Mestre em História Social, lésbica e ativista LGBTQIA+, Marisa Fernandes nasceu em 1953, na cidade de Santo André, no ABC Paulista, e se entendeu lésbica muito jovem. Por falta de representação e, principalmente, informação, não sabia nem que a palavra lésbica existia. “Quando me descobri lésbica, não sabia bem o nome do que eu era, eu era muito jovem e devido à época em que isso ocorreu, as únicas coisas que circulavam sobre quem se relacionava afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo era que isso era uma aberração, uma imoralidade, doença, pecado”, relatou a historiadora em entrevista por e-mail.

Sua família não aceitou sua orientação sexual e afetiva. Por muitos anos, ela foi duramente castigada, agredida e ameaçada. Mas, em 1971, ao completar 18 anos, Marisa fugiu de casa para o subúrbio do Rio de Janeiro.  Aos pais ela disse que só retornaria para a casa se pudesse manter o namoro com a garota por quem ela era apaixonada, desde os 15 anos, sem ser incomodada. E, surpreendentemente, assim aconteceu. “Foi muito difícil, mas poderia ter sido ainda pior, sempre pode”.

O seu envolvimento com o ativismo aconteceu quando foi a um evento promovido pelo movimento estudantil da USP, instituição em que Marisa estudava. Ela não encontrou espaço para as pautas lésbicas na esquerda, no movimento hétero feminista e também entre grupos de homens homossexuais. Em uma tentativa de elucidar as questões que afetavam as mulheres lésbicas, ela e outras ativistas fundaram dentro do SOMOS (Grupo de Afirmação Homossexual), um coletivo para discutir apenas as questões referentes a mulheres lésbicas, o GLF – Grupo Lésbico Feminista, e desde então sua militância não parou.

Para a Casa 1, Marisa falou sobre sua militância durante a ditadura militar, a contribuição histórica do boletim ChanacomChana para o movimento LGBTQ+ e os avanços das pautas de mulheres lésbicas nos últimos anos. 

Como foi ser uma mulher lésbica e militante durante a ditadura?

Viver sob um governo ditatorial é absolutamente difícil para toda população, não reacionária e conservadora, de qualquer país. O sofrimento é diário porque a única sensação que se tem cotidianamente é o medo. É assustador. 

Nós, ativistas que iniciamos dentro do primeiro grupo organizado de homossexuais no Brasil, o SOMOS, em 1979 vivíamos em plena Ditadura, morríamos de medo de ser atacados, medo de fazer nossas reuniões semanais. A censura era severa. O único veículo de informação, que pela primeira vez tratou a homossexualidade de forma responsável e positiva, foi o Jornal Lampião da Esquina e seus editores sofreram sérias perseguições. 

Posso dizer que nós tivemos que criar tudo, não haviam cartilhas, nos baseávamos em Stonewall e em experiências  estrangeiras, mas essas não eram divulgadas por aqui, devido à censura. Foi assim. Tivemos que desmontar as falsas verdades de que ser homossexual era pecado, era doença. Apenas o nosso potencial desejo homossexual era a ferramenta que tínhamos e usávamos para subverter a ordem.

Nosso discurso era contra a “caretice”, era nosso agente transformador. Nossa existência era vitimizada por constantes violações dos nossos direitos fundamentais e pela garantia de toda impunidade dessas violações. Nossas vidas eram ameaçadas por sermos contrários à heterossexualidade compulsória e androcêntrica.

Seguimos em Resistência.

O Boletim “ChanaComChana” mudou de alguma forma as relações e a organização das mulheres lésbicas na época? Se sim, de que forma?

O exemplar número 1 do Boletim ChanaComChana foi lançado em janeiro de 1983 pelo Grupo de Ação Lésbico Feminista – GALF. Ele era bimestral, portanto, 6 exemplares ao ano. Era vendido nos bares e boates frequentadas por lésbicas, em São Paulo.

O exemplar número 2 trazia a oferta de Assinatura anual, cujo cheque deveria ser encaminhado ao endereço da sede do GALF.

O primeiro Grupo de Lésbicas organizadas, ainda dentro do SOMOS, foi o LF – Grupo Lésbico Feminista, que se tornou um grupo autônomo, quando se retirou do Grupo SOMOS, que era um grupo misto, em maio de 1980. O LF existiu até 1981. Depois se transformou no GALF, que terminou em 1990. Ambos foram bastante conhecidos em várias cidades e estados pelo Brasil, desta forma, para além dos bares e boates lésbicas da capital de São Paulo, onde o boletim era vendido. Muitas lésbicas do país também o conheciam, eram assinantes, participavam do Boletim e escreviam muitas cartas para os dois grupos, o que certamente as fortaleciam, muitas afirmavam que agora sabiam que não eram as únicas, que não estavam sozinhas. Então eu digo que sim, o Boletim mudou as formas de relações.

Quanto à organização de grupos formados só por lésbicas, o grande crescimento se dará na década de 1990. Alguns dos grupos formados foram: CFL – Coletivo de Feministas Lésbicas, Um Outro Olhar, Deusa Terra, Afins, Grupo Lésbico da Bahia, Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro, Grupo D’Ellas, Associação de Lésbicas de Minas – Belo Horizonte.

A existência de grupos organizados e com publicações, anteriormente, como o CHANACOMCHANA, o Iamaricumas, Boletim Xereca, Grupo Gaúcho de lésbicas Feministas (RS), certamente foram influenciadores de novas organizações Lésbicas, que foram se fortalecendo de tal forma que decidiram realizar um Seminário Nacional exclusivamente para lésbicas, deixando, portanto, de participar de Encontros Nacionais mistos. Em 1996 [estes grupos] realizam o I SENALE, no RJ e é nele que surge o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica – 29 de agosto. É lindo não é?

Os SENALES se tornaram bienais e existem até a atualidade. O dia 29 de agosto de cada ano vem crescendo em visibilidade e ações de luta e celebração.

Quais as principais diferenças que você observa para as pessoas que se identificam como lésbica hoje em dia em relação à sua juventude? 

O aumento da visibilidade da nossa existência; acesso a informações; existência de sites, blogs, grupos organizados, redes nacionais. Alguns direitos civis conquistados.

Quero ressaltar que o aumento da visibilidade, por exemplo, com as paradas do Orgulho LGBTQI+, traz também o aumento da violência. O Brasil é o país que mais mata, no mundo, transexuais e travestis. O número de assassinatos de lésbicas aumentou significativamente no Brasil, sendo o Estado de São Paulo o que mais mata, por lesbocídio. Então, muitas ações ainda devem ser feitas para combater estas violências e garantir nosso direito à vida.

Ter um fácil acesso a informações sobre lesbianidade facilita o processo de se entender uma mulher homossexual?

Sem dúvida alguma. Informação é tudo, é prevenção. Ajuda demais, no entanto, há que se ter cuidado com a fonte de informação.

Pode-se dizer que lésbicas são apagadas da história, e também um tanto quanto do movimento LGBT+, porque a história é escrita majoritariamente por homens? 

O que podemos sim afirmar, atualmente, é que as mulheres em geral e as lésbicas, em particular, foram apagadas da História, porque ela é escrita por homens. Avançamos muito. O movimento feminista e o das lésbicas ganhou visibilidade. Então, hoje, se um homem que não seja machista e ainda se comporta como pilar do patriarcado, se propõe a escrever alguma História (movimentos populares, avanços das “minorias” etc), como Historiador terá que fazer uma grande pesquisa e não poderá deixar de citar os avanços e conquistas das lésbicas. 

No entanto, nunca podemos deixar de considerar que o racismo é estrutural, que miseráveis, indígenas, mulheres, nordestinos, lésbicas e outras populações vulneráveis, de uma forma ou de outra, não só pela História, mas para os meios de comunicações, políticos, escritores e outros, não consideram essas populações seus alvos que mereçam respeito e visibilidade. 

As escritoras da História, as integrantes da Academia, as Feministas têm nos garantido maior visibilidade. Nunca poderemos deixar de considerar, infelizmente ainda, a existência do machismo e isso não é diferente também com o movimento LGBTQI+ em nosso país.

Os movimentos de esquerda hoje em dia estão mais abertos a discussões sobre gênero e sexualidade? 

Sem dúvidas, sim. Tivemos uma presidente da República, Senadoras, Bancadas Feministas, inclusive hoje temos uma Governadora que é lésbica e nordestina, que governa o Rio Grande do Norte, pelo Partido dos Trabalhadores. Trinta transexuais foram eleitas em 2020. Creio que isso não tem mais retrocesso, não dentro de uma Democracia.

Como você vê esse período que estamos passando politicamente e como ele afeta as conquistas do movimento LGBTQ+?

Infelizmente vivemos um momento político de profundos retrocessos, com a promoção de uma cultura homofóbica, com crescente moralismo, preconceito e descaso com nossas vidas, tanto na sociedade em geral, como nas instituições públicas que deveriam zelar pela segurança e justiça.

O atual governo declara publicamente seus discursos de ódio e já causou desmontes institucionais. A primeira medida provisória do então presidente da república, ao assumir, foi excluir LGBTQI+ da Política de Direitos Humanos. A então pastora ministra deixou de investir 800 mil reais, que estavam empenhados e seriam dirigidos para políticas públicas para LGBTQI+.

A verdade é que o Estado brasileiro não quer fazer nada em defesa desta população, não há interesse, pois todas as violências praticadas contra nós, são entendidas como naturalizadas.

Todo esforço do movimento LGBTQI+ brasileiro, durante 40 anos, para garantir  medidas de combate às violências, ainda não foi vitorioso em nosso país.

Quais avanços você vê para as mulheres lésbicas no Brasil nos últimos anos?

Em 1993, durante a realização do VII Encontro Brasileiro de Homossexuais, aqui em São Paulo. Esses Encontros, que traziam gente de todo o Brasil, eram integrados majoritariamente por gays, as lésbicas eram sempre minoria, mesmo assim foi dentro deste Encontro que nós lésbicas conquistamos a mudança do nome dos Encontros, passando a ser Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas.

Em 1996, realizou-se no RJ o I SENALE — Seminário Nacional de Lésbicas. Foi uma vitória, pois passamos a realizar Encontros Nacionais que não eram mais mistos e ganhamos um imenso espaço político, cultural no qual passamos a aperfeiçoar nossos posicionamentos políticos, ter voz única, criar estratégias próprias de combate a lesbifobia, ao patriarcado, à heterossexualidade obrigatória e ao racismo. Neste I Seminário decidimos que o dia 29 de agosto, data do início do I Seminário, passaria a ser o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

Em 2003 passamos a realizar as Caminhadas Lésbicas.

Alcançamos algumas conquistas na área da saúde, notadamente na ginecologia, haja vista as lésbicas em consultas sofrerem violências como discriminação, preconceito, racismo, falta de escuta, atendimento desumanizado. Em 2005 as lésbicas organizadas foram convidadas pelo governo federal para uma reunião nacional cuja pauta era discutir estratégias para implementar o Plano Nacional de Políticas para Mulheres e o Programa Brasil sem Homofobia.

Em 2008 durante a I Conferência Nacional LGBTQI+, Conferência inédita no Brasil e no mundo, que aconteceu no Distrito Federal, as lésbicas participantes conseguiram, em definitivo, posicionar a letra L à frente do G, com o intuito de dar maior visibilidade e reconhecer as intersecções gênero e orientação sexual.

Já em 2011 o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Saúde Integral para LGBT+, reconhecendo as demandas desta população. Em 2013 o mesmo Ministério publicou 30 mil exemplares da Cartilha “Mulheres Lésbicas e Bissexuais: direitos, saúde e participação social” para sensibilizar gestores e profissionais de saúde para um acolhimento adequado à nossa saúde.

Como você avalia a repercussão do Dia do Orgulho Lésbico e Dia da Visibilidade lésbica nos últimos anos? 

Com muito otimismo e entusiasmo. O dia do Orgulho Lésbico, 19 de agosto, hoje é celebrado e lembrado por lésbicas em todo país, em franca homenagem e reconhecimento tanto à Rosely Roth, quanto a importância da ação liderada por ela, de invadir e exigir respeito às lésbicas, no estabelecimento Ferro’s Bar, na cidade de São Paulo. O dia 29 de agosto, foi uma decisão das participantes do I SENALE, buscando visibilidade, respeito e direitos iguais para as lésbicas. Esta data também é luta e celebração em todo Brasil.

Foto de capa: Reprodução/ Memorial da Resistência

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Por Thais Eloy

Taubateana e Jornalista.

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