Quando Eduardo Albarella, a Miss Biá, icônica drag queen paulistana que contava com 60 anos de carreira faleceu em decorrência do covid 19 em 03 de junho de 2020 choramos. Foi a primeira grande artista que perdemos para um vírus que pouco sabíamos sobre, mas algo nos dizia que infelizmente ela não seria última.

Vinte dias depois, se foi Amanda Marfree, socioeducadora no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD). A ativista morreu lutando, visitando mulheres trans e travesti que precisavam de ajuda e entregando cestas básicas.

Com o passar dos meses, os comunicados e homenagens se multiplicavam e decidimos então não publicar cada nota de falecimento, parte porque seria injusto decidir qual morte comunicar porque não tínhamos braços para escrever todas essas homenagens. Enquanto as perdas se acumulavam, a gente tentava e ainda tenta fazer o possível para ajudar os nossos e as nossas em mil frentes, porque dói muito escrever e comunicar cada uma dessas mortes.

Aprendemos sobre o vírus, entendemos o que era preciso para vencê-lo, celebramos vacinas criadas em tempo recorde. Entendemos que já não mais se tratava só de uma questão de saúde, mas sim de política, de educação, de informação. O corona vírus é uma doença, mas as mortes causada por ele são mais uma arma que parte da humanidade utiliza para seguir eliminando quem não lhe interessa.

No dia 14 de março de 2021, quem se foi foi Valéria Rodrigues, que pouco mais de 15 dias antes, esteve com a gente da Casa 1 para buscar doações excedentes e levar para comunidade LGBT+ de Franco da Rocha. Na data, dançava, feliz com o que se preparava para levar para casa e ajudar quem precisava. Continuamos chorando.

Enquanto isso, lutamos no chão, atendendo, ajudando, correndo e, nas esferas institucionais, fortalecendo a luta de parlamentares que se opõem aos que insistem em colocar nossa comunidade como inimiga, fazendo da nossa vida um alvo.

Alvo esse que segue estampado em nossos corpos e corpas. Quando se é LGBT+ em um grau ou outro, você vive com a morte à espreita. Assim que nos entendemos LGBT o medo de ser agredido e morto passa à existir instantaneamente, depois vem o entendimento que nossa saúde também está em risco: profissionais ignoram nossa vivências e ainda hoje perdemos muitos de nós para outro vírus, um que já se sabe muito mais e que se vive por décadas, o HIV, ou então perdemos vidas que, de tanto sofrimento, não conseguiram ser vividas: o suicídio.

Receber a notícia da morte de Paulo Gustavo traz uma nova camada de luto para a vida de uma comunidade enlutada. Gustavo teve a oportunidade de ser aceito e de viver plenamente, teve acesso à saúde, e mesmo assim morreu. Morreu por uma parcela da sociedade que prefere odiar, morreu por um governo que prefere matar.

Missa, Biá, Amanda Marfree, Valéria Rodrigues, Paulo Gustavo sobreviveram ao preconceito, às agressões, ao descaso dos profissionais da medicina e da saúde mental, mas infelizmente não sobreviveram à um projeto de país mortal, não sobreviveram à um governo genocida.

A nós que ficamos, resta apenas lutar e somar às nossas “causas de luto”, mais um componente.

Aos famílias, amigos, amigas, admiradores e admiradoras de todos e todas que se foram, prestamos aqui nossa solidariedade e nosso eterno agradecimento, porque vocês permitiram que essas pessoas existissem, e lutaram, muitas vezes sem saber, por todos nós.

Em tempo, confiram o emocionante texto do Chico Felitti em homenagem ao Paulo Gustavo na Folha de São Paulo.

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Por Iran Giusti

Iran Giusti é formado em Relações Públicas pela FAAP, atuou como gestor de redes sociais e gerente de projetos em agências de RP e Social Mídia e como jornalista foi repórter do canal de conteúdo LGBT do Portal iG e do BuzzFeed Brasil. Atualmente se dedica a gestão da Casa 1, um centro de acolhida e cultura LGBT e produção de conteúdos em que acredita.

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