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Coletivo de Artistas Transmasculines: ‘A nossa luta é primeiro por visibilidade’

Coletivo de Artistas Transmasculines: ‘A nossa luta é primeiro por visibilidade’

 Por Caê Vasconcelos, para Ponte Jornalismo

Coletivo idealizado por Leo Moreira Sá e Daniel Veiga reúne mais de 50 artistas para afirmar: “as transmasculinidades não serão mais apagadas”

O CATS (Coletivo de Artistas Transmasculines) começa a sua carta-manifesto em vídeo apresentando suas intenções sem rodeios: “As transmasculinidades não serão mais apagadas no meio artístico”. Idealizado por Leo Moreira Sá, 56 anos, artivista, ator, dramaturgo, designer de luz e jornalista, e Daniel Veiga, 39 anos, dramaturgo, ator e diretor, o coletivo nasce para visibilizar homens trans e pessoas transmasculinas das artes.

Foi em 2017, no lançamento do manifesto ‘Representatividade trans já’, assinado por Leo Moreira Sá, Renata Carvalho, Leona Jhovs, Ave Terrena e outras pessoas trans e travestis, que Leo percebeu a necessidade urgente de corpos transmasculinos no mundo artístico.

Na ocasião, atores e atrizes trans e travestis se uniram para pedir o fim do transfake, quando pessoas cisgêneras (que se identificam com o gênero de nascimento) interpretam personagens trans em peças teatrais, em novelas e nos cinemas. O estopim foi a peça “Gisberta”, de Luis Lobianco, em que o ator cisgênero interpreta a transexual brasileira brutalmente assassinada em 2006 em Portugal.

Historicamente, pessoas trans não ocupam os papeis de personagens trans, no Brasil e no mundo afora. Para citar alguns exemplos, nos EUA, Hilary Swank, atriz cisgênera, viveu o homem trans Brandon Teena em “Meninos não choram” (1999). No Brasil, vimos a atriz cis Carol Duarte interpretar Ivan, homem trans da novela “A Força do Querer” (2016).

“De lá para cá, o que eu comecei a perceber que a grande dificuldade era de artistas transmasculines, que as mulheres estavam conquistando o seu espaço, bem aquém do que é de direito, mas estão mais a frente”, conta Leo em entrevista à Ponte.

Leo lembra que a resposta padrão dada é que não existiam artistas transmasculinos. “A Glória Perez [autora da novela ‘Força do Querer’] disse que fizeram vários testes e não acharam um ator transmasculino. Ainda teve aquela frase antológica de que ‘não é porque uma pessoa é trans que ela tem talento para interpretar um personagem trans’”.

À Ponte, Daniel Veiga rebate o argumento da autora e aproveita para mostrar para que o CATS surge: “Ninguém tá pedindo espaço, não queremos que cis dê nada pra gente. A gente não precisa disso. É um levante, uma tomada de espaço porque é direito nosso”.

“Estamos aptos para trabalhar tanto quanto qualquer um. Não existe essa de não tem talento. A gente tem formação, eu tenho um puta currículo atrás de mim, o Leo também, assim como as mulheres trans estão na luta também”, argumenta Daniel.

O ator e dramaturgo também reforça que pessoas trans, e negras, não tem o direito à “mediocridade”. “Nunca podemos ser menos do que excelente. Quando a pessoa é branca e cis ela pode ser meia boca, ela pode estar ali para aprender. Mas quando a pessoa é trans ou preta ou trans e preta ela tem que ser medida na régua mais alta”, critica Daniel.

Foram com essas e outras demandas que a dupla sentou no começo de 2020, antes da pandemia, para começar a desenhar o que já está se tornando história. De dois, o grupo passou para 30 e, após a divulgação do teaser da carta-manifesto, divulgada em 17 de agosto, já contabiliza mais de 50 membros de “todas as gerações”. A carta completa foi divulgada em 4 de setembro.

O coletivo reúne artistas que reivindicam diferentes identidade dentro do espectro trans: homens trans (identidade de gênero que não se identifica com o gênero de nascimento e reivindica o gênero masculino), transmasculinos (identidade de gênero que não se identifica com o gênero de nascimento, reivindica o gênero masculino, mas não reivindica o uso da palavra homem) e transmasculines (identidade não-binária que não reivindica o gênero masculino, mas sim o gênero neutro).

Os segmentos também são múltiplos: das artes cênicas, do cinema, da música, do circo, das artes plásticas. Entre os integrantes do coletivo, estão Lino Arruda, quadrinista, Rosa Caldeira, cineasta, Kaique Theodoro, cantor e ator, Tiely, multi-artista e historiador, Juno Nedel, artista circense, Fernando Aquino, performer e artista visual, e Lyam S, artista plástico e poeta. A lista completa pode ser vista no Instagram do CATS.

“O que faltava era um canal que reunisse todos esses artistas e trouxesse para a visibilidade. A prova de que nós éramos invisíveis é o fato de que nós não nos conhecíamos. O nosso medo era não encontrar artistas transmasculines, agora somos 50 artistas”, comemora Leo.

“A gente não se conhece, não só entre artistas, mas homens trans no geral. Dos 34 anos para cá, eu conheci um número mínimo de homens trans e transmasculines de uma forma em geral”, completa Daniel.

Daniel Veiga (à esq.) e Leo Moreira Sá (à dir.) são cofundadores do CATS (Coletivo de Artistas Transmasculines) | Fotos: Reprodução

Quando sentou para conversar com Leo, Daniel percebeu que os dilemas que enfrentava no mundo artísticos também eram vivenciados pelos dois. “Eu comecei a perceber que ser trans tava chamando mais atenção do que o meu trampo como ator”, define.

“Quando tinha um personagem com o meu perfil, casting de um homem negro de 30 a 40 anos, ninguém me marcava, porque não tinha a palavra trans. Em compensação tiveram dois testes que eram pra mulheres trans que me marcaram”.

A nossa primeira ação do coletivo, contam os fundadores, foi se firmar enquanto coletivo e lançar carta-manifesto, em que todos artistas contribuíram. “Primeiro a gente afirma porque a gente existe, nascemos com esse incômodo com a invisibilização, com o apagamento do corpo transmasculine e com o sequestro das nossas narrativas”, explica Daniel.

“Por sequestro, eu digo que temos a retomada das nossas narrativas sempre pelas mesmas pessoas: uma minoria cis, branca e heteronormativa, independentemente de serem LGBTs ou não, mas que reproduzem o padrão heteronormativo de vivência. São sempre as mesmas pessoas que estão contando as nossas histórias”, continua.

“A nossa luta é primeiro por visibilidade, antes de qualquer coisa. Mas a representatividade tem que caminhar em paralelo. Para que a gente tenha pelo menos essa fina fatia do mercado de personagens trans”, completa Leo.

O segundo passo é estruturar a forma como artistas transmasculinos vão produzir artistas transmasculinos e tornar o coletivo uma referência.”Já tem produtor fazendo teste com pessoas do coletivo. Estou fazendo uma lista de atores e performance para fazer vídeos-testes”, conta Leo.

“Nós podemos, entre nós, nos convocar para trabalhos. Hoje, se eu preciso de um ator trans, eu não preciso procurar pessoas no Facebook como pessoas cis fazem. Eu chamei o Leo para fazer um personagem que nem é trans, porque não precisa ser trans ou cis para fazer esse papel, precisa mandar bem”, completa Daniel.

A partir daí, a ideia é lutar por políticas públicas e criar histórias transmasculinas. “Estamos criando um canal no nosso YouTube em que alguns dos membros vão trazer histórias de homens trans e transmasculines, não necessariamente artistas, que vieram antes da gente, porque não existe histórico sobre a transmasculinidade. A gente conhece o João Nery e ponto”, finaliza Daniel.

 

Jorge é o Social Media da Casa 1, um centro de acolhida e cultura LGBT, onde faz a produção de conteúdos e cuida das redes sociais da mesma. Formado em Jornalismo na Universidade Anhembi Morumbi, atuou como estagiário de Análise de BI trabalhando para diversas marcas e é LGBT e surdo.
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