Um longo caminho separa a criança que cresceu em Itaipu -bairro periférico de Belo Horizonte (MG)- de It’sa Gonçalves, que nesta quinta-feira (4) disputará pela segunda vez na carreira o mundial de breaking da Red Bull, na Polônia.

Um trajeto marcado pela luta de uma pessoa, que hoje se considera não binária, contra o preconceito. Apesar de competir na categoria feminina, usa adjetivos masculinos para falar de si e pede que sua identificação seja feita com pronomes neutros.

Na infância, It’sa gostava de brincar de pega-pega, esconde-esconde, rouba-bandeira e, principalmente, de bola na rua.

“Criança, tinha o sonho de jogar futebol profissionalmente. Via a Marta, a Cristiane, e eu tinha esse sonho”, diz à Folha, hoje com 23 anos.

Aos 11, por meio do primo William, descobriu o breaking. Logo entrou em seu primeiro crew (equipe), o Skeleton Breakers, e em pouco tempo participava de batalhas.

It’sa treinava de noite, estudava de manhã e passava horas no ônibus para ir e voltar dos treinamentos do time de base feminino do Atlético-MG durante as tardes –mas torce para o União Itaipu, equipe do seu bairro. A escolha pela dança, hoje esporte olímpico, e o abandono do futebol fazem parte de um processo que é muito maior em sua vida. Um dia, aos 13, fez um corte de cabelo moicano.

“O treinador [do Atlético] falou ‘aqui eu deixo as meninas passarem esmalte e maquiagem, mas cortar o cabelo desse jeito, não'”, recorda-se. Com apoio da mãe, largou a bola após o episódio.

“Eu adorava fazer as duas coisas, só que ao mesmo tempo também estava descobrindo e desenvolvendo minha personalidade, minha sexualidade”, diz.

Depois, It’sa foi convidada pela coordenadora da escola na qual estudava a se retirar da instituição por ser um “mau exemplo”. Ficou sem estudar e completou o ensino médio aos 16, por meio do Enem -algo que antes era permitido.

De origem humilde -ter celular próprio foi algo que aconteceu tarde em sua vida-, descreve seus pais como “tradicionais”: menina usa saia; tatuagens e cortes de cabelo diferentes são mal vistos. Um padrão impossível para quem então já causara choque em casa ao se declarar “mulher, preta e lésbica”.

It’sa integrava o projeto social de dança do Grupo Corpo, fazia cursinho para cursar História e cogitava seriamente se alistar para o serviço militar quando, em 2017, soube de um processo seletivo para o Cirque du Soleil -e deu à dança um ultimato.

Inscreveu-se no programa usando os vídeos amadores de suas batalhas de breaking. Passou. Na sequência, viajou para a etapa presencial, em São Paulo, com “três miojos na mala e R$ 50”.

Na prova, designaram-lhe o papel de Barbie, e It’sa não teve dúvida: transformou a boneca em dançarina de hip-hop. Deu certo.

Foi a partir de 2018, já no Cirque, que It’sa teve contato com o conceito de não binariedade.

“Eu não sabia o que era isso até então. Me questionava: será que eu sou um homem trans? Não conseguia me encaixar nesse sentido, mas também não me encaixava em ‘mulher sapatão lésbica’. Ficava nessa confusão. E quando veio a não binariedade, foi assim ‘nossa, finalmente existe um espaço para mim também.”

Pessoas não binárias são aquelas cuja identidade de gênero -que é a forma como alguém se apresenta ao mundo -não cabe nem como homem nem como mulher.

“Eu cresci com essa pergunta: ‘É menino ou menina?’. Meu nome de documento é Isabela e todo mundo já me chamava de Isa. Quando eu fui para fora [do país], essa pergunta continuou a me perseguir, ‘It’s a boy or it’s a girl?’. Por isso, ficou só It’sa”, conta.

It’sa já sofreu machismo, lesbofobia, discriminação por aqueles que negligenciam a causa não binária, racismo “para caramba”, abordagens truculentas da polícia, xenofobia -“o Brasil está com o filme queimadaço [no exterior]” diz -e, “no topo”, segundo conta, preconceito de classe.

“Eu canalizei toda a energia que vinha de opressão para o break, tá ligado? Eu consegui de alguma forma, consciente e inconsciente, filtrar isso para as batalhas”, afirma.

Hoje tem como uma de suas conquistas a transformação de uma maquiagem do Cirque de Soleil que considerava sexista (antes só mulheres e It’sa usavam batom).

Entende que o debate sobre a não binariedade ainda vai chegar ao breaking, comunidade que lhe acolheu, mas que se limita às categorias de b-boy e b-girl. Avalia que a cena é machista e dá pouca visibilidade às mulheres.

It’sa se considera um discurso visual, das roupas ao último fio de cabelo, que só de estar presente já dá “tela azul” em muita gente. Defende a construção de um diálogo sobre o tema, degrau por degrau –ou como diz o ditado mineiro, comendo pelas beiradas. E avisa: diferentemente dos ringues, nessa batalha, não quer estar só.

Ao longo dos anos, desenvolveu crises de pânico, ansiedade e depressão. Hoje, trata tudo com ajuda psicológica. Cita Simone Biles e pede que a entrada do breaking nas Olimpíadas -modalidade estreia em Paris-2024- transforme a cena, que atletas tenham acompanhamento profissional em todas as esferas e consigam viver da dança, cenário impossível hoje mesmo para It’sa, que com dois títulos nacionais de breaking na carreira precisou trabalhar de telemarketing na pandemia.

“Sou eu que cuido do meu treino, da minha saúde, alimentação, rede social, da minha carreira toda. Querem que eu seja campeão mundial, mas ninguém me vê treinando na quadra às 23h30 da noite, sem estrutura”, diz.

Essa é a segunda vez que It’sa vai para a etapa mundial do Red Bull BC One, que terá transmissão da Red Bull TV. Quando voltar, com ou sem título, sabe que precisará ajudar a pagar as contas da casa. Lembra que a primeira participação não foi suficiente para mudar sua realidade. Cobra que agora seja diferente.

“A pior coisa para o artista brasileiro é que num dia a gente é aplaudido por milhões de pessoas, no outro dia você tá lá no telemarketing. A galera acha que você recebe milhões… milhões de tapas na cara, porque eu chego lá em casa com o troféu e ouço ‘uai, cadê o dinheiro?'”.

SÃO PAULO, SP

Foto de capa: Eduardo Kanpp/Folha Press

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Por Folha Press

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