Por Mariana Penteado, psicóloga formada pela USP. Atua nas áreas clínica e social. Colabora com o Centro de Acolhida e Cultura Casa 1 no Grupo de Trabalho de Saúde Mental e na Clínica Social Casa 1. 

Diante do avanço da lógica manicomial financiada pelo Estado, faz-se necessário relembrar o “Dia Nacional da Luta Antimanicomial”. A data, 18 de maio, reforça a importância do combate à exclusão, negligência, violências e cerceamento de direitos de pessoas em sofrimento psíquico.

A lógica manicomial é essencialmente racista, classista, machista e LGBTfóbica e faz parte, portanto, do compromisso do combate a esses problemas estruturais e a necessidade de se posicionar a respeito da reforma psiquiátrica.

Nesse sentido trazemos para vocês alguns conteúdos que podem ajudar na compreensão dos processos relacionados à luta contra o encarceramento físico e simbólico da loucura e da diferença, visando estabelecer parâmetros de cuidado em liberdade:

[DOSSIÊ] “ALOKA! comentando histórias sobre a patologização das vidas LGBTQIA+

Este dossiê foi pensado a partir do trabalho exercido na área de Saúde Mental da Casa 1. Enquanto o campo da saúde mental de maneira geral é bastante marcado pelas conquistas da Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica – ainda que estas precisem ser constantemente defendidas e reiteradas -, quando olhamos para discussão da intersecção entre essa área e as vivências LGBTQIA+, o cenário é de um apagamento das discussões críticas com relação às intervenções psiquiátricas e psicológicas, à tutela e à dependência da clínica. Como criar modos de atuação que sejam pautados pela autonomia e pelo acolhimento a vivências plurais? O dossiê pode ser baixado aqui.

Podcast 451MHz Especial: Stella do Patrocínio e a loucura no Brasil

A história de Stella do Patrocínio, mulher negra e pobre que ficou 30 anos num manicômio, é a história de milhares. Sua poesia, conhecida em livro após sua morte, foi tirada dos seus falatórios, gravados nos anos 80. Neste episódio especial, vamos ouvir a voz de Stella e descobrir outras abafadas dentro dos manicômios do país.

Holocausto Brasileiro (livro – 2013/filme – 2016)

O livro de Daniela Arbex conta os maus-tratos e o genocídio acontecido no Hospital Colônia de Barbacena que resultou em 60 mil mortes. Em 2016 o livro foi transformado também em um documentário. Para além da reconstrução da narrativa do genocídio por parte do Estado, os depoimentos de sobreviventes e ex-funcionários permitem traçar uma história de responsabilidade social e histórica.

Doença entre parênteses (curta – 2015)

Partindo do mote do psiquiatra italiano Franco Basaglia sobre a necessidade de colocar a conceitualização da doença entre parênteses para permitir a escuta do sujeito, o curta reúne depoimentos de usuários de saúde mental e profissionais a respeito de cultura, liberdade e política.

Luta Antimanicomial e Feminismos: Discussões de Gênero, Raça e Classe para a Reforma Psiquiátrica Brasileira (livro – 2017)

O livro analisa as estruturas patriarcais e racistas subjacentes aos processos de saúde mental, a partir de análises do processo histórico do tema mulheres e loucura. As autoras Rachel Gouveia Passos e Melissa de Oliveira Pereira articulam nos planos teórico e político os aportes dos feminismos interseccionais para pensar a reforma psiquiátrica. Traz uma visão a respeito da luta antimanicomial para além de uma estratégia de saúde pública ao lidar com o campo da saúde mental. Expande a compreensão para a crítica da lógica higienista e de controle dos corpos diferentes, localizando a lógica manicomial não apenas dentro das estruturas dos manicômios, mas como um modo de pensar as diferenças.

Olhar de Nise: A Psiquiatra das Imagens do Inconsciente (documentário – 2015)

O documentário reúne entrevistas de Nise da Silveira, pacientes e profissionais que trabalharam com ela em seus ateliês artístico e terapêutico que são referência mundial na abordagem humanizada em saúde mental. Entre outros pontos, o filme mostra também a perseguição política que Nise sofreu.

Arquivos da Ocupação Nise da Silveira (exposição do Itaú Cultural em 2017/2018)

Para quem quiser acessar mais conteúdo sobre o trabalho de Nise, o Itaú Cultural mantém um acervo de textos e imagens que pode ser acessado neste link.

Bicho de Sete Cabeças (filme – 2001)/ Baseado no livro Canto dos Malditos (1990)

O livro autobiográfico de Austregésilo Bueno inspirou o filme dirigido por Laís Bodanzky e fala sobre as suas vivências de um jovem que é interpretado como dependente químico pelos pais ao encontrarem um cigarro de maconha e é internado em um hospital psiquiátrico. Tanto o livro como o filme analisam os processos de institucionalização e violência sofridos pelos pacientes.

Você pode alugar no Now neste link.

Estamira (documentário – 2004)

O filme retrata a história e os discursos de Estamira, uma mulher que viveu e trabalhou durante décadas em um aterro sanitário do Rio de Janeiro. A narrativa se debruça sobre o sofrimento da mulher negra, amarrando os temas de violências de gênero, loucura e vulnerabilização.

O documentário pode ser assistido de graça no Libreflix uma plataforma de streaming colaborativa com produções independente.

Relatório de inspeção em comunidades terapêuticas

Para quem quiser ver um relato sobre a necessidade e a atualidade do debate antimanicomial no Brasil, o relatório disponibilizado no site do Conselho Federal de Psicologia permite ver um panorama denunciando os abusos dos dispositivos de comunidades terapêuticas. O relatório pode ser lido aqui.

 

[ARTIGO] O QUE É O REVOGAÇO?

Artigo escrito por Lívia Lourenço Dias (Clínica Social Casa 1), Pamela Michelena (Grupo de Trabalho Jurídico da Casa 1) e Mariana Penteado (Grupo de Trabalho de Saúde da Casa 1)

Podcast “Que Crime foi esse?” Ep. 35 Hospital de Barbacena

No 35º episódio do Que Crime Foi Esse? nós contamos a história do Hospital Colônia de Barbacena, um dos maiores manicômios brasileiros e o responsável por uma tragédia tão grande que ficou conhecido como o holocausto brasileiro.

Aurora: memórias e delírios de uma mulher da vida

Nascida em 1896 em São José dos Campos, Aurora Cursino dos Santos foi prostituta, tentou ser doméstica, viveu em albergues até ser internada no Complexo Psiquiátrico do Juquery, em 1944. Lá, ela criou uma obra pictórica de mais de 200 quadros.

Podcast 451 MHz EP. 49 “Vozes do Hospício”

Que histórias e formas se escondiam atrás dos hospícios? A jornalista Patricia Campos Mello e a historiadora Silvana Jeha conversam sobre a pioneira do jornalismo investigativo Nellie Bly, que se infiltrou em um hospício feminino em Nova York no fim do século 19, e Aurora Cursino dos Santos, artista e prostituta que foi internada no Hospital Psiquiátrico do Juqueri nos anos 40, em São Paulo.

*Em 2020, a Casa 1 recebeu o Prêmio Carrano de Luta Antimanicomial e Direitos Humanos. O Prêmio recebe o nome de Austregésilo Carrano Bueno, dramaturgo e escritor que se empenhou durante toda a vida pelo fim dos manicômios no Brasil. Criado em 2009, o Prêmio Carrano de Luta Antimanicomial e Direitos Humanos tem como objetivo dar continuidade à luta de Carrano por uma mudança nas condições de tratamento de pessoas em sofrimento mental e a Lei da reforma Psiquiátrica no Brasil, da qual Carrano foi um dos maiores defensores e crítico.

Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

One thought on “Livros e filmes para entender a importância da Luta Antimanicomial”
  1. […] Os manicômios, enquanto instituições, trazem em si a lógica do isolamento e do encarceramento da diferença. A internação manicomial foi sempre pautada pela perda de direitos e pela violência: para além da privação de liberdade e da perda da centralidade em sua própria história, as pessoas eram (e ainda são) submetidas a torturas e violências diversas. O trabalho da jornalista Daniela Arbex, em seu livro “Holocausto Brasileiro”, traz um relato detalhado das violações de direitos humanos e do genocídio acontecido no Hospital Colônia de Barbacena, que resultou em 60 mil mortes (para conhecer mais livros e filmes sobre a questão antimanicomial, clique aqui). […]

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