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Sexo entre vulvas e a desafiadora conversa sobre métodos de proteção

A falta de informação, despreparo médico e resistência da indústria são obstáculos para o sexo seguro entre vulvas.

Por Larissa Darc para Nós Mulheres da Periferia

Sexo oral é sexo. Preliminar é cortar as unhas antes do encontro”. Se para casais cisheteronormativos essa frase não faz muito sentido, para quem pratica a milenar arte de “colar o velcro” esse pode ser um conselho indispensável.

Quando falamos de relações que envolvem pênis, existe uma infinidade de opções de preservativos que garantem a proteção contra infecções sexualmente transmissíveis. É possível encontrar látex sabor morango, cereja ou até mesmo caipirinha, além de materiais que brilham no escuro transformando o órgão genital em um reluzente sabre de luz.

Por outro lado, quando o assunto é cuidado com a vulva, as opções cientificamente atestadas são escassas. Desconfortáveis e difíceis de entrar, os preservativos para vulva não foram feitos para relações que não envolvem a presença do falo.

No Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia é importante lembrar que direitos sexuais e reprodutivos fazem parte do conjunto de direitos humanos. Isso significa que todas as pessoas têm o direito universal e intransferível de sentir prazer sem medo.

Muito antes da tesourinha

O problema enfrentado por lésbicas, bissexuais e pessoas transmasculinas começa ainda nas primeiras aulas de educação sexual, que focam na contracepção e abordam, em grande parte, apenas o sexo cis e heterossexual.

Um estudo publicado em 2018 no Journal of Adolescent Health, em colaboração com a ONG Centre for Innovative Public Health Research, apontou que adolescentes de 14 a 18 anos não sabiam que poderiam contrair infecções sexualmente transmissíveis no sexo lésbico.

Conforme iniciam a vida sexual, pessoas LGBT+ encontram mais uma barreira: o despreparo médico. Os cursos da área da saúde ainda abordam a questão da sexualidade a partir de uma perspectiva cisheteronormativa, deixando de oferecer aos profissionais uma formação adequada para lidar com a pluralidade de vivências que encontrarão nos consultórios.

Na pesquisa “Comportamento de risco para doenças sexualmente transmissíveis/ HIV entre mulheres que fazem sexo com mulheres” 38,6% da entrevistadas reportaram ter entrado em contato com alguma IST (infecção sexual transmissível) previamente. Mesmo assim, apenas 2,1% utilizavam algum método de prevenção de doenças. Entre o grupo das que utilizavam brinquedos sexuais compartilhados, 54,5% aderiram à camisinha.

Segundo as entrevistas realizadas pelos pesquisadores, a falta de informação é o maior impedimento para o diagnóstico e tratamento dessas condições.

Até a melhor das DJs pode arranhar o disco

Deu vontade de transar. E agora? Existem pessoas que indicam a adaptação de materiais inadequados para a relação entre vulvas na hora de ir para a cama. Se conceitualmente pode fazer sentido recortar um preservativo ou estender uma folha odontológica entre os lábios, na prática essas proposições não são utilizadas.

É irreal pedir que determinados grupos andem com tesouras, materiais de dentista e luvas cirúrgicas na bolsa enquanto o resto da população carrega discretas camisinhas no bolso da calça. Para além da função reprodutiva, o sexo também envolve prazer, desejo, demonstração afetiva e estímulos visuais e sensoriais.

Uma vez que não existem métodos de prevenção para relações entre vulvas é preciso tomar alguns cuidados para deixar os momentos prazerosos mais seguros.

Dicas para sexo seguro

Diálogo é essencial: um dos primeiros passos é estabelecer uma comunicação aberta e honesta com as pessoas com quem você se relaciona. Converse sobre histórico sexual, preferências e preocupações com relação à saúde sexual;

Corte as unhas e cuide da higiene pessoal: unhas compridas podem causar arranhões e cortes na pele durante a estimulação genital. Esses ferimentos podem aumentar o risco de ISTs, como a transmissão de bactérias ou vírus, incluindo ISTs. Além disso, bactérias e impurezas podem estar alocadas na região. Manter o cuidado com a higiene íntima e do resto do corpo é essencial para o seu bem-estar e para a saúde das pessoas com quem você se relaciona;

Imunização: a vacinação é uma maneira eficaz de prevenir algumas infecções. A vacina contra o HPV (papilomavírus humano), por exemplo, é recomendada para todas as pessoas, independentemente da orientação sexual. Ela protege contra o desenvolvimento de câncer cervical e outras doenças causadas pelo HPV;

Preste atenção nos sinais: conhecer o próprio corpo para identificar alterações é a parte mais importante. Mudanças na lubrificação, cheiros diferentes, coceiras ou lesões são um sinal de alerta. 

Exames de saúde: visite regularmente unidades de saúde e realize exames ginecológicos, como o teste de Papanicolau, que detecta alterações nas células cervicais que podem indicar o risco de câncer. Também solicite testes específicos para ISTs;

O rebuceteio não pode parar

Para sanar a ausência de dispositivos adequados para a proteção das vulvas, ativistas e pesquisadores têm investido em pesquisas e no apelo para a indústria de produtos íntimos.

Uma pesquisa realizada em 2022 mapeou os impactos da falta de preservativos específicos para mulheres que amam mulheres e outras pessoas com vulva. O resultado aponta que quase 73% desse grupo faria uso de uma barreira protetora que seja verdadeiramente eficaz para a o sexo seguro.

“Após elaboração de dossiê sobre as principais necessidades das mulheres lésbicas e bissexuais com a solicitação de um preservativo para a vulva. Submeti para apreciação via SAC destas indústrias e estou aguardando até hoje”, explica Cristina Stevanin, pesquisadora e interlocutora no desenvolvimento de produtos para mulheres lésbicas e bissexuais e proteção de IST.

Apesar dos esforços, Stevanin observou resistência e preconceito por parte das empresas. “O que eu mais ouvia destas indústrias, além de perguntas invasivas e pura misoginia, eram que não havia público para o desenvolvimento ou importação de um preservativo para a vulva”.

A articuladora ainda procurou negociação com a esfera pública utilizando o canal da ouvidoria do SUS em Brasília, que justificou a falta de políticas públicas pela suposta ausência de dados sobre o assunto, apesar das pesquisas e publicações realizadas ao longo dos últimos anos.

Foto de capa: Reprodução/ Nós mulheres da Periferia

Acesse o site Nós Mulheres da Periferia.

**Este texto fala sobre educação sexual, uma das frentes de trabalho da Casa 1. Conheça o Precisamos falar sobre sexo, projeto desenvolvido pela instituição**

Nós Mulheres da Periferia é um coletivo jornalístico independente, transparente e apartidário formado por jornalistas moradoras de diferentes regiões periféricas da cidade de São Paulo. Atuantes em diferentes plataformas de comunicação, sua principal diretriz é disseminar conteúdos autorais produzidos por mulheres e a partir da perspectiva de mulheres, tendo como fio condutor editorial a intersecção de gênero, raça, classe e território. O conteúdo do Nós Mulheres da Periferia é livre de direitos autorais e reproduzido aqui no site da Casa 1 com os devidos créditos.

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