A Rede Globo sempre foi muito falha no campo da representação da comunidade LGBT+ e de outras lutas de grupos minorizados e isso não é novidade para ninguém. Um reflexo do endeusamento de seus autores e autoras, a emissora passou anos sem uma oxigenação do seu quadro dos e das que escrevem as tramas, em especial no horário das 21h, que em geral, acumulam a maior audiência do canal. 

Mas avanços foram feitos, enquanto as outras emissoras como SBT, Record e Bandeirantes vivem praticamente na mesma estrutura dos anos 90, não só na produção de telenovelas mas em suas grades de entretenimento e jornalismo: branquíssimas. Já a rede carioca, dá seus passinhos para frente, sempre naquele esquema um pra frente e três pra trás, mas pelo menos tenta. 

Mas aí veio a pandemia, todas as gravações foram corretamente suspensas e restou à Globo recorrer aos seus arquivos. Ainda que os números variem bastante, inclusive com muito sucesso como foi o caso da reprise de “Fina Estampa”, não resta nenhuma dúvida de que a emissora vai precisar de um trabalho extenso nas produções pós pandemia para conseguir resolver o estrago que as reprises vem fazendo.

Um estrago silencioso e inconsciente diga-se de passagem. A audiência está cada vez maior, mas o cansaço também, o medo do Covid, a recessão econômica, o pavor paralisante de um governo genocida, atrelado ao fato de que já gritamos e sinalizamos da primeira vez que as tramas foram exibidas, faz com que as manifestações sobre as asneiras revistas passassem quase batido, mas isso não significa que a imensa população que está acompanhando as tramas não esteja absorvendo e internalizando aqueles preconceitos todos. 

Depois de trazer de volta o terrível Crô em “Fina Estampa” e as equivocadas e transfóbicas representações da população trans em “A Força do Querer”, teremos agora que acompanhar toda a homofobia destilada e representada por Téo Pereira (Paulo Betti), a transfobia encarnada no transfake de Xana Summer (Ailton Graça) e a heteronormatividade de Claudio (José Mayer). 

Ainda que a trama de José Mayer tenha trazido na época debates interessantes sobre escolhas de vida e as várias camadas de aceitação que um homem gay pode estabelecer para si e a reação do filho homofóbico, a condução sempre equivocada de Agnaldo Silva fez com que a sua história acabasse boba e sem sentido, com direito à um amante interpretado por Klebber Toledo chegando a viver em situação de rua por alguns capítulos só para representar o que ele considera “o fundo do poço”, da vida de uma pessoa.

José Mayer e Klebber Toledo em cena de “Império”

Agnaldo por sua vez é daquelas figuras que tampouco é possível se entender. Escritor de mão cheia, foi responsável por grandes novelas, até a melhor delas na minha opinião, “Tieta”, exibida em 1989, foi também colaborador do “Lampião da Esquina”, publicação fundamental para o estabelecimento da comunidade LGBT no Brasil, mas resiste até hoje a encarar seus preconceitos. Sua derradeira trama na Globo, o “Sétimo Guardião”, exibida recentemente, em 2018, foi talvez o maior desserviço da sua carreira ao trazer Nany People interpretado uma personagem trans que era chamada pelo nome de batismo.   

Se outros autores e autoras erram ao tentar fazer o certo, como é o caso de Gloria Perez e o Manoel Carlos antes de sua aposentadoria em 2014, Agnaldo parece gostar de insistir no erro, assim como Walcyr Carrasco, outro recordista em representações equivocadas. Ambos inclusive recorrentemente comparam os apontamentos dos movimentos sociais à repressão da ditadura militar e usam termos como “politicamente correto”, provas que não estão entendendo nada. 

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Por Iran Giusti

Iran Giusti é formado em Relações Públicas pela FAAP, atuou como gestor de redes sociais e gerente de projetos em agências de RP e Social Mídia e como jornalista foi repórter do canal de conteúdo LGBT do Portal iG e do BuzzFeed Brasil. Atualmente se dedica a gestão da Casa 1, um centro de acolhida e cultura LGBT e produção de conteúdos em que acredita.

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