Conhecido como “Padre Rebelde”, ele foi notícia por marretar, literalmente, a arquitetura hostil de São Paulo. Sua iniciativa fez com que outros grupos se organizassem para derrubar instalações antipessoas em situação de rua em outras cidades. Confira outros momentos exemplares de Padre Júlio.

Por Thais Eloy, produtora de conteúdo freelancer da Casa 1

Coordenador da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo e pároco da Igreja São Miguel Arcanjo na Mooca, bairro da zona leste da cidade, Padre Júlio é referência nacional na luta pelos direitos humanos. Atuou durante toda sua vida ao lado de refugiados, da população LGBTQIA+, dos portadores de HIV e da população carcerária. Recentemente, ganhou destaque midiático pelo seu trabalho com as pessoas em situação de rua na capital paulista.

Padre Júlio segue a Teologia da Libertação. Libertador em sua essência, o movimento defende que, para viver o Evangelho de Cristo, é preciso estar ao lado dos oprimidos e lutar em conjunto pelos seus direitos. Envolvendo várias correntes de pensamento, seus seguidores interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo buscando combater as injustiças sociais impostas a grupos oprimidos. A doutrina entrou oficialmente para a história com um livro chamado “Teologia da Libertação”, escrito por Gustavo Gutiérrez, um padre peruano. Muito popular na América Latina, o movimento teve alguns de seus principais formuladores condenados pela Congregação para a Doutrina da Fé em meados dos anos 80, acusados de incentivar a luta de classes. O próprio Vaticano não abraçou formalmente a corrente até a nomeação do Papa Francisco. Outro praticante brasileiro da Teologia da Libertação é Frei Betto. Preso duas vezes durante a ditadura militar, ele foi coordenador de Mobilização Social no governo Lula, ajudando na estruturação do programa “Fome Zero”.

Contudo, lutar ao lado das pessoas em vulnerabilidade social cobra um preço alto. Padre Júlio foi alvo de ameaças muitas vezes. A mais recente foi em setembro de 2020, quando precisou registrar um boletim de ocorrência após virar alvo de ofensas de um candidato à prefeitura de São Paulo, Arthur do Val (Patriota). Conhecido pelo apelido “Mamãe Falei”, o candidato publicou em suas redes sociais vídeos nos quais chamava Lancellotti de “cafetão da miséria”. Os vídeos foram retirados do ar por determinação da Justiça Eleitoral.

Em um período no qual a ausência do Estado está cada vez mais sendo preenchida por voluntários da sociedade, a postura combativa de Padre Júlio é um respiro para um país que se acostumou a ver líderes políticos e espirituais usando o nome de Deus para justificar preconceitos e perseguir vítimas de injustiças históricas.

A seguir listamos 18 momentos em que Padre Júlio “fez tudo sozinho”:

  1. Falou sobre o dever combativo do cristianismo.

2. Se mobilizou para cadastrar pessoas em vulnerabilidade extrema no programa de auxílio emergencial do governo federal.

3.Comemorou a eleição da vereadora Erika Hilton.

4.Recebeu uma ligação do Papa Francisco, parabenizando-o pelo seu trabalho com os mais vulneráveis.

5.Beijou os pés da transexual Sheila que acompanhava a Via Sacra do Povo da Rua.

6. Brigou com os vizinhos do bairro que queriam retirar o Centro de Acolhimento Temporário (CAT) da Mooca.

7. Contestou os dados oficiais da prefeitura e falou sobre as mortes por frio das pessoas em situação de rua.

8. Diretor da Casa Vida, ele mantém sob sua tutela crianças órfãs e portadoras do vírus HIV.

9. Marretou as pedras instaladas para “expulsar” moradores de rua na zona leste da cidade e cobrou políticas públicas para essa parcela da sociedade. De acordo com o Censo da População em Situação de Rua de 2019, São Paulo tem aproximadamente 25 mil pessoas vivendo nessas condições.

10. Realizou o lava-pés ou “Mandamento da Humildade”, rito popular do cristianismo que simboliza a comunhão entre Jesus e seus apóstolos durante a última ceia, lavando os pés de moradores de rua.

11. Mencionou a importância do movimento antifascista em uma missa transmitida remotamente.

12.Venceu um processo contra Jair Bolsonaro.

13. Fez parte da campanha de vacinação de moradores em situação de rua.

14. Defendeu a ação dos black blocs.

15. Em uma cerimônia lavou os pés da transexual Viviany Beleboni, modelo que atravessou a paulista “crucificada” na 19ª Parada LGBT+ para simbolizar as violências contra mulheres trans.

16. Visitou os estudantes secundaristas na ocupação da Assembleia Legislativa de São Paulo.

17. Ofereceu a sede da “Casa de Oração do Povo da Rua” para acolher moradores de rua com suspeita de coronavírus. 

18. Distribuiu e continua distribuindo alimentos para pessoas em vulnerabilidade social durante a pandemia.

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Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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