BLOG

3 livros para conhecer a autora Sabina Anzuategui

Por Amanda Pickler, voluntária da Biblioteca Caio Fernando Abreu

Para aqueles que curtem ler romance de formação — gênero literário, no qual se expõe o desenvolvimento psicológico e emocional da personagem ao longo da narrativa — e estão atrás de uma nova leitura, a autora curitibana Sabina Anzuategui é uma ótima dica. Os temas de amadurecimento, sexualidade e saúde mental são recorrentes em suas obras, sempre tratados com sagacidade e uma boa dose de sarcasmo. Anzuategui é formada em Cinema pela Universidade de São Paulo e, além de escrever romances, também trabalha como roteirista, o que fica evidente em sua escrita informal, com diálogos inteligentes e corriqueiros.

Abaixo, elenco três excelentes obras da autora disponíveis no acervo da Biblioteca Comunitária Caio Fernando Abreu da Casa 1:

Calcinha no Varal

Este é sobre o início da vida adulta. Juliana não sabe muito bem ainda quem é. Nada fora do normal, tendo em vista que a jovem possui apenas dezoito anos e acaba de ingressar no curso de Cinema da USP. acompanhamos então seus primeiros anos da faculdade e sua iniciação à idade adulta. Além de Isabela, amiga com quem divide apartamento, Juliana não possui muitos amigos, talvez por isso comece a namorar Fabrício. Inicialmente, era apenas uma transa. Ele quer mais, ela lhe dá um fora. Mas a carência vence e logo começam um relacionamento. Relacionamento este fadado ao fim; já na primeira página do romance, temos um diálogo em que Fabrício termina o namoro dos dois — no final, é ele quem a rejeita.

No capítulo seguinte, a garota, que é também a narradora da história, elucida bem um traço forte de sua personalidade e que explica muitas das atitudes da personagem no decorrer da narrativa, “… até hoje não sei como evitar um mecanismo cruel, que faz com que os caras que trato mal me adorem, mas quando gosto de algum, de repente fico carente e ele para de gostar de mim.”

O livro foi escrito em 2005 e é ambientado nos anos noventa, ainda assim, traz questões atemporais sobre o amadurecimento. Sendo um jovem daquele tempo ou de agora, é muito fácil se identificar com a personagem principal, Juliana. Afinal, todo mundo já viveu ou irá viver o trauma de deixar a adolescência para trás. Um livro dinâmico, com diálogos pontuais, também levanta pautas importantes como a do aborto, prostituição, descoberta sexual e relações homoafetivas.

O Afeto Ou Caderno Sobre A Mesa

Este é sobre a infância. Denise tem o marido perfeito, o apartamento perfeito, o emprego perfeito. A vida perfeita. Quem vê de fora, pensa assim. Mas a verdade é que ela é deprimida e não tem mais muito interesse em viver. A questão é que a depressão vem de dentro para fora, não de fora para dentro, isso fica claro neste livro.

Esse é o contexto de sua vida adulta. Porém, a maior parte dessa história ocorre na época da infância da personagem, onde a autora levanta pontos sutis da trajetória da protagonista e que podem servir de explicação para a melancolia crônica da Denise de anos depois; as marés do oceano que um dia ainda se transformarão em tsunamis.

Estamos em Curitiba, ano de 1985. Denise acaba de iniciar a quinta série, época em que as garotas começam a se interessar pelos garotos, época em que as crianças começam a matar aula, época em que tudo começa a mudar. É um momento conturbado na vida da personagem, ainda que ela não tenha consciência disso. Seu pai acaba de se mudar de cidade e suas ligações tornam-se cada vez mais infrequentes. Aos poucos vamos entendendo a crise do casamento de seus pais e a consequente tristeza da mãe, que por vezes é flagrada aos prantos pela criança. Tudo implode quando nos é revelado que o pai de Denise havia engravidado uma outra mulher. “Tive períodos sofridos depois de adulta. Mas na infância, por algum motivo, atravessei a dificuldade sem perceber. Não parecia triste.”

Apesar de estar vivenciando uma crise familiar em casa, o verdadeiro drama, na cabeça da protagonista, está em suas amizades. As prioridades, na infância, são outras. Inicialmente, somos apresentados à sua melhor amiga, Paula, que é branca, assim como ela, e de família rica. Após brigarem, Denise se vê sozinha e encontra refúgio na vizinha, Juliana, que é preta e de família pobre. Enquanto é tratada com frieza pela família daquela, como um estorvo, Denise é recepcionada pela mãe desta com afeto e cuidado, sempre muito bem-vinda. E, no entanto, quando as duas melhores amigas se reconciliam, Denise naturalmente deixa Juliana de lado. A importância do status acaba prevalecendo.

Sabina traz aqui uma reflexão relevante sobre raça, classe social e a complexidade das relações familiares através da perspectiva de uma criança de doze anos de idade.

Luciana e as mulheres

Este é sobre se reinventar depois dos trinta. O casamento de Luciana está em crise. Após dez anos de casadas, ela e a esposa, Agnes, decidem abrir o relacionamento. É assim que acaba conhecendo Melissa, uma jovem de 24 anos, sem nenhuma perspectiva na vida e que, apesar de se relacionar com mulheres, ainda se identifica como hétero. É o oposto de Agnes, uma mulher oito mais velha do que os 36 da protagonista, com um emprego fixo e um bom salário. As duas eventualmente se separam, e Luciana enfim engata um namoro com a mais nova.

A relação é conturbada. Melissa é uma garota confusa, que ainda não sabe quem é, ou mesmo o que quer fazer — posteriormente é revelado que a personagem é bipolar e que sofre de crises profundas de depressão, o que explica muito de seu comportamento inconsistente. A inconsequência de Melissa e o ciúmes de Luciana, com o tempo, desgastam o relacionamento das duas, ainda assim, a protagonista persiste em tentar preservar o casal, incompatível desde seu nascimento, algo que provoca ao leitor enorme frustração.

Mas, apesar de beirar a toxidade, seu encontro com Melissa é essencial para o seu amadurecimento. A personagem diz em certo ponto, após o segundo término: “Agnes me afastou dos bares. Melissa encerrou minha vida doméstica com Agnes. E nessa mudança eu seguiria sozinha.” A convivência com Melissa faz a personagem colocar em perspectiva sua vida atual e retomar vontades do passado. É na confusão de Melissa, na confusão de quem ainda não saiu da casa dos vinte anos, que ela se vê obrigada a se reinventar aos 36, mudar de emprego e até mesmo começar um mestrado. Uma leitura fácil e bem-humorada.

Esses e muitos outros títulos fazem parte do acervo da Biblioteca da Casa 1. Venha conhecer nosso espaço, localizado na Rua Condessa de São Joaquim, 277, Bela Vista – SP. Nosso horário de funcionamento é de segunda a sábado, das 10h às 19h.

Foto de capa: divulgação

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

Notícias Relacionadas

Encontro de Lutas: confluências entre o Dia Internacional de combat...

VoteLGBT participa do WebSummit Rio

23ª Feira Cultural da Diversidade LGBT+ transforma o Memorial da Am...

Espetáculo LGBT+ estreia gratuitamente em bibliotecas de SP

Sem apoio institucional, professores de SP combatem LGBTfobia com c...

Movimento Indígena LGBTQIAPN+ lança manifesto durante Acampamento T...

Marina Lima celebra sua carreira em show único na Casa Natura Music...

Premiado filme espanhol, “20.000 espécies de abelha” se...

Primeira parlamentar travesti no estado do Rio de Janeiro lança liv...

10 formas de saber mais sobre Libras e a comunidade surda

“Amor e outras Revoluções”, peça inspirada em obra de b...

28ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, que acontece dia 2 de jun...