Escrevivência foi um termo cunhado por Conceição Evaristo e se refere à escrita literária como ferramenta política, a palavra foi emprestada para nomear o livro produzido coletivamente durante uma oficina da Casa1, realizada durante a IV Semana da Visibilidade Trans.  “Escrevivências – CUSturas Poéticas” faz parte da Coleção “Traviarcado”, organizada pela transpóloga Renata Carvalho e foi lançada pela Editora Monstra, um projeto editorial da Casa1 que tem como propósito documentar e fazer circular produções de pessoas LGBTQIA+. 

Com textos de Afro Queer, Bruna Pires, Cae Beck, C. Hanada, Caê Ferraroni, Lira Queiroz, Márcie Vieira, Renata Bastos e Zara Dobura, o livro também teve sua produção gráfica executada de maneira coletiva, em parceria com Laura Daviña do Parquinho Gráfico. Sua tiragem física foi destinada apenas para participantes da oficina e agora a obra está disponível ao público na versão online e em áudio e pode ser acessada aqui

O escritor, dramaturgo, professor e co-fundador do Coletivo de Artistas Transmasculines Daniel Veiga, foi o orientador da oficina realizada à distância: “Há formas de amenizar o impacto da virtualidade: pedir que todes trabalhem com as câmeras ligadas, dar mais espaço para as trocas, onde todes contribuam com suas falas deixando a coisa mais dinâmica, enfim.” 

Para ele a parte mais desafiadora da oficina foi mergulhar na intimidade das pessoas durante três dias e instigá-las a abrirem e compartilharem suas vivências: “Escrever é um ato demasiado prazeroso, mas também doloroso, muito íntimo e orientar um grupo a abrir suas pessoalidades é delicado, exige confiança. Quando eu começo uma turma nova ou vou dar uma oficina para um grupo pela primeira vez, nunca sei quais feridas posso encontrar entre os participantes. Daí a importância da escuta aberta, da delicadeza, da generosidade, mas também de me colocar quanto orientador de escrita. Mostrar a importância de se encarar a escrita como ofício e escrever pra valer. Para além disso, quando estamos entre nós, entre pessoas trans, a gente sabe que o buraco é muito mais embaixo. Os temas que surgem trazem questões como rejeição, violência, solidão. Por isso é tão importante que cada vez mais pessoas trans estejam à frente deste tipo de projeto. Só um de nós – com nossas particularidades e universo próprio – consegue entender a dimensão do problema e também a dimensão das vitórias”. 

A coleção “Traviarcado” traz questões importantes sobre as possibilidades da travestilidade e da transexualidade, contribuindo para o debate de forma didática, acessível e nítida. Também somando na disseminação e na produção intelectual de pessoas trans e travestis, construindo acervo documental e de memória. A ideia da coleção é naturalizar todas essas vivências e suas experiências. O livro “Escrevivências – CUSturas Poéticas” e obras similares ajudam na construção documental e da memória, mas esse arquivo não é importante somente para pessoas trans e travestis: “A maioria das pessoas cis conhecem pessoas trans através de outras pessoas cis. A cisgeneridade, sobretudo branca, é quem domina nossas narrativas. E esse CIStema sempre vende – vende mesmo, para lucrar – a nossa imagem de maneira patologizante, altamente marginalizada, exotificada e estereotipada, sempre para gerar piedade, curiosidade, asco ou riso. Esse controle falacioso das narrativas trans pela cisgeneridade permite a manutenção das muitas formas de violência que sofremos e, com isso, ninguém sai ganhando de verdade. Talvez alguns artistas cis tenham uns lucros medianos ou ganhem algum prêmio sequestrando nossas histórias, mas nada se ganha de verdade enquanto sociedade, absolutamente nada melhora. Por isso reforço a importância cabal de termos mais pessoas trans controlando as narrativas nas diversas linguagens artísticas, através da dramaturgia para o audiovisual ou para o teatro, através da literatura, através da música, enfim, através da palavra. É usar a língua patriarcal e colonizadora a nosso favor para mostrar quem somos de verdade. Obras como o livro ‘Escrevivências – CUSturas Poéticas’, que nasceu desta oficina, são mais um tijolo fixado na estrutura deste novo tempo, é mais uma peça imprescindível nesta engrenagem que levará as pessoas trans a dominarem suas narrativas. E nós sabemos valorizar cada vitória, porque só nós sabemos a grandiosidade de cada uma delas” complementa Daniel.

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Por Thais Eloy

Taubateana e Jornalista.

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