Por Cyro Moraes, produtor de conteúdo freelancer da Casa 1

Desde 2004, janeiro é o mês em que se celebra o dia da Visibilidade Trans. A efeméride lembra o dia em que travestis e transexuais foram ao Congresso Nacional reivindicar dos parlamentares políticas de equidade e lançar a campanha nacional “Travesti e Respeito”, que acabou se tornando a primeira organizada por e para pessoas trans com foco na promoção do respeito e da cidadania. Apesar da data exata ser no dia 29, o mês inteiro é marcado por ações com esse foco. O blog da Casa 1 fez a pergunta: “O que o mês da visibilidade trans representa para você?” para várias pessoas trans e não-bináries. As respostas foram diversas e colocamos todas elas aqui para você.

Maia de Paiva, atriz e performer – @maiadepaiva

Sem dúvidas pensar visibilidade para pessoas transvestigêneres é urgente! Nós sempre existimos e fomos apagades da História – basta pesquisar sobre pessoas trans em culturas tradicionais por aí – e agora exigimos que nossas existências no mundo sejam reconhecidas, protegidas e exaltadas. Ao mesmo tempo, penso que falar de visibilidade para nossos corpos é bastante contraditório, já que sempre que estamos em qualquer lugar que não seja “o esperado” somos constantemente vigiades e ameaçades. Por isso, acredito que esse é um mês de propagar e refletir sobre as nossas histórias de luta e resistência coletiva, reivindicando mais segurança para nossas vidas e mais participação com qualidade nos espaços que ocupamos e circulamos. Não desejo uma visibilidade individual, quero dignidade coletiva para todes e em qualquer mês!

Gabriel Lodi – ator e dublador – @gabriel_lodi

Todos os anos somos convidados a falar sobre visibilidade e sempre me pergunto quando será possível falar de orgulho. Percebam a diferença. Mesmo com tantas pessoas que vieram antes, ainda clamamos por visibilidade, ou seja, lutamos por existência social, já que um grupo que é invisível não consegue sair da precariedade e da vulnerabilidade.

Estamos nos unindo pra dizer que somos possíveis. Que nossos corpos e vivências carregam tantas possibilidades e potências que não aceitamos mais sermos limitados, sermos subjulgados.

Nós existimos e temos direito a um mundo possível para todos, todas e todes!

Florido Fogo – Encenador, performer y bailarino – @floridofogo

Enquanto pessoa trans não binarya, em processo de retomada étnyca e classe baixa no país da binariedade, do apagamento e da desigualdade. Vivenciar o mês da visibilidade transpassa por muites sentires e víveres. Já que a não binariedade muitas vezes é apagada e excluída pela própria comunidade T. y por consequência LGB. Já que não somos todes iguais e muitas vezes é projetado em nós expectativas cisgeneras. Ainda  que haja a busca para construyrmos uma experiência de celebração, pq eu mesme ressalto constantemente que ser trans não é sobre tristeza e dor o tempo ynteiro, mesmo no país que mais mata pessoas trans seja por assassinato, seja por apagamento, seja por suicídio, seja por falta de políticas públicas. Ainda assim nós não binaries estamos no trabalho constante de kebra e atravessares do cistema para podermos existir vives e com dignidade. Ocupando e deslocando percepções que não conseguem entender pessoas além de suas genitálias e toda uma imposição colonial, biologizante e excludente. É nessa energya que a importância do mês da visibilidade dança na minha experiência e na aproximação de experiências várias. Nesse mês é sobre lembrar, é sobre chorar, mas é sobre insystir e se fortalecer com as nossas. No meu caso é sobre buscar nas ancestraz outras narratyvaz que permitem a minha existência e sobre celebrar A Núclea de Pesquiza Tranzborde que é majoritariamente trans não binária en troca com outres recortes chamados dissidentes.

Dodi Leal – travesti educadora e pesquisadora em Artes Cênicas – @dodileal

O mês da visibilidade trans é um lembrete à cisgeneridade de sua responsabilidade de responsividade. Responder sim às pessoas transvestigêneris é aceitá-las em suas vidas o ano inteiro. Recebam. Recebam. Recebam. Amem-nos. Empreguem-nos. Andem conosco. Aprendam com nossas professoras e professores trans. Confiem nas pessoas trans. Rasguem seus peitos pois nós somos chuva de afeto e energia vital.

Maite Lopes Bessa – artista visual – @maite_lopes_bessa

Para mim, o Dia da Visibilidade Trans é uma forma de trazer para o centro da sociedade o debate sobre nossas existências, que tem sido historicamente tão marginalizadas.
É uma forma de nos legitimar enquanto pessoas e fazer com que nossos corpos ocupem espaços que sempre nos foram negados.
É uma oportunidade de nos inserir no mercado de trabalho, nas universidades, na representação política e institucional…ou seja, é uma forma de nos trazer dignidade.

Yaga Goya – performer e produtora cultural – @umabixa

Sinto que Janeiro é a oportunidade de celebrar nossas existências e de visibilizar a causa, mas que esse exercício se estenda para todos os meses.

As pessoas cisgêneras devem rever diariamente seus privilégios e se questionarem, ainda vivemos no país que mais mata e consome a população Transvestigenere.

Ágatha Íris – travaturga, atriz e compositora – @gatha_iris

Antes de pontuar a relevância da visibilidade trans e travesti pra mim, é igualmente importante ressaltar como se dá esse mês a partir do momento em que a cisgeneriedade se apossa do que é necessário ser visto sobre a nossa existência e corporiedade.

Em todas as circunstâncias e cenários se torna perceptível o lugar que ocupamos na sociedade e nesse CIS(sis)tema. A partir disso, a corporiedade transvestigênere se torna importante e essencial morte. E é exatamente aí, nesse momento circunstancial, em que ocorre a visibilidade. A corpa trans e travesti só é essencial, legitimada e mantida na exploração sexual e no óbito. É uma linha tênue entre ser merecedora de orgasmos e morta. Diante disso, quando chegamos no nosso mês da visibilidade, que pra mim, é mais do que visibilidade no tempo presente, é uma visibilidade atemporal, que me atravessa e me conecta com meus eus travestis, com a minha transcestralidade, me deparo com diversas pessoas cis (até mesmo da própria comunidade LGB) ignorando a nossa existência e/ou chamando pessoas trans e travestis para palestras, lives…. sem renumerar ou contrubuir de alguma forma, sendo que passado o mês, voltamos a estaca zero (até mesmo no próprio mês estamos). Ou seja, a cisgeneriedade nos deixa explícito que se trata sobre eles/elas como vamos continuar a sobreviver, até porque o que fazem é primeiro: o que está na “moda”; e segundo: o que gera retorno capital. Tornando assim nosses corpes sensacionalistas.

Agora, respondendo diretamente à pergunta feita, a visibilidade pra mim também se trata de criar oportunidades entre a nossa própria comunidade (como foi e ainda tem que continuar sendo). Esperar da cisgeneriedade, pra mim, é dar um tiro no próprio pé. Se é sobre a gente, tem que ser pra gente e entre a gente. É preciso se fortificar cada vez mais e enxergar possibilidades pra romper com esse etnociscentrismo. Ainda há muites manes que não aceitam se enxergar ou que não veêm expectativa (de vida, financeira, profissional, acadêmica, familiar, afetiva…) em ser trans e travesti. Por isso, é significativo que essa visibilidade alcance elus, até porque a própria mídia mata o ato de se ver. A prova disso é a novela “A FORÇA DO QUERER” (que, atualmente, está sendo reprisada na grade da TV GLOBO), que além de cometer transfake, retrata a existência trans de forma errônea e ensina as pessoas cis como verem e reagirem a gente, e a gente a como se vê. Pra mim, VISIBILIDADE TRANS E TRAVESTI também tem a ver com construir novos sinônimos e adjetivos qualificativos em ser travesti e trans. É preciso saber que podemos nos resignificar para nos inovar, é preciso saber que podemos nos autoinspirar e construir para desconstruir as falácias da nossa própria existência: TRANSVESTIGÊNERE.

Kiara Felippe – DJ, atriz e multiartista – @kiarafelippe

O Mês da Visibilidade Trans pra mim representa estar viva. Representa nossa resistência. Representa várias coisas, representa orgulho, uma luta, vitórias, coletividade. Representa muita coisa, mas quando eu penso no Dia da Visibilidade Trans, que é marcado por um dia em mês, eu penso em todo o ano, que posso estar viva. Cada dia que eu posso viver e estar visível. A visibilidade trans está em cada pessoa T. A partir do momento que a gente se torna visível, ocupa os espaços, pra mim é visibilidade também. A gente está levando esse simbolismo adiante.

Lua Lucas – atriz e professora – @lualucax

Uma oportunidade sempre perdida da cisgeneridade de se repensar e fortalecer pessoas trans e travestys!

Rudá – atriz @ ____ruda

Esse mês me lembra uma lição da transcestralidade: aquela força potente que eles tentaram eliminar ao longo dos séculos, mas que falharam diante da reinvenção desses corpos ao longo da história. Esse mês me lembra que eles continuam falhando. Que no meio do caos existe essa fagulha que eles não vão conseguir extirpar. Esse mês é um lembrete que não estamos felizes com a ficção que eles criaram, que o sistema deu errado. É nesse pensamento que me garro esse ano e nos próximos. Rezo pra que cada mês pra além desse seja um convite para a insurreição, que as portas sejam derrubadas para assim a transgeneridade passar não só para usar um banheiro, ou pra comprar tranquilamente seu pão, mas também para terem sua memória e dignidade garantidas.

Que cada esquina delas seja protegida, que os gabinetes de quem conseguiu chegar lá (democraticamente) seja livre do mau olhado, que nossos corpes diversos sejam livres dos olhares exotificantes, que cada boyceta possa andar na rua sem medo, que cada corpo não-binárie lembre de beber água e cuidar da saúde, que não nos falte uma boa terapia, seja ela hormonal ou em analista, que a bruxaria das nossas chegue aos quatro cantos deste mundo para lembrá-los que esse mesmo mundo ainda há de cair.

João Daniel – vendedor externo e artista – @eoq_daan

É um mês em que conseguimos aproveitar que milhares de olhos que desviam da gente o ano todo se voltam pra nós, é uma oportunidade de aparacer e dizer que estamos aqui!

Samira Schiorelli – profissional do sexo – @transtornada_oficial

Bom pra mim, Samira, não devemos levantar a bandeira só no mês da visibilidade. Devemos levantar todos os dias! Visibilidade não só falar sobre e, sim dar a cara a tapa por nós.

Hoje se muitos LGBTQIA+ tem ” privilégios ” é porque, na década  de 80, muitas trans, deram a cara e vida para que hoje nós tivéssemos os nossos direitos reconhecidos.  Mas mesmo com tantas vidas perdidas, a própria comunidade não reconhece isso.

Então, não é sobre “levantar  bandeira”, é sobre lutar todos os dias.  É sobre ser empático,  ter sororidade, ter amor ao próximo, é  sobre se colocar no nosso lugar todos dias.  É quando uma travesti moradora de rua te parar, perder 5 minutos do seu tempo e ouvir, é sobre dar um prato de comida. É, realmente, colocar em prática na vida real aquilo que se posta nas redes sociais. É lindo ser ativista nas redes sociais, mas quando é parado na rua, ignora. Queremos menos hipocrisia e mais empatia.

Marcel – pedagogo – @affeborges

O mês da visibilidade trans pra mim representa o mês de orgulho, mais até que a própria parada LGBT, ao mesmo tempo que simboliza que somos invisibilizados ao longo do ano.

Mas esse ano temos muito o que comemorar! Ver a Erika Hilton, como  mulher, trans, preta mais votada, ver as/os candidatas e candidatos trans que foram eleitos… Isso tudo é o que me faz acreditar na possibilidade da minha existência.

Rafa Ella Brittes, estudante de ciência política, assessora parlamentar, transfeminista decolonial – @sereiasubversa

O mês da visibilidade trans me soa de várias maneiras. É uma oportunidade de lembrar a população da nossa existência e de como sobrevivemos. É mais uma data na esteira da cultura ocidental de criar datas comemorativas em um compromisso de aprofundar o que se comemora. É uma gambiarra de reconhecimento que me ajuda a não desistir de seguir lutando pela total conquista da cidadania e além dela. Me soa um tanto sorrateiro, um tanto nebuloso, colorido demais. Me soa um hackeamento, um feitiço, uma tecnologia macumbeira. Me soa grito.

Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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