Desde criança Gabriela queria ser artista. 

Na infância ela sempre se identificou com o lúdico, com a arte de inventar personagens. Dona de uma imaginação muito fértil, que ela cultiva até hoje, “porque a imaginação é o ouro que a gente tem, mas acaba se afastando conforme vamos crescendo e vendo como o mundo é” ela cresceu vendo artistas mirins tomarem conta da televisão em casa. 

“Eu via as crianças indo no Raul Gil e achava incrível. Eu também queria poder mostrar meus talentos, meus dons, mas, a gente tinha uma condição muito difícil. Pedia para a minha mãe me botar no teatro, aula de música, só que não podia porque a gente não tinha verba”, conta a atriz por chamada de vídeo em entrevista para a Casa 1. 

“Fui crescendo com esse incômodo e na escola e na igreja participava do teatro, mas o que eu queria era realmente viver aquele ofício”.

Quando ela tinha 18 anos, entrou em um curso de Segurança do Trabalho para se preparar para a faculdade de Engenharia Ambiental. Porém, o seu curso dos sonhos estava na CAL – Casa das Artes das Laranjeiras, centro de treinamento de mão de obra artística para diversos setores das artes cênicas no Rio de Janeiro. 

“As aulas eram muito caras e eu não tinha condição de pagar com os 1300 reais que recebia na farmácia. Me formei em Segurança do Trabalho e na época que começaria Engenharia Ambiental, abriu o vestibular da CAL que, querendo ou não, é uma faculdade elitista, bem cara”, conta. 

“Fiz o FIES (programa de financiamento estudantil) e consegui bolsa de 100%, pagava 50 reais que era só a taxa do programa e consegui fazer a faculdade inteira. Minha tia me ajudou e eu deixei meu emprego e tudo para trás. Meus pais juntaram o pouquinho do dinheiro que eles tinham para que eu pudesse alugar um quarto na casa de uma família no Rio de Janeiro”. 

Assim, a atriz saiu de São Gonçalo, subúrbio do Rio de Janeiro, e se mudou para a capital para concluir seus estudos em artes cênicas.

Experiência nas telas 

Em 2018, Gabriela  entrou no ar na televisão pela primeira vez para fazer a coreógrafa Priscila em “Malhação Vidas Brasileiras”. Ela foi a primeira atriz trans na série. 

“Eu já tinha feito cinema, em uma participação como elenco de apoio, mas TV é completamente diferente do teatro e do cinema. No teatro, se a peça durar dois anos, você vive intensamente dois anos daquele personagem no palco. No cinema você vive isso e na TV também, mas são muitos fatores externos. Por exemplo, se vazar som [durante a gravação], tenho que refazer a cena. Você vai se desenvolvendo para saber trabalhar neste meio para não se desconectar do personagem”. 

“A Malhação foi incrível porque foi minha primeira oportunidade, que nem foi uma grande oportunidade porque foi só uma participação, mas fui a primeira atriz trans a viver uma personagem trans então foi grandioso”. 

A participação abriu muitas portas para a atriz, que antes era convidada para diversos projetos, mas não recebia cachê. Depois da telenovela, ela conseguiu alcançar trabalhos remunerados, um divisor de águas na sua vida. 

Depois de quatro anos, a mesma diretora de Malhação, Natália Grimberg, a convidou para participar de “Cara e Coragem”, a próxima novela das 7 da emissora, como Luana. 

“Desde que fiz Malhação eu trabalhei muito, não parei de trabalhar como atriz, só que fiz muitos trabalhos que ainda não saíram. Fiz “Perdidos” no Canal Brasil, “Anjo Loiro com Sangue no Cabelo”, fui protagonista de um filme internacional que ainda não saiu.. Só que na televisão já faz um tempo desde meu último trabalho”.

Para ela, a projeção que o trabalho na grade diária dá  é muito boa porque transfere o trabalho do artista para fora da tela. Quando fez Malhação ela recebeu muitos comentários de ódio em suas páginas nas redes sociais. Por outro lado, ela também percebeu que seu trabalho chegou em pessoas que genuinamente querem saber mais sobre a causa trans. 

“Eu recebi mensagens de mães falando que, através do meu conteúdo, conseguiram respeitar e entender mais as filhas, por isso é importante que não haja transfake. Eu espero que a gente chegue em uma era em que todo mundo possa interpretar tudo, mas hoje em dia não tem como porque o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e muito desse ódio vem da falta de informação”. 

“O transfake é quando um ator cis interpreta uma pessoa trans e aí, aquela senhorinha que está vendo a novela ou filme, que se sente interessada pela história daquela personagem, ela pesquisa (o ator ou atriz) e encontra uma pessoa que não é trans o debate acaba ali. Quando eu estava vivendo aquela personagem, quando as pessoas iam me pesquisar na internet e viam todo o trabalho que eu tinha na internet, era muito maravilhoso”. 

“Atores e atrizes trans vem galgando bons espaços e as pessoas, diretores querem ajudar, só que é muito difícil você ajudar sem dominar o assunto. Não é só contratar uma pessoa trans para ser atriz de novela. É importante ter uma roteirista trans, ela já vai saber desenvolver uma personagem trans e muitas vezes sem precisar passar pela dor, porque nós não somos só dor também. Eu quero fazer uma personagem que herde muito dinheiro de um pai que ela não sabia que tinha. Eu quero também viver uma personagem que esteja vivendo um relacionamento abusivo. É preciso nos dar mais protagonismo também”. 

“Eu consigo me imaginar ganhando um Oscar, sendo indicada ao Emmy, mas eu não vou ser indicada ao Oscar porque eu ainda não tenho uma personagem para mim. Não foi criada essa personagem ainda”. Em 2016, o ator Eddie Redmayne, protagonista do filme “A Garota Dinamarquesa”, foi indicado ao Oscar. Em entrevista recente, ele disse que hoje não aceitaria o papel.

“Sinto que a gente [mulheres trans], ainda tá muito limitada na dramaturgia. Eu tenho uma carga dramaturgica enorme, mas eu não posso mostrar porque meus personagens não permitem isso. As personagens são sempre a amiga de fulana, madrinha, secretária e eu quero mais. Eu não, nós queremos mais”, desabafa.

“Não quero ficar refém”

Apesar de ser dona de um perfil com bom alcance – no Instagram ela conta com mais de 330 mil seguidores, sua relação com as redes sociais é ambivalente. Gabriela entende a importância de seus números nas redes sociais, mas ao mesmo tempo não se deixa deslumbrar e entende que é um ambiente no qual é preciso ter cuidado. 

“O algoritmo quer transformar a gente. Não entende que a gente é humano, entende que a gente é máquina e demanda muita postagem senão para de entregar o conteúdo. Eu comecei a levar de uma forma que era mais saudável para mim. Não quero ficar refém de algoritmos. Já entendi o que entrega, mas não quero falar sobre dor o tempo inteiro”. 

Em um país em que o cenário tido como “comum” para pessoas trans é a expulsão de casa, Gabriela rompe esse padrão e exibe no perfil todo o carinho que recebe da sua família. 

“É importante para mostrar que existe esperança. A maior parte das pessoas que me seguem são pessoas cis. Talvez quando eu mostro minha família, isso vire a chave em alguém que comece a respeitar mais a filha. Poucas pessoas são humanizadas”.

@gabrielaloran

O deboche é livre e cheio de amor ✨💕🍀 #trans travesti

♬ som original – Gabriela Loran

“Eu tenho 300 mil seguidores, que eu amo, mas porque será que eu não tenho um milhão como pessoas cis que viralizam e não tem conteúdo nenhum. O retrato disso é o preconceito e a resposta é a violência. Estar na internet é importante e é importante mostrar que eu tenho uma família que me respeita e me vê como ser humano”.

“Quando falamos de pessoas trans os direitos caminham devagar. Teve recentemente a adaptação da Lei Maria da Penha e as pessoas estão comentando com raiva esse direito. Esse direito que veio porque a menina foi ameaçada pelo pai e lutou pelo direito à vida. Estamos lutando pelo direito à vida que muitas vezes é negado”. 

Agora, Gabriela está cursando sua segunda graduação: psicologia. 

“O que me construiu enquanto mulher nesse processo de transição foi o apoio da minha família nisso tudo e, acompanhando minhas amigas e outras mulheres trans na internet, [percebi que] quando elas foram buscar ajuda na psicologia elas saiam mais assustadas do que entraram”.

“Nesse período de pandemia quem cuida da saúde mental de pessoas trans porque eu não quero entrar em um consultório de um psicólogo e querer ser convertida, isso é contra a lei e contra o conselho de psicologia, mas tem gente que vende este discurso. Esse desejo veio daí, quero ter meu consultório, quero me formar, quero trabalhar com pessoas trans e suas famílias. Quero que as pessoas tenham o que eu tive. O preconceito e a ignorância às vezes é maior que o amor. Quero que isso venha para fora através da minha vivência”.

Ela garante que essa mudança de área não é permanente. 

“Quero continuar trabalhando como atriz, mas esse caminho é muito incerto. Às vezes você tá ganhando rios de dinheiro trabalhando mas meses depois você tá sem um centavo porque não foi chamada para nada. Hoje minha fonte de renda é a internet, mas não quero ficar refém. Por isso estou buscando um trabalho que goste”.  

Foto de capa: Divulgação/Arquivo pessoal

Por Thais Eloy

Taubateana e Jornalista.

One thought on “Gabriela Loran: “Eu me vejo ganhando um Oscar””

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