Após o sucesso do single “Travequeiro” — que alcançou mais de 50 mil acessos entre cliques no Spotify e no Youtube — Isma e Vita retornam com “Dotadas”. Lançado em setembro deste ano, o álbum conta com 10 faixas que passeiam entre o funk, o trap, o dancehouse e até em ritmo de louvores evangélicos. 

“Desde o ano passado a gente já vinha desenhando isso. Era primeiramente um EP, e depois da campanha de financiamento coletivo acabou virando um álbum. Refletir sobre as experiências de duas pessoas em 4 ou 5 músicas poderia deixar muita coisa de fora. Mesmo com o financiamento coletivo não atingindo a meta pro EP, a gente fez a metade da meta virar um álbum de 10 músicas”, diz Isma. 

“O ‘Dotadas’ fala muito da Vitinha e da Isminha. Além de trabalhar com o processo de reciclagem de outros espaços e experimentos. Eu sou dramaturga, cineasta e roteirista então tinha muita coisa ali que não era música, era uma dramaturgia, uma poesia ou um pedaço de roteiro de algum filme e a gente trouxe isso pra música. Nosso multitalento, multilinguagem, multi dotes pra ressignificar nossas experiências e o que nos tornou Vita e Isma”, complementa Vita. 

Mesmo com o sucesso do single, a dupla se sentia insegura em relação ao álbum. Um sentimento que mudou depois de toda a  recepção da obra. “Eu vi minhas amigas conversando e cantando as músicas do álbum. Músicas que estavam só no plano das ideias, depois no nosso bloco de notas, que a gente estruturou e colocou em um beat. Eu não quero mais sair do palco, eu quero estar em todos os lugares. Essa insegurança transmutou com o apoio das nossas amigas. Eu confio muito mais na gente hoje”, reflete Vita. 

“Tô botando mais fé que esse negócio vai render. Tô mais confiante no trabalho e esse projeto tá me salvando nesse momento. É o que tem me distraído e me dado esperança para o futuro”, ressalta Isma. 

Apesar do receio sobre a entrega do álbum, as “Irmãs de Pau”  já começaram a carreira com um feat de peso: Jup do Bairro. 

“A Jup é mais que uma referência, ela é incapaz de ser representada. Eu não conseguiria falar o que foi esse encontro. Nenhuma palavra seria capaz de descrever o que foi o encontro de Jup de Paus e Irmãs do Bairro”, diz Vita “Uma coisa muito interessante da Jup é que a gente vê muitas artistas que chegam em um patamar de várias instituições e vários circuitos e acabam esquecendo, ou sendo engolidas por esse mercado, e não consegue olhar e apoiar quem estava ali desde o começo. A Jup faz um trabalho do tempo espiralado. É o tempo sem juízo”, declara Vita.

“Ela teve a humildade de colaborar com a gente que tá começando. Eu achei muito genuíno da parte dela envolver o trabalho dela com o nosso”, complementa Isma. 

E Vita finaliza: “A gente conseguiu aprender muito vendo ela cantar e conduzir aquele rolê. Foi aulas, aulas, aulas e aulas. Nós duas somos professoras também e entendemos como esse processo de educação se forma para além da academia, sabe? A gente estava em um processo formativo nesse encontro que foi uma fusão de gerações, de experiências e de um axé muito forte que resultou em ‘Hermanas’ e que não acaba em ‘Hermanas’”.  

Kulto

Outra participação esperada no álbum foi de Alice Guél na faixa “Kulto”, que finaliza o álbum. A faixa fala sobre experiências na igreja evangélica das duas com um ritmo característico dos louvores evangélicos. 

“Eu passei 15 anos da minha vida sendo obrigada a ir pra igreja, pros cultos, a frequentar e a participar dos grupos de uma forma forçada e aí acabou que gerou alguns traumas. Uma das críticas que trazemos para o nosso trabalho é de não abandonar o passado porque é uma coisa que pode fazer muito mal na verdade. A gente não pode fingir que é outra pessoa, é outra fase, outro momento, mas não é outra pessoa que tá ali”, relata Isma. “A música é linda e é uma das músicas que eu mais gosto do álbum. Sou muito funkeira, amo todas as faixas, mas essa música quando ela chega é um momento”. 

Para Vita, esse processo de não negar o passado, nem o presente, também faz parte do processo de criação da música. “A gente não pode ignorar e eu acho que fazer música é um pouco de abrir mão, sabe? Abrir mão da ideia da música e a gente realizou muito isso nesse processo. As experiências não cabiam da forma que a gente tava produzindo então a gente começou a abandonar técnicas e rituais. Foi um processo dinâmico e não muito linear”.

Passando por todos esses processos e relatando seus momentos em faixas, não seria diferente se elas respondessem que suas referências são outras pessoas que não elas. 

“A gente fez um álbum falando sobre nós, sobre a nossa experiência. A gente inclusive crítica esse movimento de representatividade porque é como se fosse uma voz querendo falar por todas e nós somos tantas, em tantas formas, que a gente não dá conta de falar de todas essas experiências e de suprir as expectativas que criam sobre a gente e sobre o nosso trabalho”, diz Vita “Não vamos adoecer. As nossas referências somos nós mesmas, as pessoas que estavam próximas, nossa família e sobretudo nosso passado que ainda é um fantasma que percorre as nossas casas”. 

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Irmandade 

As duas se conheceram em 2016, durante a ocupação secundarista, se aproximaram muito e tiveram uma convivência de irmãs, que foi parcialmente rompida por um distanciamento obrigatório quando passaram na faculdade. Isma foi para Uberlândia e Vita para Araraquara. Agora, com o projeto, elas estão ainda mais próximas do que já foram.  

“Nunca tive dúvidas que tinha uma irmandade muito grande aqui. Sempre senti ela como uma irmã mesmo de poder contar com tudo, para o que der e vier. E agora a gente voltou a estar muito juntas, mas [precisamos] conciliar o tempo do projeto e o tempo da nossa amizade. Antes mesmo de entrar nessa vídeo chamada pra entrevista eu tava em uma ligação só com ela, desabafando.  É muito importante isso pra gente não deixar virar uma coisa só de trabalho, uma relação de mercado”, explica Isma. 

“A gente era de um grupo de amizades que tinham muitos gays. a gente não sabia nomear a nossa experiência e o que a gente era mas quando a gente se olhou ficou aquele sentimento de ‘porra, tem outra de mim aqui, eu sei onde posso me apoiar e contar as minhas coisas que as minhas outras amizades não vão entender’. A gente demorou um tempo pra fazer um projeto juntas, a Isma sempre me ajudou nos meus projetos individuais e eu sempre ajudei nos dela, mas antes a gente nunca tinha trabalhado juntas. Acho que demorou um tempo mas foi o tempo necessário. Esse foi o momento ideal. Se a gente tivesse feito uma coisa lá atrás não teria sido a potência que foi e está sendo esse”, explica Vita. 

E completa “A gente é irmã antes de ser irmãs de pau. A gente aprendeu a falar com outros sentidos. Eu olho pra Isma e dependendo de como tá o corpo dela eu já sei que ela não tá gostando. A gente conseguiu trabalhar outros sentidos, a gente se comunica pela intuição também, eu acho que isso foi um axé, saber se comunicar não só pela palavra. Eu acho que estar juntas tem sido a nossa maior arma e armadilha, estar juntas e falando sobre vida, sobretudo”. 

Crédito: Lucas Silveira

Nos planos para o futuro, para uma era pós- dotadas, Vita diz que elas desejam continuar sendo Isma e Vita em todos os lugares que ocupam, festas, faculdade, secretária de cultura, nas ruas e principalmente dentro de casa, com o apoio mas ainda assim sem a total compreensão dos familiares sobre o que elas estão fazendo “Eu entendo que eles não entendem o que a gente tá fazendo e aonde a gente quer chegar, mas a gente não preza por ser entendidas”. 

“Antigamente eu só podia ser a Vita dentro do banheiro da minha casa, com só uma toalha, que era meu picumã, e hoje em dia posso sair na rua, comprar uma lace, trançar o meu cabelo justamente porque antigamente eu podia imaginar. Quando eu era pequena eu imaginei tanto que se tornou real. Pra mim é esse processo que a gente também tá. Imaginando outros lugares, trabalhando também a impossibilidade”, completa. “Esse álbum fala muito desse lugar de violência, mas  a gente tá falando sobretudo na maioria das músicas sobre afeto. Acho que “Dotadas” é dotadas de muito amor também.  A gente vive essa questão da solidão da mulher negra, da travesti, vive tanto essas questões que colocar em formato de risada é uma forma de ressignificar esse amor romântico. Foi tudo um truque. Um equê. O equê significa truque no pajubá.  A gente viu tantas outras como Linn, Pepita, Jup, Alice, Dellacroix, MC Dricka, Deize Tigrona, MC Carol e todas as outras fazendo e a gente se questionou porque a gente não pode fazer sobre a nossa realidade, sobre a nossa experiência. Esse álbum vem dessa encruzilhada de encontros de experiências”. 

Foto de capa: Lucas Silveira

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Por Thais Eloy

Taubateana e Jornalista.

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