Não importa qual portal, jornal, ou rede social você acesse, fotos e vídeos sobre o massacre de Jacarezinho estarão ali expostos, acompanhados de textos policialescos como os de programas como “Cidade Alerta” e “Brasil Urgente”.

E diante de tanta tragédia, o instinto se divide entre clicar e ver o que aconteceu ou então fechar a imagem e se alienar de mais essa barbárie. E infelizmente, nenhuma das duas opções tem bons resultados.

Por isso foi um alívio, depois de tentar encontrar em publicações e redes sociais, nos depararmos com esta nota das organizações, coletivos e Ong’s que atuam na comunidade Jacarézinho (RJ), informando sobre o que aconteceu, se posicionando, questionando e também convocando a população para manifestações, por isso optamos falar sobre o tema por meio dessa nota.

Não se trata aqui de uma tão difamada “nota de repúdio de esquerda”, se trata de um relato, de um chamado e de uma sensibilidade em falar sobre algo que nos fere a todos.

Confira a nota completa e não deixe de acompanhar as redes das organizações que assinam o texto:

Na manhã desta quinta-feira, 06/05/2021, moradores do Jacarezinho foram acordados sob intenso tiroteio, em uma operação da DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente), com o apoio da CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais), que resultou no assassinato de mais de 24 civis e um militar, em uma incursão policial que durou mais de 9 horas.

Em meio a uma pandemia que matou 410 mil pessoas, 45 mil só no Rio de Janeiro, ocorreu a operação mais letal da história do estado, sob a justificativa de proteger “os direitos fundamentais de crianças e adolescentes e demais moradores que residem nessas comunidades”, como relata nota do MPRJ. Uma pessoa morta dentro do quarto de uma criança de 8 anos protege quais crianças? Quais direitos estão sendo garantidos?

Como se já não bastasse estarmos morrendo por uma doença pela qual já existe vacina, ainda somos submetidos a um cotidiano de brutal violência por parte do Estado. Não há outro nome para o que acontece nas favelas e periferias, o que vivemos é genocídio contra a população negra desse país. Diante dessa realidade de extermínio, seguimos com o mesmo questionamento: quais vidas importam?

Será que em bairros nobres localizados na Zona Sul da cidade do Rio ou em condomínios luxuosos na Barra da Tijuca, o método de suspeição é o mesmo? Será que se sentem coagidos ou com medo de serem acordados por uma operação policial?

O genocídio contra corpos negros e favelados segue naturalizado e sem causar espantos. As instituições públicas, como em um acordo tácito, seguem silenciosas, sem criar qualquer tipo de mecanismo eficaz que possa frear o extermínio desses mesmos corpos.

O papel da mídia hegemônica no reforço de uma narrativa de criminalização da pobreza e de espaços favelados, sem que colocasse em pauta o massacre que ocorria ao vivo, tornou um grande espetáculo a ação do dia 06 de maio, o que foi essencial para um processo de naturalização da barbaridade ocorrida na favela do Jacarezinho.

Exigimos explicações e questionamos: como o Estado pretende atuar no território depois dessa chacina? Como recuperar o trauma das milhares de pessoas que foram submetidas ao terror policial? Como os familiares das vítimas serão amparados? Quais os mecanismos institucionais de prevenção às ações como as que vivenciamos no dia de hoje?

Esperamos respostas! Convocamos todos para o ato que ocorrerá amanhã, 07/05/2021, às 17h em frente à quadra da G.R.E.S Unidos do Jacarezinho.

Assinam a nota

– Associação de moradores do Jacarezinho

– Cafuné na Laje

– G.R.E.S Unidos do Jacarezinho

– Instituto de Defesa da População Negra (IDPN)

– Jcré Facilitador

– Jacaré Basquete

– LabJaca

– NICA (Núcleo Independente e Comunitário de Aprendizagem)

– ONG Viva Jacarezinho

Foto de capa: Fotoarena/Folhapress

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Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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