Iniciativa do Museu do Futebol resgata memórias do esporte não hegemônico

Por Bruno Nomura

Mais de 80 times de futebol formados por pessoas LGBTI+ estão hoje em atividade no país. Essa é a conclusão do projeto “Diversidade em Campo: Futebol LGBTQIAP+”, realizado pelo Museu do Futebol, de São Paulo. Há dois anos, a iniciativa mapeia equipes, pessoas e lugares ao redor do Brasil relacionados a essa população. O objetivo é contar histórias que existem para além do futebol hegemônico, revelando a pluralidade no esporte.

Em junho, o Museu lançou uma exposição virtual criada a partir das informações reunidas pelo projeto. De acordo com o mapeamento, a primeira equipe de futebol LGBTI+ do país, o Real Centro, surgiu em 1990 na capital paulista. Inicialmente, no entanto, os amigos que formavam o grupo não se identificavam abertamente como gays, já que tinham receio de serem discriminados pelos adversários.

Três décadas depois, o avanço dos direitos da população LGBTI+ mudou o cenário no esporte. Hoje, as equipes estão espalhadas pelas cinco regiões do país, tendo sido mapeadas em 19 estados diferentes. Entre os marcos mais recentes está a criação, em 2016, do Meninos Bons de Bola, que é considerado o primeiro time formado por homens trans, também na cidade de São Paulo. A diversidade de equipes levou até à criação de uma liga nacional, a LiGay, que promoveu seu primeiro campeonato em 2017.

Após se envolver em uma série de eventos relacionados ao futebol praticado por pessoas LGBTI+, a equipe do Museu percebeu a necessidade e o potencial de reforçar o acervo disponível sobre o assunto. “Buscamos ampliar o espectro de referências relacionadas a esse futebol não hegemônico que é de interesse do Museu, que tem um compromisso na promoção da diversidade, no combate à LGBTfobia”, explica Fiorela Bugatti Isolan, coordenadora do Centro de ​Referência do Futebol Brasileiro, braço de pesquisa e documentação do Museu do Futebol.

Equipe do Madalenas FC durante jogo. Foto: Museu do Futebol/Divulgação

Para aprofundar o mapeamento, o projeto entrevistou representantes de 21 equipes, entre atletas, dirigentes e outros agentes relacionados. Apesar de estarem engajados com o esporte, nem todos gostavam dele quando eram mais novos. “Muitas pessoas diziam que nem pensavam em jogar futebol porque ‘não é para pessoas como eu’. Mas a partir do momento que conheceram pessoas LGBTQIAP+ que praticam, descobriram que existem campeonatos, entenderam que podem fazer parte”, relembra Dóris Régis, técnica em documentação do Museu e uma das pesquisadoras do projeto.

Diferentemente do futebol profissional, em que as rivalidades são exacerbadas, a pesquisa evidenciou um ambiente de integração e cooperação entre os times LGBTI+ que cria um senso de comunidade. “Vejo o carinho que existe, não só entre eles, mas com as outras equipes também. Os times são muito próximos”, diz Dóris.

Ao proporcionar a criação de vínculos afetivos e ser um espaço seguro para falarem sobre si mesmos, o esporte se torna um espaço de pertencimento. “É um lugar de conforto, de acolhida, que se cria por meio do futebol”, analisa Fiorela.

“Muito mais do que só jogar bola, é um meio de mostrar sua importância, de entender sua existência. Apesar de tudo o que acontece diariamente no esporte, eles lutam para que no futuro colham essa inclusão no esporte”, conclui Dóris.

Acesse o site da Diadorim.

Foto de capa: BigTBoys, primeira equipe formada por homens trans no Rio de Janeiro. Foto: Acervo Museu do Futebol/Divulgação

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