No dia 28 de setembro, iniciou-se a leitura do grande clássico “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado e publicado em 1937, na praça Pérola Byington (SP)

Por Vanessa Soares, educadora da Casa 1

Ao entardecer na Praça Pérola Byington as luzes dos carros de polícia se misturam as luzes do pequeno Carrossel de Nhozinho França, desbotado, gasto, vindo de Maceió onde já tinha vivido tempos de grande fama, assim como alguns que habitam este pedaço de terra, da grande cidade de São Paulo.

“Essa história está acontecendo agora, aqui na nossa frente”. 

“eu conheço os Capitães da areia”

GARGALHADAS 

Perfurando o tempo e as distâncias a voz  ressoa com ajuda do vento, encontrando na história das crianças abandonadas da Bahia o corpo dos homens adultos daqui.  As folhas passam lentamente, o livro passa de mão, as bocas sorriem, a valsa que toca na pianola do Carrossel toca aqui, toca para a mulher dançar.

Cruzamos as realidades e experiências, e na bênção de Jorge habitamos a  pausa, nesta rua, nesta praça, na fonte da permuta, convivemos. Assim  como o mapa de afeto que vai se construindo em meio às intimidades, este relato que levou alguns dias para ser escrito é como uma tentativa de organizar nas linhas os pedaços da gente. 

“eu gosto do Gato” 

“eu também já tentei dormir na cadeia”

 “Pedro Bala é meu preferido”

No dia em que chegamos na Docas, quando Pedro Bala descobriu quem foi seu pai, a polícia chegou na praça, veio até nós, cercou um homem, algemou suas mãos e o levou. Eram muitos para um único homem e talvez este faça parte do grupo de tantos homens por quem morreu o pai de Pedro Bala. 

“Pedro Bala os olhou com carinho” 

“Seu pai fora um deles, morrera por defesa deles.” 

Ler apenas ler, deixar chegar longe a voz e ao mesmo tempo descansa-la sobre as páginas. Na impossibilidade do silêncio não deixar de falar, observar nos olhos o ar sustentado na atenção que coloca o corpo alerta no exercício de criação, DANÇAR.

Sempre acreditei que na dança como um exercício de imaginação, desde criança me movo na tentativa de encontrar nas formas e desformas algo que tenho dificuldade de dizer. Quando cresci descobri que a BELEZA tinha cheiro e cor, e talvez não coubesse dentro desta as imagens tortas, desgastadas e rebeldes que o corpo de criança propõem, era preciso FUGIR…

“liberdade”

“a liberdade é como o sol” 

Hoje exercito o Movimento para Fugir da Dança que aprisiona o corpo e justifica sua violência na possibilidade de um dia sermos bonitos. Por isso, no senta e levanta da praça, na escuta partida que se ajeita na experiência de habitar o espaço em seu  trânsito, 

Danço,

Dançamos… 

A dança é a descoberta do corpo, a possibilidade de investigação de nós nas páginas que correm. 

“Dora, o beijo, os cabelos loiros”

Maria dança na praça e no gesto desvenda seu filho deitado no chão, coberto, ali, no trapiche. A pedra é lançada, a kombi para, o pássaro caga no ombro de quem lê, porque o exercício de Imaginar atravessa as dimensões, desfaz as ordens e cria uma grande confusão. No fim, quando Pedro Bala se torna Capitão dos grevistas e descobre a força da palavra Companheiro a praça acompanha atenta, uma atenção de corpo rebelde, que não fica parado, mas que entende que o livro é nossa possibilidade de fugir e não iremos desperdiçar. 

E as coisas vão assim, cortadas, atravessando mesmo sem lógicas ou acertos.

“A SORTE TEM DE VIRAR”

“PODE CONTINUAR”

No dia 28 de setembro, iniciou-se a leitura do grande clássico “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado e publicado em 1937, na praça Pérola Byington (SP). O livro narra a vida dos meninos abandonados  que moram em um trapiche, que conhecem bem as ruas e esquinas da cidade de Salvador – Bahia. Finalizamos a leitura no dia 29 de outubro. 

ATÉ AQUI

DANÇAMOS.

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Por Casa 1

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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