Por Talitha Paratela, voluntária da Casa 1.

Março é um mês de celebração das diferenças. Entre os dias que nos lembram das lutas de movimentos sociais por direitos, o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em memória ao Massacre de Sharpeville, que ocorreu no bairro negro homônimo situado em Vereeniging, cidade da África do Sul. Em 21 de março de 1960, foi marcada uma manifestação pelo fim da política de passe, que restringia a circulação da população negra nas ruas. Milhares de pessoas protestaram em frente a uma delegacia de Sharpeville e foram atacadas pela polícia. Foram mortos 69 manifestantes e 180 ficaram feridos.

Na era do apartheid, regime colonialista que durou de 1948 a 1994 na África do Sul, os direitos de negras e negros, majoritários no país, ficaram restritos por políticas que institucionalizavam o racismo e privilegiavam brancas e brancos – boa parte de origem anglo-saxã, pois o Reino Unido colonizou o país até o início do século XX.

Quase 30 anos depois do fim do apartheid, a população negra ainda sofre discriminação racial não somente na África do Sul, mas em todo o mundo. Muitos casos de racismo continuam institucionalizados pelo Estado. A violência policial é um exemplo disso. De acordo com dados de um relatório de 2020 produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 79,1% das vítimas de intervenções policiais são negras, enquanto 20,8% são brancas. Essa disparidade de mortes causadas por uma das principais instituições do Estado é gritante. Além disso, a desigualdade entre as raças ainda é presente nos acessos a oportunidades de estudo e de emprego, nas diferenças salariais e, consequentemente, em outras dimensões sociais, como o direito à saúde e à habitação. E, também, em campos culturais, como o das artes e da literatura.

A literatura negra tem a resistência, que perdura há séculos, como terreno fértil para a construção de narrativas, incluindo a dos povos negros. Nessas narrativas, eles ocupam o seu próprio lugar, marcado por suas perspectivas de vida, repletas de diferenças, mas unidas pelas heranças históricas que atravessam sucessivas gerações. A população negra resiste por meio da literatura, um meio de expressão para as suas vozes, e dentro dela, já que ainda existe uma grande desigualdade entre autoras e autores negros e brancos no mercado editorial. Por isso, neste dia 21 montamos uma lista de livros de escritoras e escritores negros para ter na cabeceira da cama.

1 – “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus foi uma escritora negra, mineira de nascença, que se mudou para São Paulo, onde exercia a atividade de catadora de papéis e morava na Favela do Canindé. Seu livro mais famoso, um diário sobre sua própria vida, é um clássico publicado em 1960, “Quarto de despejo: diário de uma favelada”.

“[…] Despedi-me e retornei-me. Cheguei em casa, fiz o almoço. Enquanto as panelas fervia eu escrevi um pouco. Dei o almoço as criança, e fui no Klabin catar papel. Deixei as crianças brincando no quintal. Tinha muito papel. Trabalhei depressa pensando que aquelas bestas humanas são capás de invadir o meu barracão e maltratar meus filhos. Trabalhei apreensiva e agitada. A minha cabeça voltou a doer […]”. 

2 – “Mulheres, raça e classe”, Angela Davis

Esta obra-prima de Angela Davis examina profundamente o racismo institucionalizado nas sociedades contemporâneas, traçando um percurso histórico da opressão dos povos negros. A autora discute a negritude em intersecção com outros recortes, como o de classe e gênero, e o funcionamento dos mecanismos de controle do Estado para negras e negros.

“[…] As mulheres grávidas não apenas eram obrigadas a realizar o trabalho agrícola usual como também estavam sujeitas às chicotadas que trabalhadoras e trabalhadores normalmente recebiam se deixassem de cumprir a cota diária ou se protestassem com ‘insolência’ contra o tratamento recebido […]”

Leia aqui uma amostra de “Mulheres, raça e classe”, de Angela Davis.

3 – “Na minha pele”, Lázaro Ramos

O livro é uma espécie de autobiografia do ator, em que conta suas histórias e debate questões contemporâneas como a diversidade. Ele convida seus leitores e leitoras a vestirem a sua pele e entrarem em seu universo particular.

“[…] Ter passado a conviver com pessoas que não refletiam sobre o racismo no seu dia a dia me fez buscar argumentos para inserir esse tema nas conversas. Queria que elas percebessem o que para mim era tão claro. Queria dividir sem medo minha sensação de entrar num restaurante e ser o único negro no lugar. Queria mostrar as riquezas da cultura afro-brasileira, da qual eu tanto me orgulho e que é tantas vezes ignorada […]”.

Leia aqui uma amostra de “Na minha pele”, de Lázaro Ramos.

4 – “Negritude: usos e sentidos”, Kabengele Munanga

Kabengele Munanga é um antropólogo nascido na República do Congo e radicado no Brasil. Professor e pesquisador, construiu sua carreira acadêmica investigando o tema das identidades e diferenças, especialmente, da negritude. Este livro discorre sobre a construção das identidades negras no Brasil em vista da história dos povos africanos, observando suas mudanças diante de diferentes contextos e da influência da colonização, das diásporas e da assimilação cultural.

“[…] Se o processo de construção da identidade nasce a partir da tomada de consciência das diferenças entre ‘nós’ e ‘outros’, não creio que o grau dessa consciência seja idêntico entre todos os negros, considerando que todos vivem em contextos socioculturais diferenciados […]”. 

5 – “Pequeno manual antirracista”, Djamila Ribeiro

Este livro discute como o racismo está enraizado nas estruturas sociais e presente nos grandes e pequenos atos do dia a dia. O manual também mostra como o racismo se confunde com a história do Brasil e traz importantes reflexões de como a população negra vivencia as várias formas de opressão.

“[…] Desde cedo, pessoas negras são levadas a refletir sobre sua condição racial. O início da vida escolar foi para mim o divisor de águas: por volta dos seis anos entendi que ser negra era um problema para a sociedade […]”.

Leia aqui uma amostra de “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro.

6 – “A origem dos outros: seis ensaios sobre racismo e literatura”, Toni Morrison

Ganhadora do Nobel de Literatura e do Pulitzer, Toni Morrison analisa grandes clássicos da literatura para compreender como o racismo se instaura neles, como a negritude é representada e como se constroem as identidades raciais. 

“[…] Porém, a tendência dos humanos de separar aqueles que não pertencem ao nosso clã e julgá-los como inimigos, como vulneráveis e deficientes que necessitam ser controlados, tem uma longa história que não se limita ao mundo animal nem ao homem pré-histórico. A raça tem sido um parâmetro de diferenciação constante, assim como a riqueza, a classe e o gênero, todos relacionados ao poder e à necessidade de controle […]”.

Leia aqui uma amostra de “A origem dos outros: seis ensaios sobre racismo e literatura”, de Toni Morrison.

Foto de Capa: Wikimedia Commons

Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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