Por Marcos Visnadi

A última vez que encontrei Janaina Lima foi na margem de alguma manifestação, provavelmente uma Parada do Orgulho, talvez um ato contra o atual presidente. Lá estava ela, à la Ione de Itapetininga, com seu picumã vermelho belíssimo, óculos escuros, cheia de buttons e apetrechos de arco-íris, um sorriso indecifrável na boca.

Sempre linda, Janaina tinha uma risada gostosa quando se abria cheia de dentes e alegria. Mas eu também amava o outro sorriso característico dela, esse fechado, de boca torta, que ao mesmo tempo aderia às situações e tirava sarro delas.

Não acho que Jana se achasse superior a nós e de modo algum eu a descreveria como arrogante. Ela tinha, sim, uma inteligência crítica muito aguda, uma capacidade de enxergar as contradições e o ridículo das coisas mesmo que estivesse encalacrada no meio do vuco-vuco.

Otavio Chamorro lembrou de uma das antológicas frases da nossa amiga: “Não adianta a bicha ser bonita, esperta e bem relacionada. A bicha tem que ser ligeira!”. E ligeira ela era. Sempre dez passos na nossa frente. Enquanto a gente corria pra alcançar a meta, Janaina já tinha dobrado a meta e voltava (com aquele mesmo sorriso) já sabendo que a meta não era grande coisa, mas que não adiantava avisar – a gente tinha que correr e se estrepar para aprender.

Não à toa, Jana se formou em pedagogia e, nos muitos posts de amigues e admiradores lamentando a sua morte, uma das coisas que mais se disse foi: o quanto ela nos ensinou! De novo: sem arrogância. Porque a Jana era doce, uma das pessoas mais doces que já conheci. Ela conseguia ser firme e delicada, assertiva e diplomática, seu sorriso melancólico e zombador tinha também uma sabedoria zen, e era como sábia que a Jana ensinava. Eu conheci ela, aliás, levando uma das maiores broncas da minha vida! Num congresso, no microfone, fiz uma fala transfóbica e travestifóbica que parece ter passado desapercebida pra todo mundo, menos pra ela. Sem levantar a voz, mas também sem levar desaforo pra casa, ela fez um comentário alto o bastante pra chegar no meu ouvido e me fazer perceber, na hora, o quanto a minha fala tinha sido violenta, quais eram os pressupostos daquela violência e que não importava nem um pouco que não tivesse sido intencional. Fiquei tão constrangido que depois fui pedir desculpas pra ela, e acabei levando outro coió bem-dado: “Não precisa pedir desculpas, só pensa no que você falou”. O constrangimento acabou virando reflexão. Meu amor por ela começou ali.

Acho que era assim que Jana ensinava: fazendo a gente ficar ligeira. Uma ligeireza que ela deve ter aprendido na marra, na vida ridiculamente dolorida que a nossa sociedade impõe às travestis. Amara Moira lembrou de outro dos seus ensinamentos: “A dor da travesti está sempre a um passo de se converter num meme”. Em entrevista ao Neto Lucon, citada pela Daniela Andrade no Facebook, Jana comentou sobre a vez em que, no meio da rua, sem aviso, foi literalmente esfaqueada pelas costas: “Todas as violências que eu sofri foram marcantes. Não dá para dizer que essa foi mais forte ou que a outra foi mais fraca. O que eu posso dizer é que levar uma facada nas costas, do nada, é algo muito forte. De você se ver diante da morte e perceber que as pessoas não se importam”.

O desamparo e a iminência da morte são sentimentos cotidianos para pessoas trans e travestis no Brasil. Jana sempre lembrava a frase terrível e reveladora de outra militante histórica, a precursora advogada Janaína Dutra: “Costumo comparar a travesti a uma ilha, só que ao invés de estar cercada de água por todos os lados está cercada pela violência”.

Na entrevista a Neto Lucon, Janaina Lima contou como resolveu lidar com o medo e o perigo constantes: “Sempre pensei que, se for para morrer desta forma, que seja. Não dá para fugir da travestilidade para fugir da violência. Isso seria o mesmo que negar a travestilidade, começar a me esconder e me camuflar. O que eu tenho que fazer é enfrentar”.

Sobreviventes e guerreiras incomuns, ambas as Janaínas morreram cedo demais. Dutra, em 2004, aos 43 anos, de câncer; Lima, em 3 de setembro de 2021, aos 45 anos, de infarto. Mas as duas viveram muito além da média da expectativa de vida para a população trans e travesti brasileira, que é de 35 anos. Há algum tempo, Janaina Lima sabia que estava (nas palavras dela) “no lucro”.

E mesmo assim a sensação é de que sua morte chegou muito antes do que deveria, nos deixando também um pouco mais desamparades. Porque, além de ser uma pessoa linda, sábia e divertida, Jana foi uma trabalhadora vital para o movimento LGBTQIA+, tendo atuado na elaboração e gestão de políticas públicas, no atendimento à saúde da nossa comunidade, na organização de paradas e outros encontros e manifestações, tudo isso exercendo um protagonismo discreto, do mesmo jeito tímido e espalhafatoso que caracterizava ela em outras áreas da vida.

Uma vida dinâmica, de constante equilíbrio de características opostas e aparentemente excludentes. Librianíssima. Ou não, nada a ver. A vida dela foi travesti, nos seus próprios termos.

Em um dos textos para a revista Geni, em 2013, Jana definiu a travesti como “a falência do binarismo de gênero”. Pensando agora sobre ela, revendo entrevistas e vídeos com suas declarações, lendo as homenagens nas redes sociais, fico achando que ela incorporou a falência de todos os binarismos – e, de um jeito muito generoso, propôs que a gente tentasse abraçar essa possibilidade de mundo e de futuro que, para ela, era sua própria existência presente. “O que é a vida?”, perguntou o Neto Lucon, e Jana respondeu: “É tudo isso que a gente faz, é apanhar, é bater, é chorar, é sorrir. A vida é ser
travesti”.

Ser travesti não é qualquer vida, e a vida só merece ser chamada assim se for livre. “Travestilidade tem a ver com liberdade”, disse ela. Esse é um grande ensinamento de Janaina Lima, e tomara que a gente continue aprendendo. Tomara que a gente consiga construir uma sociedade em que a travesti seja uma ilha cercada, por todos os lados, de amor, e que todas possam assim crescer e se tornar continentes travestis, como foi a Jana. Tomara que a gente crie um país que mereça pessoas como ela, e onde as bichas não precisem ser tão ligeiras – e possam ser mais tranquilas e ficar um pouco mais.

Ilustração: Jeff Avelino

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Por Casa 1

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