo Gama e Mixagem de Som do Vitor Coroa.

Particularmente o que mais gosto na “Radio Escafandro” é o tempo e o cuidado de construção das narrativas. Nada é acelerado e nenhuma colocação é posta como definitiva. Tudo é muito bem feito e respeitoso. Vale o play.

Você pode ouvir todos os episódios aqui.

4. Praia dos Ossos

“Praia dos Ossos” foi a minha porta de entrada para o mundo dos podcasts e foi com ele que percebi as infinitas possibilidades do formato e principalmente sua potência. São oito brilhantes episódios e uma mega equipe que se debruçam no feminicídio da modelo e socialite Angela Diniz.

Falando assim parece que se trata apenas de mais uma vertente dos programas “True Crime” que inundam canais de televisão e serviços de streaming, mas não, o que “Praia dos Ossos” faz é uma grande investigação e análise aprofundada (nada razo como textão de redes sociais) de como a sociedade brasileira trata as mulheres. Para sua construção foram realizadas mais de 50 entrevistas, 80 horas de material gravado, e milhares de páginas de bibliografia que são apresentadas no podcast e neste site lindão.

Cabe destacar ainda a pluralidade de formato dos episódios, que variam conforme a necessidade de cada tema apresentado mas que, graças à qualidade técnica da equipe funciona perfeitamente apresentando uma unidade surpreendente, e sempre naquele tempo certeiro: nem lento demais para dar sono, nem rápido demais pra deixar a gente desorientado.

Apresentação e idealização é da Branca Vianna, a pesquisa e coordenação de produçãoFlora Thomson-DeVeaux, que inclusive deram uma aula aberta na Casa 1 que você pode assistir aqui.

Créditos também para o roteiro de Aurélio de Aragão e Rafael Spínola, tratamento de roteiro da Flora Thomson-DeVeaux e Paula Scarpin, montagem da Laís Lifschitz, produção da Claudia Nogarotto, finalização e mixagem do João Jabace, direção criativa da Paula Scarpin, coordenação digital de Kellen Moraes, música original do Pedro Leal David, música complementar da Blue Dot Sessions e Mari Romano, pesquisa audiovisual do Antonio Venancio, locução de Ingo Ostrovsky, captação de Caio Barreto, Daniel Zema, Felipe Fantoni, Rafael Facundo, Rodrigo Pereira, Tales Manfrinato, Estúdio Rastro e Studio Natrilh, identidade visual de Elisa Pessôa, motion design da Marina Quintanilha, content design de Mateus Coutinho, redes sociais da Ana Beatriz Ribeiro e Isabela Moreira, web design e desenvolvimento da agência Café, campanha de mídia da Luciele Almeida, checagem do Érico Melo, transcrição de Júlio Delmanto, Ana Martini, Carol Caldas Ramos, Raphael Concli, Isabel Scorza, Pedro Gutman e Carol Unzelte e revisão de texto da Ana Martini e Maria Emilia Bender.

Ouça todo os episódios aqui.

5. Passagem Só de Ida

Passagem só de ida

E como não poderia deixar de ser, a minha última recomendação é o delicioso Passagem Só de Ida, um podcast da Casa 1 que traz as histórias de pessoas LGBTQIAP+ que em algum momento migrou para a cidade de São Paulo. A primeira temporada com 10 episódios apresenta figuras maravilhosas como Gegê ou Madonna Duarte de Beverlly Hills, Gretta Sttar e Symmy Larrat.

Uma criação de Bruno O., Marcos Tolentino e Yuri Fraccaroli, com produção de Marcos Tolentino, montagem, edição e pesquisa sonora de JJ jj jj, vinheta e trilha original de Nolo, entrevistas, roteiros dos episódios, pesquisa e captação: Ariana Mara da Silva, Florence Belladonna Travesti, Mariana Penteado, Marcos Tolentino, Maria Paula Botero, Maurício Santos e Yuri Fraccaroli, assessoria jurídica de Lucila Lang, assessoria de imprensa de Brenda Amaral, apoio da Rede de Mulheres Imigrantes Lésbicas e Bissexuais e realização da Casa 1 e Acervo Bajubá, o passagem só de ida é uma verdadeira viagem pelas histórias e vivências LGBT+.

Ouça os episódios completos aqui.

Imagem de capa: Young Gifted and Black, banco de imagens feito por mulheres negras de ponta a ponta.

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Por Iran Giusti

Iran Giusti é formado em Relações Públicas pela FAAP, atuou como gestor de redes sociais e gerente de projetos em agências de RP e Social Mídia e como jornalista foi repórter do canal de conteúdo LGBT do Portal iG e do BuzzFeed Brasil. Atualmente se dedica a gestão da Casa 1, um centro de acolhida e cultura LGBT e produção de conteúdos em que acredita.

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