Vitor diCastro, criador do canal Deboche Astral, é uma personagem com a carreira na internet já consolidada. Sua página no Instagram tem mais de um milhão de seguidores e o canal ultrapassa 130 milhões de visualizações só no Youtube.

Formado em artes cênicas, o catanduvense começou a produzir conteúdo para a internet porque não via um espaço para homens gays afeminados na tv aberta: “Hoje a gente vê muito mais expoentes gays, dentro do humor ou não, aparecendo e falando sobre ser gay. Isso que é o importante. Atores gays a gente sempre teve”.

Com muito bom humor, Vitor falou sobre astrologia, o movimento de influenciadores saindo da internet e partindo para mídias tradicionais e como a criação em uma família cristã dificultou os seus processos de desenvolvimento enquanto um homem gay.

O que você tem feito na quarentena? 

Eu tenho feito muita coisa. No começo da pandemia lembro que apresentei umas lives que tinham no Quebrando o Tabu, onde eu perguntava exatamente isso para as pessoas “O que você tem feito?” porque fazia um mês, né? Agora, um ano e um mês depois, eu tenho feito tudo que eu posso. Tudo que é permitido fazer dentro de casa sozinho com meu marido e meus gatos. Surto, choro e rio. Já assisti todas as séries que queria assistir no mundo. Todas as temporadas de Modern Family que é infinito. Já passei muita raiva. Eu não consigo mais saber o que me falta fazer. Na verdade eu sei. Me falta tomar vacina e voltar a viver. […] Tô aí sobrevivendo. Tenho uma amiga que fala que não dá pra gente cobrar nada das pessoas nessa pandemia porque todo mundo tá elaborando a própria sobrevivência. Então, se posso dar uma resposta poética pra ficar bonito, eu diria que na pandemia eu estou elaborando a minha sobrevivência.

Falar e ler tanto sobre astrologia te fez entender melhor alguns dos seus comportamentos? 

Para mim, o interesse pela astrologia partiu daí mesmo, quando eu comecei a entender que a astrologia é muito mais do que passam para a gente. Quando entendi que a astrologia explica as nossas particularidades, é uma explicação para o que nos acontece, eu percebi que esse estudo é infinito. Não é à toa que a astrologia é um estudo milenar. As pessoas estão aí se dedicando a milhares de anos para entender qual é de fato a influência que os astros têm na nossa vida. Claro que eu comecei a entender a astrologia com base no meu mapa astral e na minha vida porque não tem nada mais próximo de mim do que eu mesmo.

Eu comecei a entender que a astrologia serve para que a gente se conheça melhor, principalmente se você quer evoluir, você tem que saber em qual estágio você está. Conforme eu vou trabalhando e levando isso para as pessoas, eu também vou me entendendo e querendo evoluir. É um processo coletivo e individual nesse sentido.

Você é formado em artes cênicas e começou com os vídeos na internet porque viu uma brecha nesse meio para homens gays afeminados. De lá para cá você acha que as coisas mudaram e a TV está mais aberta a corpos LGBT? 

Olha, eu acho que a gente evoluiu muito nessa questão. Hoje a gente vê muito mais expoentes gays, dentro do humor ou não, aparecendo e falando sobre ser gay. Isso que é o importante. Atores gays a gente sempre teve. 

Quando eu saí da faculdade, a dez anos atrás, não se discutia sobre isso. Tinha se um entendimento na classe dos atores que você quer ser um homossexual assumido você não vai ter espaço na teve aberta. Isso sempre ficou muito claro para mim. Chegar para fazer um teste e falarem: “Você pode ser um pouco mais masculino?”. Coisas que hoje não cabem mais. 

Hoje, em 2021, passado tantos anos, a gente já tem pessoas como o Paulo Gustavo e todo mundo sabe o quanto ele foi importante nessa desconstrução. É triste que a gente tenha que esperar alguém morrer para reconhecer o valor que ela tem em uma luta, mas ao mesmo tempo quando alguém morre tudo muda de perspectiva e na rabeta do Paulo Gustavo tem muitos outros humoristas que são gays assumidos e que fazem humor com isso. 

A gente conseguiu um espaço que é nosso, principalmente hoje que discutimos muito o humor. Eu rio do quê? Antigamente, e quando eu falo antigamente é menos de dez anos atrás, a gente ria do negro, da mulher, do gay, da sapatão e da travesti. Hoje não dá pra dar mais risada disso. 

O que começo a ver agora são atores homossexuais ocupando espaço na novela das 9, sem protagonizar personagens LGBT. Isso é uma mudança recente. Quando a gente vê o Irandhir Santos fazendo um vilão hétero e a gente sabe que o ator é um gay assumido isso me toca em um lugar muito interessante. O papel do ator é representar um personagem. Qual o problema de um ator gay interpretar um hétero? Sendo que quando um hétero interpreta gays, de maneira bem porca, ele ganha prêmios? A gente tá vivendo essa mudança agora. No humor ela é bem avançada e na dramaturgia já tem uma abertura. 

Dentro desse recorte, como você vê a morte do Paulo Gustavo? 

Acho que o Paulo Gustavo sempre trouxe essa questão da homossexualidade no trabalho dele. Para além de ser um ator assumido ele trouxe isso para o filme com a maior bilheteria da história do Brasil. Um filme que tem como conflito central um casamento gay e que não é uma chacota.

A gente é o país que mais mata LGBT e ainda vai ser por muito tempo, porque essa é uma mudança lenta. 

Acho que o Paulo Gustavo, e vou me colocar nesse balaio porque faço isso na internet, a gente consegue discutir essas questões com leveza e é uma maneira de introduzir isso no cotidiano da população. Existe sim a importância do Jean Willys e existe a importância do Paulo Gustavo. Os dois são homens gays assumidos que trabalham em frentes diferentes. 

A gente fica o tempo inteiro lidando com notícias negativas na nossa comunidade, lidando com Bolsonaro, lidando com lei que tá tentando ser aprovada pra pararem de fazer propaganda com gays. Estamos lidando com esse tipo de coisa mas ao mesmo tempo também temos no cinema brasileiro expoentes LGBTs+ que fazem a arte acontecer. 

Eu acho que o Paulo, o trabalho dele, veio pra mostrar o outro lado da moeda e que às vezes a gente que é militante não consegue parar pra respirar e perceber que tem um caminho. Quantos jovens LGBTs conseguiram conversar com os pais depois de “Minha mãe é uma peça 3”? Eu só espero que toda essa história não morra no dia 4 de maio de 2021. Espero que ele vire um exemplo para que mais produções aconteçam.

Você já falou sobre ter passado por terapia quando criança e que o profissional te aconselhava ser menos afeminado. Acha que teria sido diferente se você não tivesse “dado pinta”, como você diz, desde criança?

Infelizmente, eu passei por isso. É um ponto da história que fico pensando que foi uma grande pena eu ter vivido isso. Batalho hoje e conto essa história para que os pais, principalmente, tenham plena consciência do que isso pode causar em seus filhos. 

Apesar de não ter feito a terapia de conversão sexual, eu fazia terapia porque meus pais achavam que eu tinha que me converter sexualmente o que no final das contas é a mesma coisa. Eu só não recebi todo o tratamento de choque que eu sei que a terapia de conversão envolve. Foi um negócio que atrasou a minha vida em muito tempo. Atrasou o meu emocional. 

Eu já tinha entendido, graças a essa terapia, que não poderia ser gay, e aprendi que não poderia ser afeminado e nem dar pinta. As pessoas não podiam achar que eu gostava de meninos, na época eu tinha uns 8 ou 9 anos e ninguém falava pra mim “você não pode gostar de homem”, era uma coisa muito comportamental. Foi um atraso e hoje penso que foi uma violência o que eu passei. Uma violência consentida pelos meus pais. Uma violência sendo maquiada de psicologia. 

Hoje quando a gente fala de terapia, a gente sempre fala sobre evolução, a gente faz terapia para evoluir, mas, se me colocam na terapia porque acham que é um grande problema eu ser afeminado, então deixa de ser uma evolução e vira um trauma. 

Se a mãe ou o pai percebe que o filho é mais afeminado que o restante das crianças, é porque as outras crianças, os professores, todos também estão percebendo. Você tem como ajudar o seu filho a lidar com uma coisa que tá fora do seu alcance, o que os meus pais queriam no fundo é que eu não sofresse. A ferramenta que eles usaram pra isso é que foi errada, eles só me deram mais sofrimento, mas existem coisas que podem ser feitas para o seu filho. Seu filho vai precisar de mais acolhimento, você vai ter que sentar e lidar principalmente com os seus preconceitos, porque quando você tem um filho que é uma criança LGBT, o preconceito é seu. 

Esse mercado de influenciadores digitais é uma oportunidade para que narrativas de pessoas fora do padrão (corpos LGBT+, não brancos, pessoas com deficiência) fossem ouvidas fora das mídias tradicionais?

Acho que essa é a maior oportunidade que a gente tem mesmo. As redes sociais viraram uma mídia à parte. Tem pessoas que só se informam através das redes sociais, através do whatsapp – não faça isso, do instagram, do facebook, twitter. É um movimento recente, mas a gente tem expoentes e essas pessoas jamais teriam oportunidade de fazer isso em mídias tradicionais. 

A pequena Lo não teria espaço na televisão. Ela tem hoje porque ela fez o espaço dela na internet que é muito mais democratico, apesar de eu ter muitas ressalvas com relação à democracia na internet, mas acredito que é uma oportunidade que a gente tem de mostrar narrativas em primeira pessoa. 

As mídias tradicionais são até hoje dirigidas por homens, brancos, héteros e cis e essa é uma categoria dificil de mudar, que não quer abrir mão de privilégios. 

Não quer me dar espaço? Tudo bem eu vou lá e levanto o meu. Vai ser mais difícil? Vai ser mais difícil, mas pelo menos agora temos uma ferramenta a mais, e é uma ferramenta muito utilizada e com um valor enorme pra todas as pessoas. No meio da pandemia que espaço damos pra internet na nossa vida, não é mesmo?

Fotos: Divulgação/Breno da Matta

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Por Thais Eloy

Taubateana e Jornalista.

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