Em abril de 1954, alguns meses antes de morrer, Oswald de Andrade escreveu no hospital uma série de crônicas introspectivas e melancólicas, diferentes das que costumava publicar no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, onde fazia comentários semanais sobre a agitação política e cultural de São Paulo. Chamou elas de meditações, e cada uma funciona como uma espécie de diário da internação, em que o escritor reflete sobre o lugar do corpo na medicina moderna, a importância do afeto e da amizade no processo de convalescença (e talvez cura), a angústia espiritual do doente, entre outras amenidades.

No começo de seu famoso ensaio “Doença como metáfora”, Susan Sontag diz que “a doença é a zona noturna da vida”. Ela diz que a gente tem dupla cidadania, “no reino dos sãos e no reino dos doentes”, e uma hora ou outra todo mundo é obrigado a usar o passaporte desse reino que costumamos pensar apenas em termos negativos, relacionados à morte e à fragilidade. Isso, lógico, porque costumamos ver a morte e a fragilidade como coisas negativas, inevitavelmente ruins. Ninguém quer ficar doente, quer?

Não sei responder, mas acho que a questão é mais complicada do que parece.

Na “Meditação nº 3”, de 18 de abril, Oswald escreve: “A quebra do ritmo da vida, por uma doença, muda os aspectos habituais. O demorado silêncio do quarto, a inatividade, a enfermagem, o ambiente hospitalar abrem as comportas do ser combalido a todas as cargas emocionais da infância”. É óbvio, mas sempre bom lembrar, que essa generalização parte de uma experiência muito particular, e seria bom ler o relato de alguma das muitas pessoas que ficam convalescendo nos corredores e nos chãos dos hospitais, sem silêncio demorado nem inatividade, em cenários que mais lembram os de uma guerra.

Feita a ressalva, tudo bem, não precisamos jogar fora a meditação do Oswald. Porque as experiências particulares podem ser generalizadas, nem que seja só pra gente imaginar outras vidas e outras mortes.

Essa “quebra do ritmo da vida” de que ele fala é uma coisa que sempre gostei na doença. Mesmo quando você precisa continuar a viver, ir pro trabalho e coisas assim, a doença impõe algum tipo de pausa no corpo. Você tosse, espirra, sente uma pontada e precisa se curvar, pressionar a têmpora. Dá raiva e dá vontade de chorar, e dá um alívio quando passa. A gente acaba entrando em contato com emoções que alguém vai chamar de primárias (“todas as cargas emocionais da infância”) e que são mesmo mais cruas, têm um gosto de ferida exposta.

Caio Fernando Abreu, que também fez uma série de crônicas internado no hospital, escreveu: “eu não sabia que o corpo (‘meu irmão burro’, dizia São Francisco de Assis) podia ser tão frágil e sentir tanta dor”. A lembrança está na “Última carta para além dos muros”, em que ele também escreve: “De alguma forma absurda, nunca estive tão bem”. Isso porque (arrisco) o corpo não é tão burro assim – ou mesmo os burros têm muito a nos ensinar. E aprender é bom, é gostoso: é um movimento vital.

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O Oswald não diz por que está internado. Dá a entender que é algum problema intestinal ou talvez na bexiga. Grave, mas não vamos perder as esperanças. Um médico fala animado de uma cirurgia experimental nos Estados Unidos, e o escritor comenta: “Conversa de médico é isso – o mais bonito que dela se depreende é que, no quarto vizinho, uma senhora tirou meio metro de intestino salvando-se de volvo”. (Volvo, precisei pesquisar, é uma torção das tripas.)

Já o Caio tinha aids mesmo. E as crônicas dele são mais envergonhadas que as do Oswald, inclusive porque ele precisa escrever: “Não sinto culpa, vergonha, ou medo”. Desses sentimentos, Oswald se ocupa vagamente só do terceiro, que ele nega (e negar é um outro jeito de afirmar?) defendendo uma “concepção antropofágica da vida”, um estoicismo livre de esperanças de salvação: “de pé diante do irreversível, o homem deve se deixar devorar sem medo. Não é outra a função da vida”.

Meu amigo Gui Mohallem tem dito que a gente precisa ter uma concepção mais passiva da vida. Não na definição do dicionário, mas das bichas mesmo. Na verdade ele prefere dizer “passivista”. Vou pedir pro Gui explicar melhor isso pra vocês no mês que vem. Por enquanto, foi ele que me inspirou a mudar a postura recomendada pelo Oswald e ficar de bruços diante do irreversível. Sendo que a gente também pode ficar de quatro diante do irreversível. Quicar no irreversível. Tente isso em casa.

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Nestes tempos, a gente poderia aproveitar nossa convalescença brasileira para usar o passaporte dessa outra nação, a “zona noturna”, e quebrar o ritmo da vida. Ser frágil, sentir dor, sentir pena de si mesmo e, cobrindo a cabeça, descobrir a própria bunda arrebitada.

Lembremos que o fascismo obriga a corpos invencíveis, mesmo que de mentira: leva facada e não sangra, pega covid e não morre, promete que “o filho não foge à luta”, eu hein! Melhor seria tirar um cochilo e se hidratar. O país poderia aproveitar que está doente e se encolher em posição fetal no nosso berço de repente nada esplêndido. Um berço muito triste, fraco e feio.

Arte da capa: Jeff Avelino

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Por Casa 1

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