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Sobre chorar as mortes: serviços essenciais e isolamento social

Por Iran Giusti, João Paes, Thais Eloy e Brenda Amaral, membros da equipe de comunicação da Casa 1

Durante os 12 meses de pandemia do covid19 a Casa 1 fechou as portas, algo extremamente doloroso para todo mundo que trabalha, e arriscamos dizer, também para as pessoas que frequentam os espaços. 

Nossa principal política são as portas abertas: quem já esteve por aqui sabe que os portões e portas nunca se fecharam. Nosso desejo inclusive muitas vezes foi botá-los abaixo, mas infelizmente alguns contratos de locação não permitiam. 

Em menos de uma semana, naquele longínquo março de 2020 – que, diga-se de passagem, se parece com o deste ano – começamos a produzir dezenas de matérias e listas online com dicas de coisas para fazer, uma semana depois o plantão de escuta da clínica social passa a ser totalmente virtual e, em menos de um mês, demos  início à entrega de cestas básicas. 

Tivemos altos e baixos, preocupações, insônias, medos, mas juntos e juntas seguimos, seguimos lutando, tudo isso enquanto chorávamos nossos mortos, enquanto dezenas de milhares de pessoas morriam e somavam traumas e dores para dezenas de milhares de famílias em todo o país.

Perdemos no processo pais, avós, perdemos amigos, amigas, conhecidos, conhecidas, acompanhamos as notícias de morte de vizinhos, vizinhas e pessoas em situação de rua que atendemos ao longo dos anos. 

Neste momento, escrevemos este texto com uma certa angústia após o presidente do país dizer: “Vão ficar chorando até quando?”. 

E respondemos: choraremos enquanto pessoas morrerem por descaso do Estado, choraremos enquanto o projeto político do país for a morte. 

Alguns podem dizer que o contexto da frase foi outro, então nos adiantamos e reproduzimos aqui a fala na íntegra: 

“Nós temos que enfrentar os nossos problemas, chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando? Temos de enfrentar os problemas. Respeitar, obviamente, os mais idosos, aqueles que têm doenças, comorbidades, mas onde vai parar o Brasil se nós pararmos?”, disse ele. 

E respondemos novamente: nós nunca deixamos de enfrentar nossos problemas e não paramos. E assim como nós, milhões de pessoas não pararam, ninguém parou. A gente está sobrevivendo até aqui, existe uma gigantesca diferença entre parar e sobreviver.

A Casa 1 segue fechada, não completamente, vamos dizer que à meia porta. De segunda à sexta-feira, das 10h às 18h, estamos no Galpão Casa 1 entregando água e máscaras para população em situação de rua e cestas básicas para pessoas LGBT e famílias que vivem no bairro. Atividade que estamos fazendo desde quando a pandemia se instaurou. E assim continuamos.

Somos hoje quatro pessoas realizando esse trabalho presencial, quatro pessoas que vivem há uma quadra do galpão e tomam todos os cuidados necessários, com constante higienização das mãos, uso de máscara N95, circulação de ar constante e distanciamento, processos esses que seguimos há 12 meses. 

Junto a nós, cerca de 50 pessoas trabalham virtualmente, realizando trabalhos tão essenciais quanto os nossos, criando conteúdos, informando, ensinando, escutando, cuidando da saúde mental do outro. Neste momento, o trabalho remoto é essencial. 

E principalmente, a vida é essencial e enquanto ela for tomada, choraremos. Por isso pedimos: fique em casa e se precisar sair, use as máscaras adequadas, tenha cuidado com si e com o outro. 

Atenciosamente

Equipe Casa 1 

Foto de capa: Fernando Crispim/Amazônia Real

A Casa 1 é uma organização localizada na região central da cidade de São Paulo e financiada coletivamente pela sociedade civil. Sua estrutura é orgânica e está em constante ampliação, sempre explorando as interseccionalidade do universo plural da diversidade. Contamos com três frentes principais: república de acolhida para jovens LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) expulsos de casa, o Galpão Casa 1 que conta com atividades culturais e educativa e a Clínica Social Casa 1, que conta com atendimentos psicoterápicos, atendimentos médicos e terapias complementares, com foco na promoção de saúde mental, em especial da comunidade LGBT.

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