Quando o assunto é mercado de trabalho, a desigualdade entre homens e mulheres está presente em todo o território brasileiro. Porém, as mulheres na Amazônia Legal enfrentam cenários ainda mais desfavoráveis do que no resto do país, segundo estudo concluído no fim de março.

A região analisada corresponde a 58,9% do território brasileiro e é composta de 772 municípios distribuídos em Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão. A pesquisa foi realizada pelo instituto Amazônia 2030, iniciativa conduzida por pesquisadores brasileiros para desenvolver um plano de ações na Amazônia.

Em relação à escolaridade, elas estão na frente. Na Amazônia Legal, cerca de 60% das mulheres que compõem a força de trabalho têm o ensino médio completo ou mais. Entre os homens, a parcela é de 40% dos homens. Quando considerado todo o país, as porcentagens são de 64,2% no caso de mulheres e de 50,8% no de homens.

Ainda segundo o levantamento, em 2019, 56,8% das mulheres entre 25 e 54 anos da região tinham pelo menos o ensino médio completo, quase doze pontos percentuais a mais do que os homens da região (44,9%).

A diferença é ainda maior entre as pessoas com ensino médio completo que estavam ocupadas: 67,3% das mulheres e 47,5% dos homens. Além disso, 26,1% das mulheres ocupadas tinham ensino superior completo, comparado com apenas 12,8% dos homens ocupados.

Mesmo que mais escolarizadas, a desigualdade por gênero aparece, principalmente, na dificuldade de inserção no mercado de trabalho, com uma menor oportunidade de qualidade para as mulheres em relação aos homens, quando comparado com o resto do país.

Os números mostram que, em 2019, mulheres com mais de 15 anos tinham apenas 42,4% de taxas de ocupação –já os homens tinham 65,4%.

O levantamento foi realizado com base em dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE de 2012 e 2021 e contou com entrevistas de cerca de 211 mil domicílios em cada trimestre, sendo 36 mil na Amazônia Legal.

A pesquisa aponta ainda que quase metade das mulheres sem ensino fundamental completo trabalha sem carteira assinada –o número é quase o dobro do observado entre os homens que têm a mesma escolaridade (27,4%).

Gustavo Gonzaga, economista e responsável pela pesquisa do Amazônia 2030, analisa que a evasão escolar dos homens pode ser explicada pelo fato de que há uma parcela significativa que abandona os estudos para trabalhar na agropecuária e na construção civil.

A maioria das mulheres trabalha no setor de serviços (61,7%), que é ocupado por 32,7% dos homens. Eles se dividem na agropecuária (13%) e nos trabalhos de construção (13%) –apenas 7% e 0,2% das mulheres exercem funções nestes setores, respectivamente.

Na região amazônica, a diferença por gênero de vagas ocupadas no setor público representa mais do que o dobro do restante do país. A taxa de mulheres trabalhando no setor público corresponde a 14,4%, enquanto a de homens representa apenas 3,8%. No Brasil, o setor público é ocupado por 10,7% das mulheres e 6,2% dos homens.

Os resultados do estudo refletem a realidade em que a professora e líder comunitária Izolena Garrido vive. Ela, que mora na comunidade ribeirinha do Tumbira (AM), afirma que as pessoas mais escolarizadas são as mulheres, que levam os estudos mais adiante.

“Os trabalhos nas comunidades são mais pesados. Existe uma cultura dos homens que impede o rapaz de prosseguir nos estudos”, analisa ela, que também afirma que a maioria das mulheres ainda esbarra com o machismo das comunidades e que ainda é comum que isso as impeça de concluir estudos e encontrar vagas no mercado de trabalho.

“O espaço da mulher ainda precisa ser conquistado com mais firmeza porque é notório a discriminação que elas sofrem”, diz Garrido. “Hoje, existe uma gama maior de oportunidades de trabalho, porém a qualificação que a pessoa tem que ter é o que impede. Não é raro que a mulher não tenha a formação e nem experiência para preenchê-la.”

A professora afirma que outra situação comum é a de parceiros que impedem as mulheres de trabalhar. Garrido analisa que uma maneira de inserir as mulheres no mercado de trabalho é por meio do artesanato, já que elas não precisam sair de casa para isso e conseguem gerar uma renda.

“É uma realidade triste a mulher não conseguir comprar absorvente e depender do marido para isso e ainda ter que devolver o troco para eles. Isso ainda acontece muito nas comunidades ribeirinhas e, por isso, é importante que a igualdade de gênero seja trabalhada entre elas”, diz.

Os homens, em sua maioria, foram criados para fazer extração de madeira, trabalhar com agricultura ou pesca. “A perspectiva de se formar para ser um agrônomo ou técnico pesqueiro é uma realidade dos jovens de hoje. De 2020 para trás, não era assim. Agora é que começarão a vir as mudanças”, diz.

Apesar de viver em um cenário diferente de Garrido, a arquiteta Mariana Carvalho, 26, que vive em Belém (PA), concorda com a dificuldade de mulheres se inserirem no mercado de trabalho na Amazônia Legal.

“Quando fui procurar estágio em escritórios de arquitetura, muitos não aceitavam mulheres e soube que isso acontecia porque mulheres menstruam”, lembra ela. “A maioria dos escritórios é comandada por homens. Sempre sinto que o engenheiro, mestre de obras ou pedreiro sabe mais que eu. Sempre temos que provar que a gente também sabe.”

Foto: Bruno Santos/Folhapress

Por Folha Press

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