Mesa da V Semana de Visibilidade Lésbica trouxe debates sobre a saúde sexual de pessoas sáficas
A saúde sexual de pessoas sáficas ainda envolve estigmas e desafios. Além do preconceito e da falta de informações, há outros obstáculos cotidianos, como a fetichização, barreiras nos serviços de saúde e o despreparo de profissionais.
O I LesboCenso Nacional apontou que 25% das mulheres lésbicas sofreram discriminação durante consultas ginecológicas. Pensando em ampliar esse debate aconteceu, na terça-feira (01), o “Inventário de técnicas reais de proteção e cuidado”, mesa que integrou a V Semana de Visibilidade Lésbica da Casa Um.
O objetivo da conversa foi entender que a saúde sexual de pessoas sáficas envolve cuidados específicos de prevenção, combate a mitos sobre infecções e a busca por atendimento acolhedor, longe dos ditames da cisheteronormatividade.
Para a médica ginecologista, Dra. Marcela Mc Gowan, pensar em prevenção passa por desmistificar a ideia ou história de que não existem riscos de transmissão de ISTs em relações entre vulvas e que é necessário falar sobre elas para que seja possível pensar em prevenção e cuidado.
“A gente sabe que existem algumas ISTs sim, que trazem alguns riscos e outras que a gente tem riscos diminuídos. E a gente tem um risco não tão intenso quando a gente não tem penetração. O HIV é uma coisa e hepatite são coisas que a gente tem menos risco como a gente não tá com a penetração. Existe um risco mas ele é muito menor sem a penetração. É sempre chato falar dessa parte. Mas a gente precisa falar porque são coisas que existem e a gente tem como prevenir e cuidar. Então, a gente tem HPV, sífilis, gonorréia a, a gente tem herpes, a gente tem outras ISTs que fazem parte do universo e sim passam pelo contato de secreção, pelo contato entre mucosas, ou pelo contato às vezes da pele, como é o caso do HPV, que você às vezes não precisa ter nem contato com as pessoas, já tem ali essa transmissão”, disse.
Outro ponto destacado por Mc Gowan diz respeito à uma maior ampliação desses debates, que não acontecem de maneira recorrente, principalmente na academia. “Nem na medicina, nós aprendemos a falar de prevenção. Eu só aprendi a orientar uma mulher no consultório. Nós não temos discussões sobre prazer e, muitas vezes, ela é deixada de lado. Deveria ser uma obrigação que todas as faculdades falassem sobre gênero. E isso é uma negligência e acho que a gente tá falando aqui da prevenção que é uma das maiores negligências, porque assim, a medicina ela é cis e pronto acabou, entendeu? E E o corpo masculino cis é padrão de referência para tudo e qualquer outra coisa diferente disso é o desvio da norma ali ”
Para a psicóloga e diretora da Clínica Social da Casa Um, Fernanda Farias, precisamos desconstruir o prazer apenas como um lugar de prevenção e privação, pensando na pluralidade dessas vivências.
“O sexo para estes corpos tem essa finalidade. Então, você não quer ser produtiva, então tá bom, então a gente tem uma prevenção contraceptiva. E aí, se eu não tenho uma relação que vai ser reprodutiva e eu não tenho risco de contracepção, parece que tira da mesa. Então, eu não tenho nenhuma possibilidade de vivência dessa sexualidade, então é algo que que reflito muito é quando a gente conversa sobre o prazer da mulher. E qualquer relação, né, com outra mulher, com pessoas trans, em relações cis. Como que a gente fala sobre o prazer?O que é o prazer dessas mulheres? O que é o prazer desses homens? E quais são os cuidados quando conversamos sobre o prazer? Sexo é mais que penetração e o consentimento e o prazer tem que estar presentes”.
Fernanda também pontuou que precisamos pensar outras formas de prazer, como o sexo anal, ainda muito centrado na vivências de homens gays. Além disso, foi explicado os sexys toys e como eles podem ser ferramentas de prazer para além do convencional.
“Parece que o sexo anal só pertence ao homem gay. A gente está há um tempo falando sobre prevenção e práticas, e o ânus não apareceu — mas ele existe também nessa prática. A gente toma cuidado com a vagina, que costuma ser o foco principal, mas e com o ânus, quais são os cuidados? Não vai ser necessariamente um pênis, vai ser uma mão, uma boca, um sex toy O ânus tem coisas específicas para a gente pensar. Segue o mesmo risco, talvez até um pouco aumentado, mas uma coisa que ajuda muito na prevenção é o lubrificante. Ele diminui o atrito, principalmente em práticas penetrativas. No ânus, ele é essencial porque não há lubrificação natural, então precisamos do lubrificante para diminuir o atrito, embora o ânus também seja uma fonte de contaminação.”
Marcela também destaca que a falta de conscientização e educação sobre o próprio corpo afeta diretamente a saúde física e mental das mulheres. E isso pode se transformar em algo não consentido. “É bom saber que existe, é legal a gente ter consciência para conseguir educar e trabalhar com comunicação. Respeito pelo nosso corpo. Mas, acho que como mulher falta muito a gente aprender a respeitar o próprio corpo. A gente não aprende a respeitar o corpo e aprende a ceder ou fazer sexo meio sem vontade, sem respeitar os nossos limites. Um bom passo de prevenção é o quanto de autoestima a gente tem para dizer ‘não’ para as coisas que a gente não está a fim de fazer, o que faz muito parte da nossa prevenção mental e física.
Fernanda retorna e finaliza enfatizando que precisamos pensar nos corpos como detentores de prazer e autonomia. Diante de uma sociedade construídas a partir da cisheteronormatividade e daquilo que é desejável, palavra autonomia pe importante para construir as relações sexuais e afetivas.
“O quanto a mulher, ela pode ser aquilo que deseja e não aquilo que é desejado. Quando ela vira só aquilo que é desejado, aí a gente entra na discussão. Quais corpos são desejados? É o da mulher reprodutiva, é o da mulher dentro de um padrão, realmente da mulher de branca, dentro de uma série de construções. Quando a gente fala deste corpo, destes corpos variados desejando, então é este corpo que vai dizer: “Eu quero e eu não quero. Não tô afim disso aqui. Eu quero isso aqui. Aqui gosto. Não, vai mais para cá, vai mais para lá, né? De ser detentora desse lugar, é de ser detentora desse prazer.”