A emissora contratou a apresentadora para liderar um programa para público LGBTQIA+. Ela foi demitida por defender o uso do banheiro feminino para pessoas transexuais. Imagem acima, reprodução das redes sociais.

Por Leanderson Lima

Um flagrante caso de transfobia veio à tona quando a DJ, modelo e apresentadora Ariana Paes recorreu às redes sociais para denunciar o episódio. Escalada pela TV Maskate para apresentar o “Sala Vip”, programa justamente voltado ao público LGBTQIA+, Ariana defendia as convidadas drag queens e transexuais que se sentiram agredidas com comentários repressivos por usarem o banheiro feminino dentro da emissora, sediada em Manaus. Ao procurar a empresa, em vez de respeito, ela foi constrangida e demitida.

O episódio aconteceu na última quarta-feira (9). Depois de gravar dois programas na emissora, Ariana Paes, de 24 anos, revelou que começou a ouvir comentários sobre suas convidadas, drags e transexuais. “Chegou até mim que os homens (da emissora) não estavam gostando muito da nossa presença no banheiro feminino. O comentário foi para as minhas convidadas, que estavam dentro do banheiro”, lembrou Ariana, que se queixou à direção da emissora. 

Antes da gravação do terceiro programa, ela foi chamada para uma reunião com um dos produtores da emissora, conhecido como Allan. “Na reunião, ele (Allan) falou que entraram num consenso. Disse que, pelos comentários, nossa presença no banheiro feminino causou desconforto, e que a empresa tinha decidido que não poderíamos usar mais o banheiro feminino”, desabafou Ariana.

O argumento da empresa, de acordo com Ariana, que atua também como social media, seria que, uma vez que o banheiro fosse liberado para drag queens e trans, gays com características mais masculinizadas, também poderiam se achar no direito de usufruir do espaço.  “Eu disse: eu vou continuar usando o banheiro feminino, porque eu sou uma mulher. Aí eles disseram: ‘É exatamente isso que a gente não quer. Os outros gays vão olhar e dizer: – Se ela pode, eu também posso’”, acusou.

Com o impasse, o gerente da TV, apontado por Ariana como sendo Francklin Moura, partiu para o ataque. Em um vídeo gravado pelo namorado da apresentadora, o gerente travou o seguinte diálogo em tom ríspido com a apresentadora:

  • O teu documento está de Ariana?
  • Estou mudando agora, respondeu a apresentadora. 
  • Então quando você mudar, você pode usar (o banheiro feminino), respondeu Moura.

Na sequência, ele avisa que não haveria mais o programa. 

  • Aqui a regra quem faz é a gente (…) A empresa é nossa. Tu não manda aqui. Tu vai mandar na tua casa.

Depois dessa discussão, Ariana contou que chegou a falar com o dono da TV Maskate, o empresário Miguel Mourão. Ela disse que foi contratada com um cachê de R$ 200 por mês. A emissora recebe recursos públicos da Prefeitura de Manaus. “Ele chegou dizendo que ia resolver a situação, que iam pagar tudo que me deviam, nada mais nada menos do que foi acertado e que eu poderia me retirar”, lembrou. “Eu me senti humilhada. Foi constrangedor. Eu estou cansada de pedir permissão e ter que me explicar até para ir ao banheiro.”

No desabafo para as redes sociais, Ariana prometeu tomar medidas contra a TV Maskate. Para apresentar o programa, vendido ao público como uma iniciativa que contempla a diversidade e a diferença, ela receberia uma espécie de ajuda de custo, no valor de 200 reais mensais. “Até isso tive que implorar para ter. Na cabeça deles (TV Maskate) eles estariam me liberando espaço, estariam me dando oportunidade, porque não sou formada em jornalismo para ter um programa”, contou.

A TV Maskate, de propriedade do jornalista e empresário Miguel Jorge Mourão, é derivada do jornal Maskate News, um tabloide surgido em Manaus, na década de 1990, e que tinha como foco satirizar políticos locais, além da tradicional cobertura policialesca. Carregado de manchetes jocosas, o periódico sempre foi marcado por polêmicas. Já a TV Maskate, transmitida pela internet, é uma aposta mais recente do empresário, que tenta emplacar uma programação popular no YouTube.

Subcidadanização

Ativistas da Assotram na Praça da Saudade em passeata do dia 17 de maio (Foto: reprodução/redes sociais)

Presidente interina da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Estado do Amazonas (Assotram), a historiadora e mestranda da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Michele Pires Lima lembrou que, em 2019,  o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela criminalização da homofobia e transfobia, equiparando-as ao crime de racismo. 

“Se você impede que uma mulher trans, dentro de uma emissora, que está exercendo sua função de trabalho, de não poder usar o banheiro correspondente à sua identidade de gênero, sua auto-identificação, isso é crime. Isso tem que ser combatido em todos os meios, porque nós somos cidadãos, pagamos impostos. Trabalhamos exercendo nossas atividades, estudamos e merecemos sair dessa subcidadanização e existir plenamente”, opinou a historiadora, que também é transativista.

De acordo com dados da Associação Nacional de Pessoas Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil é o País que mais mata pessoas transexuais no mundo. “Infelizmente nós somos os campeões mundiais. A média de vida de uma pessoa trans gira em torno de trinta e cinco anos”, explicou a também professora da Ufam e coordenadora do Laboratório de Estudos de Gênero, Lidiany Cavalcante.

Enquanto uma pessoa trans tem média de vida de 35 anos no Brasil, mulheres vivem em média 76 anos, enquanto os homens vivem em média 74. “São dados assim que mostram o quanto nós temos, não só de preconceito e discriminação, mas de criminalização de pessoas transexuais. Como elas vivem em média 35 anos, infelizmente, garantir o direito ao uso do nome social, garantir o direito a realizar suas necessidades básicas em um banheiro – onde ela é reconhecida por aquele gênero -, é o mínimo que a gente pode fazer”, disse Lidiany.

O debate do banheiro

A questão do uso de banheiro masculino ou feminino por travestis ou transexuais é uma questão antiga. Apesar da decisão da principal Corte do País, que protege a comunidade LGBTQIA+, casos de violência e preconceito, como o que aconteceu com Ariana, se multiplicam e ajudam a perpetuar esse tipo de comportamento.

“Algumas instituições ou pessoas pensam que queremos um terceiro banheiro. Não. Na verdade, o objetivo é fazer com que a pessoa se reconheça pelo gênero que ela se identifica”, pontuou a pesquisadora Lidiany. “Nem sempre o sexo de nascimento diz quem eu sou. Quem diz quem eu sou, é a identidade que eu vou firmando, a partir da perspectiva de um reconhecimento de gênero.”

A reportagem da Amazônia Real procurou o empresário Miguel Mourão, dono da TV Maskate. No jornal Maskate, funcionários deram um número de celular para contato, mas as ligações não foram retornadas. A reportagem entrou em contato por dois endereços de e-mails e ainda deixou recado nas redes sociais do empresário, no Facebook e no Instagram. Até o momento, não houve retorno. Caso o empresário se pronuncie, a reportagem será atualizada. 

Acesse o portal Amazônia Real.

Foto de capa: Reprodução/redes sociais

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Por Amazonia Real

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