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Racismo no BBB e a omissão da Rede Globo

Ontem, durante o “Jogo da Discórdia” no reality show, onde os participantes tinham que escolher, de acordo com a sua opinião, os melhores e piores jogadores do BBB 21, o participante João, com toda a razão, expôs para o grupo um comentário racista do cantor sertanejo Rodolffo sobre seu cabelo.

Rodolffo comparou o black power do professor com a peruca do castigo do monstro. Esse foi só mais um dos comentários preconceituosos do cantor, que tem suas atitudes discriminatórias sempre acobertadas, sob o manto do pobre homem hétero cis branco que está sempre aprendendo, sempre em processo de desconstrução e nunca é responsabilizado pelas suas atitudes discriminatórias. A Duda Dello Russo, do podcast “Big Bicha Brasil”, falou um pouco sobre isso para a Casa 1 nesse texto.

No vídeo compartilhado pelo perfil oficial do João no Twitter, é possível ver todo o desconforto e principalmente dor que o episódio trouxe para o participante. Não está aberto aqui para discussão se o comentário do cantor foi ou não racista, porque foi, mas principalmente a omissão da emissora em relação ao crime cometido.

Compartilhamos ainda no início dessa temporada os motivos pelos quais decidimos parar de cobrir os acontecimentos do reality, entre eles, a omissão da Rede Globo sobre injúrias raciais e violências psicológicas sofridas principalmente pelo participante Lucas Koka Penteado.

Se em edições internacionais participantes com falas racistas são advertidos e expulsos, esse não é o padrão da emissora brasileira a lidar com crimes desse tipo no reality. Em outro momento, a ganhadora do BBB19 saiu da casa para a delegacia da Polícia Civil do Rio de Janeiro para depor sobre crimes de injúria racial , cometidos dentro da casa, que não geraram nenhum tipo de punição ou advertência no confinamento.

A mesma emissora que dedica fatias da sua grade para debates raciais, ainda não se posicionou oficialmente sobre a atitude racista do participante nem em redes sociais e nem através do apresentador do programa, que na noite de ontem não soube conduzir a dinâmica e tratou o episódio de racismo como um mero desentendimento entre os participantes.

Foto: Reprodução/ Igor Moreira, namorado do João, no twitter

Ouve uma onda, não só entre os confinados mas também entre o público nas redes sociais, de reação e acolhimento ao professor enquanto a Rede Globo se manteve “neutra”. Se a emissora entende que agressão física é um crime e uma violação a integridade do participante, porque não existe esse empenho em desclassificar ou advertir os participantes com falas racistas, LGBTfóbicas e outras discriminatórias?

Os administradores de ambos participantes se manifestaram e, enquanto a página do professor pedia respeito, a do cantor pedia desculpas e compreensão, se justificou dizendo que, mais uma vez, Rodolffo não teve intenção de magoar, sem mencionar que comentários “sem intenção” de magoar fazem parte e continuam alimentando o racismo tão presente na nossa sociedade.

Hoje um dos programas da emissora falou sobre o acontecido sem usar o termo “racismo”, o cantor permanece na casa sem advertência, e segundo parciais da votação para a eliminação do paredão de hoje, até o momento, ele está em segundo lugar e mais uma vez deverá continuar na casa.

João, não deveria ser tido como uma pessoa corajosa, ele não deveria precisar passar por isso e ter diversos traumas expostos em rede nacional, sem o amparo da produção do programa. Ele argumentou, chorou e expôs toda essa problemática sem usar a palavra racismo, porque sabe que a leitura aqui de fora e para as pessoas de dentro, a palavra viria carregada de um contra ataque que ele também já disse conhecer. Falariam que ele está se “vitimizando”.

Enquanto isso a Rede Globo exibe situações de preconceito explicito como “entretenimento” e deixa esse conteúdo rodar nas redes, gerando um número muito alto de engajamento e uma explosão de votos. E esses números conseguidos as custas de um assunto tão sensível e delicado para o João e outros milhares de telespectadores, será usado nas planilhas da emissora para conseguir dinheiro de patrocinadores para as próximas semanas.

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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