Por Marcos Visnadi

Saibam que não tenho nenhum conhecimento científico ou compromisso com a verdade, mas me divirto o quanto posso, é só isso que proponho – e que, na falta de certeza, a gente brinque sem ela.

Que a média do tempo de existência das espécies no planeta é de 5 milhões de anos e o homo sapiens, risos, homo maniacus já disseram, obtusus, ignarus, dá pra brincar de latim também – enfim, a gente está aqui faz 250 mil, 300 mil anos no máximo – se acertando na cabeça com ossos, madeiras, barras de ferro e outros instrumentos mais arcaicos – bombas de hidrogênio, vírus de laboratório. Até os anos 1940, pelo menos, tem relatos de colonizadores brancos ou adjacentes deixando no meio das trilhas roupas usadas por doentes de varíola, sarampo, gripe, covid pra que indígenas pegassem e vestissem e morressem e facilitassem a passada da boiada. Na bala também dá certo.

Toda guerra é biológica e o mundo todo está em guerra, o planeta é soberano, a Mãe Terra deve sentir a gente como um fungo, uma micose na bunda que incomoda e coça e você pensa nossa, será que devo ir ao médico, passar pomadas quais unguentos, fazer banho de assento, depois esquece, a Mãe Terra toda ocupada girando e rebolando o seu próprio eixo na matéria escura tomando um solzinho na frente e um refresco na sinecura, pensa no prazo esquece e quando vê ué, já sarou. A civilização dos dinossauros durou
centenas de milhões de anos. A das bactérias continua durando.

Do ponto de vista da eternidade, que nem precisa existir, só a gente se interessa pela eternidade, nosso tempo curto, que nem quem tem fome só pensa em comer, que nem quem tem muito dinheiro só pensa em dinheiro, quem não tem também, o máximo que a gente alcança sozinha, assim, individualmente, é muito pouco, é muito aqui, é muito aquém – “Escravos cardíacos das estrelas” escreveu Fernando Pessoa, também chamado de Álvaro de Campos, “Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da
cama”, e continua:

Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

Que miséria a nossa fortuna, que mísero o nosso cultivo da miséria, que fortunas as pessoas encontram no nada, no avesso do nada, no lixo do dia, as pragas cotidianas, 40 anos da pandemia de HIV, que bobagem, que maçada, que mansarda, que porão, que fundo de poço em que nós vivemos e empurramos os colegas mais pra baixo – ou damos um jeito de empurrá-los para cima porque a humanidade também é fraterna, solidária, bondosa – mas o poço estava ao contrário e quem foi pra cima caiu de vez, tchibum.

Vocês sabiam que aproximadamente 10 mil pessoas morrem de aids todos os anos no Brasil? E que desde sei lá 1995 isso é completamente inadmissível porque o HIV pode ser só um vírus adormecido dopado pela farmácia, um berço esplêndido, num cochilo deixar a pessoa aidética viver em paz, quer dizer, o mundo inteiro em guerra, mas pelo menos privá-la de se tornar aidética – cada um e as suas guerras. Indetectável é igual intransmissível – o que não se transmite não se comunica – talvez seja o caso de infectar os ricos – fazer que nem aquela que ficou nervosa na fila do postinho e tirou uma seringa do próprio sangue e atacou as enfermeiras – que, gente, se tem alguém que precisa de respeito é todo mundo, mas principalmente as enfermeiras! – a nossa raiva é muito mal
direcionada – você empurra alguém e a pessoa cai pra cima.

Cansei de brincar. Eu fui uma criança triste, brincava de ser triste. Desejo um bom fim de ano pra você. E um começo de ano melhor ainda! Que todo mundo tenha o seu peru. Coloque ele na coleira e leve pra passear. O peru é uma ave brava, ele vai te proteger. Que as almas dos perus mortos neste fim de ano velem por nós e biquem nossos sonhos.
Boas festas.

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Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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