“Meu primeiro ato oficial de travestismo foi escrever, antes de sair na rua vestida de mulher”, contou a argentina Camila Sosa Villada em um texto recente.

Com isso, ela queria dizer que ao sentar para criar contos, quando criança, sempre usava a primeira pessoa. E era sempre mulher.

“Entendi depois de muito tempo que já estava sendo travesti aos meus dez, 12 anos. Já fazia esse exercício de escrever como mulher”, diz a autora, para em seguida se corrigir. “Na verdade, como quem eu era.”

O romance que a apresenta ao Brasil, “O Parque das Irmãs Magníficas” também tem muito de quem ela é. O livro mescla a autobiografia “seu processo de ‘transformar numa flor carnuda aquele rapazinho tímido que se escondia sob os modos de um estudioso'” e a fábula, incorporando os traços mais vivos do realismo mágico.

A história de Villada não poupa o leitor da crueza da violência transfóbica, das mortes prematuras de amigas próximas e de uma prostituição nada glamurizada. Mas o relato árduo se mistura ao respiro da fantasia.

Uma das mulheres de seu grupo, surda e muda, aos poucos se torna pássaro; outra das moças é a “sétima filha homem de sua família” e, nas noites de lua cheia, se converte em “lobiscate”; e há um exército de homens sem cabeça que se enfileiram fiéis à Tia Encarna, a matrona das travestis, de 178 anos de idade.

Villada rejeita a hipótese de que teria impregnado uma história real de elementos fantásticos. “O livro se predispõe desde o começo a que aconteçam todas essas coisas. Sobretudo porque a percepção que eu sempre tive das travestis aqui em Córdoba era de que são super-heroínas.”

“Eram mulheres que nunca adoeciam, mesmo ficando peladas metade da noite. Não tinham resfriados. Trepavam nas árvores como gatas para se esconder da polícia. Corriam com saltos altíssimos pelas ruas. Nós fazíamos coisas que nenhuma outra pessoa podia fazer. Essa percepção me está marcada a fogo.”

“O Parque das Irmãs Magníficas”, celebrado pela crítica e premiado na prestigiada Feira Internacional do Livro de Guadalajara, não ignora a marginalização social que atinge as transexuais, mas quer falar também das graças e encantos das amigas que Villada conheceu — e inventou.

É um balanço sintetizado numa das primeiras frases do romance. “Todas as noites, as travestis sobem desse inferno sobre o qual ninguém escreve para devolver a primavera ao mundo.”

A perspectiva das mulheres trans, de fato, ainda se faz pouco presente no mercado editorial. É claro que há exemplos que se destacam — como a paulista Amara Moira, escritora e crítica literária que publica em julho o monólogo “Neca” — , mas o acesso ao mercado livreiro ainda é raro e caminha a passos de formiga, afirma Villada.

“Vamos aos poucos, fazendo o possível”, diz a argentina, que sai neste país pelo selo Tusquets, de uma editora de porte, a Planeta. “Por sorte, cada vez mais publicações independentes estão tomando riscos de publicar autores e autoras trans. Que vendem muito bem, aliás. Creio que o assunto não seja tanto as editoras e sim que as travestis tenham tempo, saúde, vida e energia para sentar e escrever. Isso, sim, é urgente.”

Ela diz que a literatura feita pelas travestis sempre existiu, mas costuma se assemelhar a “escrever sobre areia”.

“É uma escrita que sempre foi oral, feita nos ares, porque as mulheres eram analfabetas, não podiam terminar a escola, não podiam ficar nas suas casas. Então a discussão talvez seja, bom, como fazemos para que mais travestis sobrevivam para contar as histórias que as outras pessoas não veem?”

Afinal, é como diz um trecho de seu romance. “Se alguém quisesse fazer uma leitura de nossa pátria, dessa pátria pela qual juramos morrer em cada hino cantado nos pátios da escola”, escreve a narradora, “deveria, então, ver o corpo da Tia Encarna. Somos isso como país também, o dano sem trégua contra o corpo das travestis. A marca deixada em determinados corpos, de maneira injusta, casual e evitável, essa marca de ódio.”

A literatura de Villada mergulha em autoras como Doris Lessing, Carson McCullers, Marguerite Duras “com quem aprendi a escrever” e Svetlana Aleksiévitch diz que ainda estava sob a sombra de “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” ao escrever sobre estas mulheres “que vivem em um campo de batalha”.

Mas não importa a gama de influências de cada escritora, ainda é verdade que o mercado espera, muitas vezes, que as transexuais falem apenas sobre o que é ser transexual. A autora comenta que foi seu editor que sugeriu que ela contasse mais da própria vida em meio à narrativa das mulheres fantásticas que criou.

Villada diz não se incomodar com isso, mas faz ressalvas. “O que eu faço, se quiser, é falar de uma geração de travestis. Não de todas, não de todos os jeitos de ser travesti, e sim de um tipo particular — aquelas com que eu tive contato, com quem me criei. E que pouco a pouco vão morrendo. Que pouco a pouco desaparecem.”

Sua voz falha, e Villada leva dois dedos aos cantos dos olhos e ergue a cabeça, para segurar lágrimas no lugar.

“Temos essa maldita expectativa de vida, esses 35 anos”, diz a autora, que em breve faz 40 anos. “Então eu falo sobre essas mulheres que já não estão aqui e que são as que me deslumbraram. E me ensinaram a ser, eu também, trans.”

*

O PARQUE DAS IRMÃS MAGNÍFICAS

Preço R$ 49.90 (208 págs.); R$ 21,99 (ebook)

Autor Autora: Camila Sosa Villada

Editora Tusquets

Tradução Joca Reiners Terron

SÃO PAULO, SP

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Por Folha Press

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