Cortejada em Paraty, a escritora Camila Sosa Villada teve eventos lotados e filas de três horas para autógrafos de seus livros, marcando um novo espaço para a literatura produzida por mulheres trans

Por Giulliana Bianconi

O público entrava e se acomodava no auditório que abriga a programação principal da 20ª Feira Literária Internacional de Paraty para assistir a uma das mesas mais badaladas do evento, “A Festa das Irmãs Perigosas”, na quinta à noite, quando Amara Moira surgiu pela porta de entrada da direita procurando o seu lugar. O espaço enchia rapidamente, afinal aquela era uma das mesas com ingressos esgotados há semanas. Amara subiu as escadas do auditório, acomodou-se no centro da oitava fileira, o suficiente para ter uma ótima visão do palco. Estava a apenas três cadeiras de distância de mim. Então observei que foi recebida com festa pelos amigos que a esperavam. Estavam felizes. Sabiam como poucas pessoas ali a importância daquele evento, daquela mesa e daquele dia para as mulheres trans.

Amara e seus amigos estavam lá para ver Camila Sosa Villada, que seria a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na programação principal da Flip depois da cartunista Laerte Coutinho, em 2012. Amara naquela noite seria plateia, mas no dia seguinte também estaria na programação principal, o que garantiria, portanto, o dobro de representatividade de mulheres trans em relação àquela edição de 10 anos atrás. Sim, havia se passado uma década sem que uma travesti pisasse o palco para falar, como autora, na Flip.

Com auditório cheio, a mediadora Nanni Rios então anuncia as convidadas: a baiana Luciany Aparecida e a argentina Camila Sosa Villada. Camila chega vestida mesmo para uma festa, como sugeria o nome da mesa. Usa preto e vermelho. Um vestido de alças finas com detalhes em renda, sandálias vermelhas de salto fino. Pele morena, bronzeada. Aneis que cintilam em suas mãos. Uma mulher exuberante. Embora soubesse que era a convidada principal, emocionou-se com a calorosa recepção. Nanni Rios então cita bell hooks e Gloria Anzaldúa para iniciar a conversa, autoras e pesquisadoras que falavam a partir “da margem” e não do centro, também mulheres que representam as vozes LGBTQ+, mas não eram mulheres trans. Elas, as travestis, estão chegando agora para ocupar esse espaço de protagonismo na literatura.

Da esq. à dir.: as escritoras Camila Sosa, Luciany Aparecida e a mediadora Nanni Rios na mesa “A festa das irmãs perigosas”

“Camila foi fundamental, um marco para mim quando lançou Las malas, em 2019″, me disse Amara, que é escritora, professora de literatura e doutora em Teoria Literária pela Unicamp, e que assim como Camila teve a vivência de prostituição como travesti. O livro foi traduzido para o português dois anos depois e lançado no Brasil como O Parque das Irmãs Magníficas (Tusquets, 2021)um romance que horizontaliza magia, traumas e a vida real numa narrativa que rendeu filas de autógrafo de três horas à autora na Flip 2022.

Antes da nossa breve conversa na saída do auditório, havíamos assistido a Camila se divertir naquela conversa junto a Luciany e Nanni ao longo de uma hora. Ela estava ali para celebrar. Em momento algum a argentina deixou de rir, fez falas duras ou que denotassem que o que a define é a dor das violências pelas quais já passou. “Eu quero escrever e travestir a literatura”, disse ao contar que ela mesma nunca atribuiu a si um gênero, que se tornou travesti sem fazer disso inicialmente uma identidade e que também não atribui a sua obra o “gênero travesti”. “Eu quero escrever ficção, contos, quero escrever sobre o que eu quiser, quando eu vou transitando pelos gêneros, eu quero existir”, explica, já antecipando que seu lugar no mundo literário é e será onde ela escolher, e não o de atender a expectativas que existam porque se trata de uma travesti na literatura.

“Eu quero escrever e travestir a literatura”

Sobre isso, Camila voltaria a falar no dia seguinte, em conversa na Casa Folha, espaço do jornal Folha de S. Paulo na Flip onde o público novamente lotaria o espaço, e dessa vez se aglomeraria na porta para vê-la e escutá-la. “Às vezes me dizem que agora falta uma mulher pobre na minha obra, eu não vou me retirar porque esse é o meu trabalho e eu não quero mais ser pobre”, provoca. Ela diz que está aprendendo a se defender das cobranças de ativistas, mas “conhece todas as travestis ativistas da Argentina”.

Embora busque sua unicidade, Camila fala no coletivo em muitos momentos. Não faria sentido ser diferente depois de escrever uma história tão original que perpassa a irmandade-travesti.

Magníficas: o céu e inferno das travestis

O Parque das Irmãs Magníficas é seu livro “de chegada” ao Brasil, a obra que fez seu nome soar como uma grande novidade na literatura latino-americana. A história das travestis que orbitam o Parque Sarmento, em Córdoba, dá vida ao romance de 208 páginas que vai do céu ao inferno várias vezes e em poucas linhas ao longo da narrativa. O mercado editorial tem definido o livro como “um romance que se enquadra num realismo fantástico, mas que também é autobiográfico”. Já em Sou uma tola por te querer, recém-lançado no Brasil pela mesma editora, Camila escreve contos. Em ambos há uma presença forte do amor, mas também do vazio e da violência, sentimentos e elementos que dialogam com suas vivências, seu repertório de mulher trans e também com a sua imaginação.

Afinal, o que busca Camila Sosa na literatura? Escrever é a sua primeira resposta. Existir diante e apesar de tanta violência. Mostrar que há muito além da dor na narrativa trans. O amor e os afetos são parte do dia a dia também dessas mulheres. “Para mim, a primeira violência está na linguagem”, afirmou a escritora ao responder, no auditório da Flip, à pergunta da mediadora Nanni Rios sobre como lidar com o machismo e as violências no mercado editorial. “Ela [a violência] nos é imposta e somos obrigadas a escrever, a ler a partir desse código construído pela violência”. Então a obra de Camila é uma afronta a esses códigos. “A violência e o machismo do mercado editorial não são mais importantes que a violência e o machismo que estão em tantos outros lugares”, pondera. “A gente toma café com o machismo, cagamos machismo”, diz, como se quisesse didaticamente perguntar: “Vocês não leram a história de Tia Encanta?”

Tia Encanta é uma das personagens de O Parque das Irmãs Magníficas. Ela é a travesti mais experiente entre todas, com seus cento e setenta e oito anos, que carrega a dor e o amor profundos com ela ao longo do livro. Aquela que passou por tantas violências que seu corpo ficou todo marcado, deformado. Mas Tia Encanta existe afetuosa no livro, se torna mãe e amamenta já nas primeiras páginas com seu peito siliconado. Cuida de todas.

Mesmo que uma parte do público que lotava o auditório pudesse ter lido Tia Encanta, certamente permanece um tanto longe da vivência e da realidade das mulheres trans, ainda invisibilizadas na sociedade, preteridas pelo mercado de trabalho e violentadas nos espaços de educação formal. Mesmo que no Brasil exista o livro de Amara Moira “E se eu fosse puta”, publicado desde 2016. Mesmo que Amara seja uma intelectual brasileira que circula em eventos, marca presença na mídia e publica artigos. O público por aqui e no restante da América Latina ainda está distante da literatura trans, que tem em Camila Sosa Villada uma nova referência. “Eu não sei se estaria aqui este ano, na programação, se não fosse a Camila, talvez ela tenha mesmo adiantado a minha participação na Flip”, me disse Amara, que prepara um novo lançamento para 2023, pela Companhia das Letras.

Amara Moira, escritora, professora e doutora em Teoria Literária na mesa “E se eu fosse”, na FLIP

Se há algo que os movimentos sociais – seja o movimento de mulheres, o movimento LGBTQ+ ou movimento negro – têm ensinado à sociedade é que é preciso evitar a “tokenização” das minorias políticas, o que na Flip corresponderia a apresentar uma pessoa trans na programação principal e afirmar a diversidade da identidade de gênero na Feira a partir daquela única travesti. Então Amara Moira é a antitokenização da Flip. A travesti que reforça que literatura feita por pessoas trans não é um acontecimento pontual na Argentina, com Camila Sosa, mas que existe como campo. Amara e Camila se encontraram naquela quinta-feira, mais cedo, antes da mesa “A Festa das Irmãs Perigosas” e conversaram. Falaram sobre a literatura que traz a marca da cultura de rua. “Travesti é um milagre, e o que a gente faz na literatura também é um milagre, porque estamos aqui”, analisou Amara. 

*Giulliana Bianconi é jornalista e codiretora da Gênero e Número

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