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Filme “Valentina” contrasta diferentes realidades de pessoas LGBTQ+

Reconhecimento e respeito. A solução para alguns dos problemas enfrentados por pessoas trans é tão simples que, à primeira vista, parece impossível que essa seja a resposta. O que em uma fábula seria a conclusão moralizante, no mundo real é apenas absurdo.

“Valentina”, primeiro longa de Cássio Pereira dos Santos, conta mais uma dessas histórias complicadas pela ignorância. A protagonista, uma menina trans de 17 anos, quer seu nome social respeitado para seguir com seus estudos em uma nova escola. Ela é uma adolescente comum, mas precisa enfrentar muita burocracia e preconceito pelo direito de ouvir o próprio nome.

Rodado no interior de Minas Gerais, o longa faz da simplicidade um recurso narrativo. Sem grandes discursos, a história de Valentina é contada por interações cotidianas e diálogos contidos. Há espaço para momentos de silêncio, preenchidos com sensibilidade por Valentina (Thiessa Woinbackk) e sua mãe, Márcia (Guta Stresser).

De um lado, a adolescente enfrenta o constrangimento de se esconder enquanto precisa reafirmar quem é. É uma dinâmica dolorosa que a fotografia de Leonardo Feliciano traduz pela alternância de planos médios, que captam a distância sentida por Valentina, e fechados, que ressaltam o impacto desse isolamento. Sua luta é sempre solitária, ainda que tenha o apoio da mãe e facilidade para fazer novos amigos.

Premiada em festivais, a atuação de Woinbackk traduz em um simples olhar o peso da sua vivência como mulher trans.

Já Márcia, além de atender ao arquétipo da mãe que moveria montanhas, tem a empatia essencial, porém nem sempre presente entre os pais de adolescentes LGBTQIA+. Não é que ela tenha todas as respostas, pelo contrário, mas é a primeira a oferecer à filha aquela solução tão simples: reconhecimento e respeito.

Os cenários do interior mineiro, com estradas de chão e construções que carregam a passagem do tempo no desgaste das paredes, contribuem para o sentimento contínuo de desolação que acompanha Valentina e os outros jovens que encontra pelo caminho. Júlio (Ronaldo Bonafro), por exemplo, é o menino gay que apesar de sexualmente ativo nunca encontrou afeto dos parceiros.

Amanda (Letícia Franco) é a jovem cujo futuro promissor foi interrompido por uma gravidez inesperada. “Já pensou o que vai fazer na faculdade?”, pergunta Valentina impressionada com as habilidades da nova amiga como programadora. Ao que a menina responde resignada: “Não sei nem se vou acabar o ensino médio”.

Essas relações abrem o debate sobre o direito à educação de pessoas LGBT+ e representar a realidade de jovens além dos grandes centros urbanos. É um propósito por vezes didático, mas elaborado com tanto afeto que seu próprio otimismo se torna outro ponto de discussão.

O filme quer ser uma fonte de esperança para quem costuma ver o desfecho de histórias assim como tragédias nos jornais –a expectativa média da população transexual é de 35 anos no país, aponta o longa antes do rolar dos créditos.

Nesse contraste com a realidade, “Valentina” acaba sendo um pouco conto de fadas. Não existe a promessa de felicidade eterna, mas sua protagonista ganha uma perspectiva que ainda é exceção para homens e mulheres trans no Brasil: a chance de viver como qualquer outra pessoa.

VALENTINA

Quando: estreia nesta quinta (19)

Onde: Nos cinemas

Classificação: 14 anos

Elenco: Thiessa Woinbackk, Guta Stresser, Ronaldo Bonafro

Produção: Brasil, 2020

Direção: Cássio Pereira dos Santos

Avaliação: Bom

SÃO PAULO, SP

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