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O cinema transgressor de Pedro Almodóvar

Por Amanda Pickler, voluntária da Biblioteca Caio Fernando Abreu

No último mês de maio, durante o Festival de Cannes, ocorreu a estreia do novo curta-metragem de Pedro Almodóvar, “Strange way of life”. O filme causou alvoroço entre os espectadores, provando mais uma vez a capacidade do diretor espanhol de dominar os mais variados gêneros cinematográficos. O curta em questão é um faroeste, que traz como núcleo central o relacionamento amoroso de longa data entre o Xerife Jake, interpretado por Ethan Hawke, e Silva (Pedro Pascal).

Inicialmente, parece improvável a ideia da estética kitsch do cinema almodovariano, repleta de cores vibrantes, entrar em consonância com um gênero normalmente voltado para um público heterossexual e conhecido por ter uma fotografia e direção de arte mais sóbria, com paleta de cores em tons pasteis. E é aí que nasce a genialidade do cineasta. Almodóvar é mestre em apropriar-se de gêneros tipicamente heteronormativos e com fundamentos patriarcais, como o melodrama e, no caso acima, o faroeste, e inverter seus valores para que sirvam a favor de sua narrativa transgressora.

Um exemplo brilhante desta técnica de meta-melodrama pode ser visto no filme “Tudo sobre minha mãe” (1999). A premissa é simples: Manoela, uma mãe solo, após perder seu filho para um acidente de carro, retorna à Barcelona em busca do pai do menino. Um enredo digno da próxima novela das nove. No entanto, Almodóvar usa os possíveis clichês da trama como uma oportunidade para reinventar e quebrar a lógica esperada. Manuela, por exemplo, poderia ser apenas uma mulher frágil à espera de seu príncipe encantado para salvá-la, porém não é o caso. De fato, ela carrega dentro de si a dor do luto, ainda assim, é também o suporte emocional de todas as personagens ao seu redor. Já o pai do garoto é na realidade Lola, uma travesti que está morrendo de AIDS.

São personagens potentes e extremamente humanizados, que renegam qualquer rótulo de vítima, mas que estão em constante batalha para conquistar seu espaço na sociedade. Isto não quer dizer, entretanto, que Almodóvar minimize em seus filmes a opressão que as mulheres, cis ou trans, e travestis sofrem. Muito pelo contrário, ele não tem medo de evidenciar a violência, inclusive física, presente em suas vidas, mas sempre as retrata como um evento corriqueiro. Não hiper dramatiza estes momentos, uma vez que fazem parte do dia a dia de tais personagens, inferiorizadas perante uma sociedade patriarcal e conservadora — o que, convenhamos, torna tudo muito mais trágico.

Outros de seus longas-metragens do mesmo gênero que valem a pena ser conferidos, e que também estão presentes no acervo da Biblioteca Caio Fernando Abreu da Casa 1, são: “A lei do desejo” (1987), “Flor do meu desejo” (1995), “Fale com Ela” (2003), “Má educação” (2004) e “Volver” (2006).

No que tange ao gênero da comédia, Almodóvar também não faz por menos. Se o clássico “Mulheres à beira de um ataque de nervos” (1988), seu primeiro sucesso internacional, tivesse sido realizado por um diretor de veias puristas, provavelmente teria sido apenas mais um filme sobre mulheres que vivem em função de, e à espera de, homens. Afinal, o longa retrata um grupo de mulheres que competem pela atenção de Ivan, um personagem com tendências de Don Juan, o qual passa a narrativa inteira fugindo de suas ex-amantes. No entanto, o diretor espanhol constrói tudo de uma maneira tão propositalmente absurda e exagerada que acaba se tornando uma crítica à própria temática machista a que se propõe.

Para quem busca outras comédias de Almodóvar, “Kika” (1993) e “Os amantes passageiros” (2013) também podem ser encontrados em nosso acervo.

Até mesmo no suspense o cineasta já se aventurou — e, aliás, com muita maestria. Em “A pele que habito” (2011), a trama gira em torno de um cirurgião plástico excêntrico e a misteriosa mulher que ele mantém encarcerada em sua mansão. Este filme traz talvez o maior plot twist entre todas as produções do diretor e, como esperado, foge de qualquer convenção do gênero. É frequente no cinema de suspense que as personagens tenham sua moral muito bem definida, de maneira maniqueísta, deixando claro ao espectador quem é o mocinho e quem é o vilão. Já aqui, Almodóvar brinca constantemente com a integridade de suas personagens. Opressor ora é vítima, vítima ora é opressor, ao ponto de o espectador não ter mais certeza de qual lado sua torcida deve ficar.

Esses e muitos outros títulos fazem parte do acervo da Biblioteca da Casa 1. Venha conhecer nosso espaço, localizado na Rua Condessa de São Joaquim, 277, Bela Vista – SP. Nosso horário de funcionamento é de segunda a sábado, das 10h às 19h.

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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