A capinha de seu celular é rosa com pedrinhas de brilhante incrustadas, e sua mochila, azul piscina, é repleta de borboletas coloridas. Para Jamie New, ser gay nunca foi problema. Enfrentar colegas de classe homofóbicos que se incomodam com sua feminilidade, tampouco.

O que Jamie não consegue é dizer em voz alta que, em vez de blazer e sapato, prefere ir de vestido longo e salto alto no baile de formatura, que ele acredita ser a oportunidade perfeita, apesar de amedrontadora, de revelar a todos a drag queen que sempre sonhou ser.

Com voltas e reviravoltas, essa insegurança conduz o musical “Everybody’s Talking About Jamie”, que chega nesta sexta ao catálogo do Amazon Prime Video após ter tido sua estreia nos cinemas, inicialmente programada para o início deste ano pela Disney, cancelada.

É mais um da safra de filmes vindos dos palcos –dessa vez, do West End, equivalente da Broadway em Londres–, como “Querido Evan Hansen”, que estreia em novembro nos cinemas, e “A Festa de Formatura”, adaptado por Ryan Murphy para a Netflix.

O musical em que esse longa foi inspirado, porém, é uma adaptação de um documentário da BBC, exibido há dez anos, sobre um garoto que, aos 16, encontra na arte do drag sua vocação profissional e sonha em sair do interior da Inglaterra para performar em Las Vegas, nos Estados Unidos.

Hoje, pode parecer exagero dedicar um documentário a Jamie, considerando o sucesso de reality shows como “RuPaul’s Drag Race”, que põe drag queens para competirem na televisão, ou de divas como Pabllo Vittar, que estourou nas rádios e virou trilha sonora de novela da TV Globo.

Uma década atrás, no entanto, a cena drag não havia furado a bolha da comunidade LGBTQIA+, afirma o protagonista do filme, o estreante Max Harwood, de 24 anos, que, sem ajuda de um agente, conseguiu o papel ao mandar uma gravação amadora interpretando Jamie por meio de uma audição aberta ao público.

“Drag queens ultrapassam e ampliam os limites da sociedade. Elas têm lutado e dado início a discussões importantes há anos. É por isso que Jamie diz, no filme, que elas são revolucionárias. Ele não está à procura só de fama, mas quer fazer parte dessa comunidade transformadora”, diz.

O filme, por outro lado, opera num tom bem mais abaixo do que a fala do ator, já que, diferentemente do Jamie do documentário, o do filme só descobre que a arte drag é política quando procura Hugo –papel de Richard E. Grant–, que se transformava em Loco Chanelle, uma drag aposentada que costura roupas para as que vieram depois.

Em um número musical criado para o filme, Hugo adentra uma televisão do ateliê para exibir a Jamie cenas de paradas LGBTQIA+ da década de 1980, o apoio de Lady Di à comunidade, a morte de Freddie Mercury e tudo o que fez parte da trajetória de Loco Chanelle.

É a cena mais forte do filme e talvez a única que dê vazão à militância lembrada por Harwood. Não que o espectador deva esperar algo diferente, já que, antes da primeira cena, um aviso na tela adianta o tom da narrativa.

Com uma batida dramática, surge, em letras monocromáticas, a frase “esta história realmente aconteceu”. Em seguida, é dito que “então, acrescentamos música e dança”, num azul celeste acompanhado de acordes alegres que anunciam a despretensão do filme.

“É importante que este filme atinja pessoas que não façam parte da comunidade LGBTQIA+, porque precisamos que essas pessoas mudem e abram espaço para que possamos ser nós mesmos em segurança”, diz Harwood. “A arte drag é política, mas também pode ser só diversão, com muita dança, música e moda extravagantes.”

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EVERYBODY’S TALKING ABOUT JAMIE

Quando Estreia no Amazon Prime Video nesta sexta (17)

Elenco Max Harwood, Richard E. Grant, Sarah Lancashire

Produção EUA/Reino Unido, 2021

Direção Jonathan Butterell

RIBEIRÃO PRETO, SP 

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Por Folha Press

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