Com o financiamento coletivo para o primeiro EP “Dotadas” chegando ao fim esse final de semana, Isma e Vita começarão a divulgação com uma grande oportunidade: hoje, elas serão uma das apresentações do Festival Bixanagô, com o pocket show “Atravecamentos”, que acontece às 20h, no canal do festival no Youtube.

Isma e Vita, as Irmãs de Pau, se conheceram dentro de uma ocupação secundarista em uma escola de Barueri: ” A gente fazia parte de um coletivo, de pessoas trans e periféricas sobretudo, e tinha contato com várias manas de outras escolas. Quando chegou esse projeto de reorganização escolar proposto pelo Alckmin, a gente se organizou para ocupar as escolas de Barueri e passamos dois meses em ocupação” conta Vita. Além de ataques policiais, a ocupação também recebeu ataques da comunidade por ser majoritariamente LGBT+, com maioria trans.

Apesar dos empecilhos, conseguiram realizar muitos debates sobre educação e reflexão sobre seus corpos.

“A gente conseguiu ser quem a gente era dentro da ocupação 24 horas por dia. Viemos de um contexto de igreja católica e evangélica e, às vezes, a gente só conseguia ser Isma e Vita nos rolês. Quando voltava [para casa] já tinha que performar o que os nossos pais esperavam de nós. Eu já era Vita, mas tava em um processo muito recente”.

Isma complementa a importância dessa convivência na ocupação: “Eu nunca tive um tempo tão grande usando roupas que eu queria e gesticulando da forma que eu queria […] Não era travesti ainda, mas já conhecia a Vita pelo coletivo, na ocupação ficamos muito juntas e viramos irmãs”. Isma achou “incrível” que os pais de Vita não sabiam que ela era travesti, e foi nesse momento que ela entendeu que para ser travesti, não precisava de autorização.

Isma Almeida é multiartista, trabalha com dança, música, DJ, produção cultural entre outras linguagens e está se formando em Pedagogia. É a idealizadora do Baile da Cuceta e artista das faixas “Travesti Maconheira” e “Vem Fud*”, que conta com mais de 7 mil visualizações no YouTube.

Vita Pereira coleciona mais de 25 prêmios no cinema e participou mais de 70 festivais internacionais e nacionais com obras celebradas como “Perifericu” (2020) e “Picumã”(2019). A artista também é formada em Pedagogia.

Apesar delas estarem se apresentando agora pela primeira vez como dupla, ambas já trabalhavam solo em outros projetos e essa não é a primeira vez delas no palco.

Acostumadas com a troca com o público, gravar o show em um contexto pandêmico, foi um processo muito diferente: ” Estamos fora dos palcos há um ano e meio. […] A gente sempre foi desse calor, dessa troca com as pessoas. Eu tenho muito saudade do palco. Saudade de ver gente sem máscara. Ver bocas. Eu nunca pensei que ver boca e nariz me faria falta. Uma coisa nada a ver, sabe?”, ri Vita.

O pocket show “Atravecamentos” traz “Travequeiro” primeiro single da dupla e outros trabalhos individuais. A oportunidade caiu perfeitamente no momento e as duas foram selecionadas pela curadora do evento Jup do Bairro, que não precisa de apresentações.

A edição de 2021 do BixaNagô – Empoderamento e Estética Negra, será a primeira apresentação da dupla, um grande marco carreira ainda iniciante: “A gente vê que artistas independentes começam com shows pequenos, em festas pequenas e a gente já começou com um show foda, agarramos com todas as forças essa oportunidade e ‘vamo que vamo'”, diz Vita.

“A gente tava sem expectativa de fazer isso tão cedo e estar do lado de artistas que admiramos há muito tempo. Vimos o edital e olhamos o critério e pensamos ‘não conseguimos fazer esse bafo’ e acabou que eles procuraram a gente”, relata Isma. Esse conteúdo vai ser essencial para a divulgação da dupla nas redes sociais até a chegada do EP.

O material audiovisual feito no show é essencial para elas, já que não conseguiram editais e não contam com grandes patrocínios: “A gente tem várias criminalizações. A primeira é o funk. Hoje em dia tem mega operação pela prisão de MCs, alegam que eles recebem dinheiro do tráfico, mas a gente sabe que essa perseguição é histórica com a produção de pessoas negras. Teve a capoeira, o samba e agora com o funk. Nós somos travestis negras e isso piora o quadro. Nós não somos travestis dispostas a falar de coisas que vão deixar os ouvidos confortáveis. Nós somos irmãs de pau, não irmãs de paz”, brinca Vita.

Ela também questiona a questão da visibilidade e diz que busca “vivibilidade”.

“Estar viva, ter condições estruturais, materiais, financeiras, psicológicas para manter nosso trabalho que também é falar sobre Brasil, sobre memória e sobre as possibilidades de ser travesti. A gente veio da academia, tem muito essa questão da gente [travestis] ser objeto de pesquisa sobre teses e nesse processo, nós somos sujeitas. Queremos falar sem papas na língua. […] A gente não tá disposta a negociar a nossa vida para entrar em alguns espaços”, pontua.

Isma diz que já sabia que não seria fácil chegar no valor total da Vakinha, mas que isso não vai fazer com que elas desistam: “A gente não vai desistir, não vamos abrir mão da gente. A gente sabe que vai acontecer de alguma forma. Tem uma galera que tá apoiando e tá fechando com a gente e se agarra nisso […] Eu estou muito cansada, queria ver meu Instagram limpo porque é um pouco humilhante também você estar na internet pedindo dinheiro”.

Vita concorda e complementa o pensamento da amiga: “É [importante] entender a precarização [causada por] esse governo que a gente vive hoje, é um reflexo disso. Se a gente tivesse editais, apoio estrutural de políticas públicas para financiar, sobretudo essa galera do funk da periferia. Tem editais, mas não chegam nessas pessoas por elas não terem CNPJ e outras diversas burocracias”.

As referências para o EP vêm da própria história delas, como o single “Travequeiro“, que segundo Vita, sempre aparece na vida delas: “Às vezes caímos na cilada do travequeiro. A novela é a mesma, só o muda o corpo da travesti e o lugar que ela tá. […] Quando falamos que estamos falando de afeto nessa música algumas pessoas dão risada. São afetos e desafetos porque a gente vem de um lugar muito carente. Precisamos construir nossa própria afetividade. […] Os travequeiros são os famosos curiosos que zoam as travestis com os amigos mas, sozinho, vai no aplicativo procurar a gente. O Brasil é o país que mais mata travestis e também é o país que mais pesquisa pornografia trans no mundo. É um desejo muito forte mas permanece nas esquinas, na noite, no quarto. Não é um desejo que eles têm vontade de tornar público. Quando a gente joga com isso é jogar esse desejo pro público e falar sobre essa construção do desejo no imaginário social de como travestis devem ser amadas e receber migalhas. Eu quero sentar na mesa e comer a entrada, prato principal e a sobremesa. Eu não quero as migalhas”.

Isma continua: “Eu acho que a gente pode transformar isso, pode existir um travequeiro que tenha orgulho de ser travequeiro mesmo. […] Gostaria que eles se orgulhassem e fossem aquele que levam pra um restaurante, pra família e põe uma aliança no dedo. Que enxergue possibilidades além de só uma transa”.

A dupla também enfrentou resistência entre mulheres trans: “A Linn Da Quebrada tem uma música que fala isso e na época ela foi muito atacada por LGBTs no geral, então a gente já sabia que também seria. Algumas pessoas falaram que era nada a ver chamar mulher de pau porque existem pessoas trans com disforia. Nós somos travestis e não temos problemas com a nossa genitália. As pessoas estão acostumadas com uma única representação e esperam que essa pessoa fale por todas. Nossas histórias também precisam ser valorizadas e contadas e vai ser por nós mesmas. Nesse EP falamos sobre a realidade de Vita e Isma. A gente não tá disposta a falar sobre todas porque a gente não vive todas as realidades. […] Tem outras funkeiras travestis que não falam sobre se dar bem com a própria genitália e aí nos enquadraram como falocêntricas. É errado falar isso. A gente está em um processo de auto amor e auto cuidado. As pessoas olham para a gente na rua e vão primeiro na barba e na genitália. Temos marcadores sociais, olhares de auto ódio que fazem com que a gente se sinta mal. Estamos falando sobre aceitar e amar o corpo que a gente tem”, pontua Vita.

Isma se incomoda muito com questionamentos sobre sua genitália e sobre tentativas de tentarem negar sua existência enquanto mulher trans: “Eu acho riquíssimo falar sobre travestis que não tem problema com o pau e que são felizes. As pessoas se perdem muito nessa coisa de representatividade e acreditam que uma pessoa vai representar todas as travestis e isso é um problema enorme. Só mantém estereótipos. A ideia é mostrar que somos plurais”.

Vita traz um outro questionamento para o debate.

“As pessoas têm um vício de dicionário, sabe? Travesti tem que ter um significado e se você não está nesse conceito, você não é travesti Muitas pessoas acham que mulher trans é aquela que quer a redesignação sexual e travesti é aquela que não quer. A quem interessa essas distinções? Quando a gente recebe críticas, principalmente vindo de pessoas trans sobre o nosso trabalho, é para provocar esse debate. Não somos iguais”.

Agora com o fim da divulgação da Vakinha, a dupla se prepara para gravar as músicas que faltam e produzir um novo clipe e Vita espera contruir em coletividade um novo cenário: “O EP ‘Dotadas’ não é no sentido de genitália, mas de grandeza e possibilidades. E impossibilidades também como o pouco dinheiro.” Mesmo com metade do valor arrecadado até o momento (é possível doar até domingo por esse link ou diretamente pelo PIX da Isma: 460.980.358-57), agora elas estão muito ansiosas para a produção do EP e já planejam o possível lançamento de um álbum: “Eu percebo que as pessoas criaram um afeto pela gente e, como diz a Jup, precisamos transformar em uma coisa efetiva. Não basta amar e achar tudo maravilhoso, é ajudar acontecer de forma real”, finaliza isma.

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Por Thais Eloy

Taubateana e Jornalista.

One thought on “Irmãs de Pau: “Nós não somos irmãs de paz””

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